BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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A actualidade do património cultural em Portugal

Um projecto

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Negociação


Para que servem o património e os museus na sociedade atual?


Existe uma difusa compreensão de que o seu papel mudou, pelo menos parcialmente. Essa compreensão tem levado alguns a considerar que a natureza dos museus deve mudar, situando-se na esfera da disseminação de informação alinhada com novos valores societais emergentes, recorrendo essencialmente aos novos veículos de comunicação e atraindo mais públicos.


A compreensão das necessidades é uma negociação permanente entre contextos percecionados a curto prazo e tendências integradas a longo prazo.


A diferença entre contextos e tendências está, certamente, no valor atribuído a cada um. Mas uma diferença maior reside no fato de que os contextos implicam valores que condicionam imediata e efetivamente as opções humanas (muito restringidas a ações reativas), enquanto as tendências integram valores construídos no longo prazo e, por isso, mais fortemente condicionadas pelas visões humanas do futuro, por sua vez mais ou menos informadas pelo seu entendimento do passado. Nos últimos três séculos, esta dualidade produziu abordagens divergentes às relações adaptativas entre seres humanos e meio ambiente, enfatizando a vontade e a agência humanas (como em Nietzsche ou Marx) ou destacando restrições ambientais ou outras extra-humanas (como em Hegel ou Darwin). Em qualquer uma das abordagens acima mencionadas, a palavra-chave é "processo", isto é, o “envelope” no qual as necessidades são expressas e as estratégias humanas são executadas.


No alvor da modernidade e da afirmação de elites amplas e intelectualmente alinhadas com estratégias de expansão imperial, os gabinetes de curiosidades e a catalogação de coleções de vestígios do passado surgiram como espaço de formação ampla, multidisciplinar, global e cosmopolita, dessas elites. O alargamento progressivo dos direitos humanos e da participação cidadã, bem como a complexificação dos processos produtivos requerendo uma camada dirigente mais ampla, apoiou-se na criação de museus públicos, sempre encaradas como escolas de formação para a governança e a prospetiva.


O “envelope” que levou ao atual contexto de perceção da “urgência de reformas” e da "emergência climática" começou a ser desenhado no pós-Segunda Guerra Mundial, por meio de uma combinação de dois fatores principais: os avanços científicos que, a partir da década de 1950, levaram ao otimismo em uma “estratégia orientada para solução de problemas”; e as transformações sociais e económicas que, a partir de meados da década de 1960, provocaram crescentes dúvidas sobre a capacidade dos modelos de gestão política existentes para lidar com as novas necessidades recém-percecionadas, relacionadas com a expansão dos direitos individuais.


As últimas sete décadas expressaram, portanto, uma tendência peculiar, que tendeu a estruturar um processo de longo prazo não por meio de um conjunto de metas globais de longo prazo, ou utopias, mas através de uma série de objetivos singulares de curto prazo.


A virtualização do comportamento, a expansão das agendas de curto prazo, o envelhecimento e a mudança para uma educação “STEM” (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) orientada para o mercado, são componentes dessa mesma tendência, interdependentes e alimentando-se mutuamente numa “grande aceleração” destrutiva. O debate e a disputa pública tendem a ser substituídos por visões totalitárias, “bem-intencionadas” e simplificadas, alimentadas por “perspetivas únicas”, sem espaço para a reflexão e a interação. A reação contra os totalitarismos coletivistas da primeira metade do século passado, gerou um caleidoscópio de agendas singulares, cada uma tentando impor-se às demais. São expressões desse processo a crise dos Estados-Nação (que depois de um ciclo de pendor confederativo parecem dar lugar a redes de cidades, abrindo novo espaço à insegurança entre elas), a pulverização ingénua de discursos identitários (que alimentam pulsões xenófobas) ou o clamor pelas emergências (simplificando as contradições entre elas).


A noção de património ampliou-se, integrando agora paisagens inteiras, para acompanhar esta pulverização de interesses. Pode, porém, consolidar-se apenas como expressão dessa pulverização (e, nessa perspetiva, assumir-se como um produto destinado a mercados específicos de consumidores) ou assumir-se na lógica secular e formação de elites (o que, numa sociedade democrática implica a abertura global à sociedade), não tratando os seus utilizadores como clientes de um produto e sim como potenciais dirigentes que devem aprender a co-construir mecanismos interpretativos e de ação complexa.


A negociação necessária entre os contextos percecionados no curto prazo das mudanças digitais e as tendências integradas de longo prazo que podem melhorar ou atrapalhar a vida dos seres humanos e dos seus ecossistemas, é claramente uma tarefa para as Humanidades, e em particular para os Museus, e pode-se mesmo argumentar que ela é a nossa tarefa mais urgente.


O papel social das Humanidades, do Património e dos Museus é o de contribuir para retomar o equilíbrio sociocultural, integrando o conhecimento e, em particular, a tecnologia, que é uma condição prévia para a prospetiva. Essa integração permite deixar de considerar apenas os problemas contextuais (por exemplo, tentar atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável um a um) para enfrentar dilemas fundamentais e retomar uma postura que percebe a incerteza como a natureza do futuro, e não como um "problema a ser resolvido".


Trata-se de estabelecer uma ponte racional entre o passado percecionado, de tradições e memórias (que é uma abordagem congelada, mítica e muitas vezes etnocêntrica e xenofóbica do passado, de que a violência doméstica é um exemplo) e uma compreensão racional do passado (enraizado em metodologias comuns e retratando a diversidade, mas também a convergência do passado comum dos seres humanos).


Essa ponte é essencial para a compreensão de continuidades culturais, recorrências, descontinuidades e inovações, que são fundamentais para projetar visões de médio e longo prazo.


E os Museus são, possivelmente, dos melhores espaços para promover tal dinâmica, se se assumirem como instrumentos de dinamização territorial e não como espaços de lazer e consumo.


*Para conhecer novos projetos que repensam o património e a conexão com a sociedade atual: https://bifrostonline.org/paris-bridges/

O autor utiliza o Acordo Ortográfico.


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