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Marta Ornelas, professora e fundadora da Arte Central






Nome completo: Marta Sobral Ornelas

Local e ano de nascimento: Luanda, 1974

Principais interesses: Arte, museus, educação, pedagogia, viagens...

Formação académica: Doutoramento em Educação Artística, pela Universidade de Barcelona

Cargo actual ou último cargo desempenhado: Professora do Ensino Artístico Especializado e fundadora da Arte Central


Como foi o seu percurso profissional? Por onde começou e por onde passou?

Sempre gostei de arte, o meu pai levava-me com frequência a museus e exposições e aos 15 anos fiz a minha primeira viagem a sério a Paris, onde me apaixonei pelo legado dos artistas nos museus e por toda a envolvência artística da cidade, com a qual criei uma relação emocional muito forte. Fiz o secundário de Artes, sem qualquer hesitação na escolha e licenciei-me em Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

Quando terminei a licenciatura, em 1997, fiz um estágio profissional de um ano, no Centro Português de Design. Foi uma experiência muito positiva, mas tive vontade de prosseguir com um trabalho diferente, que me permitisse sair de um gabinete fechado e lidar com mais pessoas e menos com o computador.

Decidi então ser professora no ensino secundário. Apesar de a vida de docente ser difícil, por exigir bastante dedicação e de ter um frágil reconhecimento social e laboral, estar junto dos jovens e com todas as dinâmicas de uma escola é onde me sinto realmente bem. Entretanto reconheci que deveria continuar a especializar-me e fiz o Mestrado em Museologia e Património na Universidade Nova de Lisboa, que terminei em 2006, com uma dissertação sobre Design de Comunicação nos Museus, orientada pela Doutora Natália Correia Guedes, de quem tenho muitas saudades. Era uma área pouco estudada em Portugal, e continua a ser, mas também não lhe dei continuidade, pois comecei a envolver-me cada vez mais com os temas da educação artística e da relação entre as escolas e os museus. Foi também a partir desta altura que me tornei membro da Associação de Professores de Expressão e Comunicação Visual (APECV) e da Rede Ibero-americana de Educação Artística (RIAEA), e comecei a desenvolver trabalhos de investigação de forma independente, participando e colaborando na organização de congressos e encontros científicos.

Acabei por fazer o Doutoramento em Educação Artística na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Barcelona, com uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Defendi a minha tese em 2016 sobre o papel da autoria dos jovens na relação entre a escola e os museus de arte contemporânea, orientada pelo Professor Fernando Hernández-Hernández, a quem devo mesmo muito do que sei. Foi uma experiência importantíssima na minha formação pessoal e profissional.

Quando regressei de Barcelona, dei aulas na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, no Mestrado em Educação Artística, que entretanto encerrou, apesar de posteriormente ter voltado a reabrir. Regressei ao ensino secundário por opção, onde me mantenho até hoje.

Entretanto fundei a Arte Central, uma empresa que tem como principal meta fazer chegar a educação artística a crianças, jovens e adultos, com objectivos muito concretos, nomeadamente a criação de relações próximas entre a arte e as pessoas, baseadas no questionamento, no debate, na partilha, na experimentação e na colaboração.


Onde está hoje e o que faz?

Sou professora na Escola Artística António Arroio. É uma escola muito especial. Ao contrário das outras escolas secundárias, que servem zonas geográficas limitadas, a Arroio acolhe quem a escolhe, seja de que parte do país for. Por esta razão, a escola tem uma identidade muito própria baseada em princípios humanistas, de liberdade, de tolerância e de solidariedade.

Sou também investigadora do CIEBA (Centro de Investigação e de Estudos em Belas Artes, da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa) e faço parte da direcção da APECV (Associação de Professores de Expressão e Comunicação Visual).

Paralelamente, fundei a Arte Central, numa tentativa de fazer chegar a educação artística aonde achava que a mesma fazia falta, partilhando o conhecimento que entretanto adquiri e produzi com o Doutoramento.

