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Os cidadãos, o património cultural e a pandemia


A pandemia esteve no centro das preocupações este ano. No campo do património cultural os efeitos também se fizeram sentir e mantêm-se grandes questões sobre o futuro dos bens patrimoniais. Foram promovidas investigações e apresentados resultados, quer em Portugal, quer ao nível mundial, no sentido de entendermos um pouco melhor os efeitos e, muito importante, podermos agir com base neste conhecimento.


Também os cidadãos foram convidados a apresentar as suas reflexões. O Fórum do Património lançou um inquérito às ONG sobre o património cultural e os efeitos da pandemia, procurando a opinião das associações de defesa do património em termos dos impactos sentidos, das possíveis e necessárias medidas futuras e ainda o papel que os cidadãos podem desempenhar neste processo. As opiniões recolhidas testemunham a diversidade regional em que as várias entidades estão implantadas.


É precisamente sobre o papel podem os cidadãos fazer que se reflete. As respostas dadas ao referido inquérito são muito pouco conclusivas sobre este tema. Afinal de contas, o que podemos nós fazer? Sim, porque sejamos francos: maior sensibilização dos cidadãos e das comunidades, ações de divulgação do património ou vigilância ativa do património pelos cidadãos – que são algumas das conclusões – são as atividades essenciais e de raiz das associações. Ou seja, não deveriam estar em “o que podem os cidadãos fazer”, mas sim o que os cidadãos já fazem.


É sobre formas mais ativas de ligar e “engajar” os cidadãos na matéria da salvaguarda do património (outra das conclusões), que se espera alguma novidade ou alguma forma inovadora agirmos. Eu diria que uma das primeiras formas seria uma adesão mais substancial às associações de defesa do património e (re)iniciar um processo da sua capitalização humana. Assim, os cidadãos podem, numa primeira fase, juntar-se a uma associação de defesa do património (ADP).


Depois, contribuir para planos de atividades que sejam exequíveis, com os meios que as associações têm ou conseguem negociar. As mais sugeridas pelo inquérito realizado foram atividades no âmbito da Educação Patrimonial em vários níveis e tipos de aprendizagem (formal, informal, não-formal). Mas, se não se juntar a uma ADP, pode pôr em prática estes instrumentos lá por casa, com o núcleo familiar ou com os mais próximos. Há quanto tempo não visita um monumento, um museu, faz um percurso de localidade histórica, uma rota, participa numa atividade cultural ou artística? Mesmo que seja virtualmente.


A comunicação é outro tema importante. Nas plataformas digitais online, neste momento já não é apenas ter uma conta de Facebook, Instagram, ou, vá lá, Twitter, Snapchat, mas sim usar os conteúdos que publica (UGC) para a salvaguarda e valorização do património. Se o que se almeja é um património mais conectado com as pessoas, ou as pessoas mais conectadas com o património, então poderemos também aplicar este conceito na comunicação que fazemos individualmente nas plataformas que usamos e sermos nós a promover os bens patrimoniais ao invés de esperarmos que estes mesmo bens o façam, para depois, numa atitude mais reativa, fazermos um like. Também isto podem os cidadãos fazer.


Tal como tem acontecido desde 2017, também este ano o Fórum do Património voltou a juntar as associações e grupos de cidadãos dedicados à defesa do património. A edição de 2020 decorreu no dia 17 de dezembro e, como um conjunto de outras iniciativas, também se desenrolou no meio digital, sob a forma de um webinar, este ano sob o tema “Defendendo o património em tempo de pandemia”. Adotando um duplo conceito - riscos e oportunidades – era essencial que as ONG pudessem interagir, trocar experiência e expressar as suas preocupações e expetativas. O certo é que as ADP são unânimes em considerar que a pandemia promoveu formas de reflexão sobre o património cultural que há muito eram necessárias e que veio equacionar o papel do património cultural nas nossas vidas, muito por via da ausência da sua fruição.

A autoria utiliza o Acordo Ortográfico.


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BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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