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God’s Away on Business



Lisboa, fim de Março de 2020, 11h44. Nas ruas não se vêem ratazanas. É curioso. Todos os demais rapaces bichos menores se cruzam nos nossos caminhos. Talvez por terem asas para azularem em caso de pavor. Tinha Konrad Lorenz razão: se nos virmos como bichos (e bichos somos) a espuma dos dias torna-se muito mais clara.


Excruciantemente clara na dureza da luz de uma Primavera ainda a começar, que anuncia o fosfeno das pulsatilas se fechamos os olhos à beira do Tejo; o néon diurno dos jacarandás; e as maias que cobrem já os parcos talvegues da cidade. Uma aldeia onde nos cumprimentamos uns aos outros, estranhos só formalmente. Uma aldeia tem sido a metrópole do império quinto que afinal nos traz a álgida consciência de que até aos finados, de uma maneira ou de outra, cada um de nós estará de luto por outro alguém.


Uma lâmina rasante de vento soergue o pólen cor de açafrão das árvores que nos faz tossir de alergia e encolher os ombros de um pânico não disfarçado. De supetão, às Portas de Santa Catarina, o músico-pedinte que tem a cara e o talento de Tom Waits trauteia num portasound desdentado de sustenidos e numa guitalele sem cordas de aço de sol nem bordão de ré, God’s Away on Business.


Apertamos as mãos quando lhe pouso as moedas nos dedos anelados de talismãs Malta, Lourdes e Fés. Sorrimos na plena consciência do absurdo certeiro da frase daquele que está ali sentado à beira da Brasileira, hoje liberto de turistas: «o homem é um cadáver adiado».


O meu colega pergunta-me que raio faz ele ali sentado. Não o Pessoa, que esse já se despachou, o pedinte. «A trabalhar, como nós. Está como tu e eu, se não vier para a rua não come. Ou achas que somos muito diferentes uns dos outros?». Entretanto uma ratazana esquiva-se para os baixios da Benard. Fica esviscerada e defunta por duas pedradas e eu e o pedinte voltamos a rir um para o outro. Que inusitado gosto e vê-la a rabiar picada por uma afortunada gaivota.


Feitas bem as contas, somos afinal diferentes uns dos outros. Mas não deste músico.


God bless you Benard’s Tom.


Lisboa (degrau da Benard – encerrada) 12h24, 21 de Março de 2020



#OPINIÃO #ALEXANDRESARRAZOLA #LISBOA #FICAREMCASA

BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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