Respondendo literalmente à pergunta, hoje mesmo estou em casa, em regime do que se designou como teletrabalho, distanciada das relações sociais presenciais, por razões de uma pandemia que infelizmente ficará na história como um momento difícil na vida de todas as pessoas. Mas tenho esperança no futuro.

Qual elegeria como o projecto mais relevante que levou a cabo, até ao momento, para o sector do Património?

Foram muitas as experiências marcantes, mas confesso que a Arte Central foi a mais relevante, na medida em que a criei de raiz, desde os primeiros rascunhos da ideia até à sua implementação e manutenção, para a qual contei também com o apoio de outras pessoas próximas que me são muito queridas.

Nasceu da necessidade de levar a educação artística às escolas, considerando aqui o conceito de Património intrinsecamente ligado às artes visuais. Com uma preocupação pela qualidade das actividades desenvolvidas, centrámo-nos primeiro na criação de workshops para o 1º ciclo, por estarmos em crer que é o ciclo de escolaridade onde as crianças se confrontam com uma quebra na relação com a expressividade artística e com o pensamento crítico a partir das artes, bem como na relação com as artes em geral. Contudo, acabámos por alargar a nossa actividade aos restantes níveis de ensino e à formação de professores, estes últimos carentes de formação interessante na área artística, segundo as suas palavras. Temos tido um feedback incrivelmente positivo, superando as nossas expectativas iniciais. Fazemos questão de contar com profissionais qualificados e com parcerias das quais nos orgulhamos muito, como o Museu da Água da EPAL, a Casa das Histórias Paula Rego, o Bairro dos Museus de Cascais, o Centro de Formação Almada Negreiros, o Jardim Zoológico de Lisboa, o Museu de São Roque, a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género da Presidência do Conselho de Ministros e a Rede de Bibliotecas Escolares, entre outras, que acreditam na nosso projecto e valorizam a qualidade que nos esforçamos por implementar.

Hoje, a Arte Central é membro da International Society for Education Through Art (InSEA) e da Worls Alliance for Arts Education. Quem tiver interesse, pode encontrar mais informação aqui.


E qual "aquele projecto" que ficou por fazer ou completar?

Tudo o que a Arte Central tem por fazer ou completar. Ideias não faltam, estão registadas e aguardamos oportunidade de concretização, sempre no sentido dos objectivos que definimos para a empresa, entre os quais estão, como referi anteriormente, a criação de relações próximas entre as artes visuais e as pessoas, não só pelo contacto, questionamento e partilha, mas também pela produção, e ainda a divulgação do trabalho de artistas mulheres, da arte portuguesa e do património local. Estamos sempre a aprender e a ideia de "fazer ou completar" está também relacionada com o que pretendemos melhorar. Quereremos sempre fazer mais e melhor, isso nunca vai mudar porque está na identidade das pessoas que fazem parte deste projecto.


Qual a experiência humana que mais a marcou ao longo da sua vida profissional (colega, chefe, grupo de trabalho…)?

Identifico três experiências marcantes. A primeira terá sido a relação criada com as pessoas que fazem parte da APECV, com quem aprendi que o que importa mesmo são as relações humanas e a capacidade transformadora da educação artística.

A segunda foi a experiência de todo o processo de investigação na Universidade de Barcelona, que me permitiu trabalhar com práticas colaborativas de produção de conhecimento, às quais não estava acostumada, através do estímulo à discussão e à partilha, o que mudou a minha percepção sobre o valor do conhecimento e a relação deste com o poder. Além disso, a partilha de conhecimento implica a generosidade de levarmos aos outros o que sabemos, enriquecendo-nos a nós próprios com o feedback, também generoso, que recebemos. Contudo, em Portugal, a nível académico, recorre-se pouco a estas práticas, é uma questão cultural.

A terceira foi a experiência de ser mãe. Normalmente quando falamos da nossa vida profissional tentamos separá-la da vida pessoal, mas não é possível. Não sou a mesma pessoa desde que sou mãe, portanto, como experiência humana de cuidar, proteger, educar, acompanhar o crescimento de uma criança, neste caso duas, também marcou a minha vida profissional de forma muito significativa, nomeadamente porque a maternidade é um tema invisível na academia e seria necessário abordar o problema a partir de uma perspectiva de género, mas isso daria outra entrevista.


Se tivesse possibilidade de voltar atrás, faria algo de forma diferente?

Nunca penso nisso. As nossas escolhas são feitas de acordo com a informação de que dispomos a cada momento, portanto as minhas opções sempre foram conscientes, nesse sentido.


Que conselho daria a quem está hoje a iniciar a sua carreira profissional na área do património cultural?

Quem está hoje a iniciar é uma geração que já não está habituada a ouvir falar em estabilidade profissional. Contudo, prezo muito as questões relacionadas com os direitos de quem trabalha, portanto, um conselho que eu daria seria o de continuarem a lutar pela dignificação da profissão, sobretudo ao nível das condições de trabalho e salariais, porque a arte e a cultura, e até a educação, sofrem deste "mal" de serem consideradas áreas secundárias que não atendem às necessidades básicas do ser humano.

Outro conselho que daria seria o de aprender sempre, ter disponibilidade para continuar a aprender e nunca desistir de aprender, porque as habilitações académicas não correspondem necessariamente às competências de que necessitamos para desempenharmos as nossas funções.

Um último conselho que daria seria a defesa e a prática da partilha de conhecimento. O conhecimento que produzimos vale de muito pouco se servir apenas para ficar armazenado nos repositórios das universidades. Partilhá-lo permite que o nosso ponto de vista seja confrontado com outros, o que enriquecerá a nossa perspectiva.


O que deseja para o sector do património em Portugal?

Na data em que escrevo estas palavras, o mundo vive um período muito particular. As pessoas estão confinadas em casa, não podem sair e o futuro é bastante incerto. A área cultural está a sofrer consequências absolutamente dramáticas. As escolas e as instituições culturais estão encerradas. Não há públicos. Há desemprego. Neste momento, um momento de emergência nacional, o meu maior desejo é o de que se ultrapasse o problema de saúde com o mínimo de dano possível e que a recuperação gradual das nossas liberdades inclua a recuperação da dignidade dos profissionais do sector cultural, criativo e educativo.

Partindo do pressuposto de que o meu primeiro desejo é atendido (que é mais importante do que os restantes pela situação de emergência e imprevisibilidade que vivemos) posso pensar noutros desejos.

Gostaria de assistir a uma relação mais estreita entre as estruturas escolares e as instituições culturais. Apesar de existirem diversos projectos bem sucedidos que aproximam por exemplo escolas e museus, tratam-se de projectos pontuais, sendo o distanciamento a generalidade.

Gostaria que houvesse mais partilha de conhecimento e menos formalidade. A discussão de ideias e o trabalho colaborativo já deram provas, em vários estudos académicos, de que, quer pessoas, quer colectivos, quer instituições, beneficiam de forma muito positiva com estas práticas na produção de conhecimento.

Gostaria ainda que se pudesse atender às necessidades do jovens, programando com eles e não para eles. Os adultos não podem substituir-se aos jovens quando pensam actividades para eles, há que tratar este assunto de uma forma mais integrada, mais orgânica, o que levará a que as estruturas não sejam tão fechadas e incluam a voz dos jovens nos seus planos. Já existem experiências neste sentido que têm sido bem sucedidas, podemos sempre aprender com o que já está feito e tentar melhorar o que entendermos merecer melhoras.



As sugestões de Marta Ornelas:


Em tempo de isolamento social, as minhas propostas são todas de consulta virtual. MUSEUS

25 museus virtuais para visitar a partir do sofá


CURSOS

10 University Art Classes You Can Take for Free Online


ENCONTROS

32º Encontro APECV “Perspetivas do Tempo na Arte e na Eduçação” - 9 e 10 de maio de 2020 (online)


LEITURAS

Revista EARI - Educación Artística Revista de Investigación


PROJECTOS

Colectivo C3 - Célula de Resistência educativa e Artística - Arteducativismo



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BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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