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DRESS Polly Jean

Atualizado: Mar 31



Escrevo estas linhas no Dia da Mulher, efeméride mote das minhas palavras em modo de celebração, embora considere – elucidativamente - imbuir-se de uma certa correcção política (a que sou avesso) da igualha das cotas: com ambas concordo e deito fora silogismos que amiúde são propalados para mascarar a transversal e mais que evidente absência de equidade de género em todas as áreas da administração pública, da academia, do Governo e da espuma dos dias. A manchete do Diário de Notícias de hoje, elucidativamente, não surpreende ninguém, assim como será uma anódina constatação de um atávico modus vivendi para muito(a)s: «Só uma em cada 15 pessoas no mundo tem uma mulher como líder». Enquanto assim for, apoio as cotas e lembro o dia.

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A luz rasante do alto plaino de Zaragoza encandeia a filtragem da percepção ocular o dia inteiro da alba cega à ablepsia do poente e regressamos sempre com a memória de um filme de Buñuel, natural da cidade da La Republicana. Uma adorável sã convivência entre o mais fervoroso e liturgicamente complexo catolicismo e a equivalente omnipresença de marcas do ideário anarcossindicalista apropriado à nascença, naturalmente acicatado no inferno de 36-39 – a coolness estética como prolongamento de uma ética finissecular. Mãe e filha da Guerra Civil.


Era então o álgido Outono 2004 e do Congresso De la excavación al público procesos de decisión y creación de nuevos recursos, nesse ano organizado na cidade de La Republicana. Eu estava no fio da navalha entre dois polos emocionais de corrente oposta. Enlevado pela baudelairiana limpidez da fotografia do meu íman ostinato de escritor a engolir a movida da cidade pelos olhos. Uma indagação dos mesmos olhos que o espelho do hotel me devolvia: «Por que azar dos Távora a minha comunicação caiu na manhã do dia de encerramento, só para eu não poder fruir isto completamente descomprometido? Vá, go with the flow e sursum corda».


Estava ali para apresentar um projecto do comunitário Programa LIDER focado na divulgação alargada de uma villa, através da transposição figurativa ou imagética dos seus elementos decorativos, arquitectónicos e epigráficos para o design dos rótulos dos produtos do sponsor, proprietário do terreno onde se encontra aquele espaço de uma antiga mundividência, duas vezes milenar, com seus encantatórios mosaicos estampados em rótulos de aspecto tesselar, epigráfico e greco-latino. Meia hora bem passada, feitas bem as contas.


O primeiro dia fora fechado com a brilhante ponência de uma elegantíssima mulher de meia-idade que me abordou dois dias depois. Era María Ángeles Querol. O sítio que apresentei fica nos arredores de Elvas. María Ángeles é de Badajoz. Sentimo-nos muito empaticamente patrícios. Da mesma igualha, estrangeira da maioria que nos rondava com concupiscentes miradas. Aquila non capit muscas.


Aquila non capit muscas. María Ángeles Querol tinha arrasado o primeiro dia. Condenso a sua comunicação - Los discursos actualistas en las representaciones de la arqueología prehistórica - una visión feminista - numa passagem que cito de livre memória, «Visitei todos museus de sítio com representações do quotidiano da pré-história antiga e vi sempre o mesmo quadro: um robusto homem a chegar da caça de corça ao ombro face a uma expectante mulher, sempre de joelhos, a tratar de domésticas tarefas. Señores, ¿por qué siempre nos ponen de rodillas?»


O que deve estar a rir comigo, de National Geographic nos joelhos, lendo o artigo Descoberta de Mulher Caçadora Pré-histórica Subverte Suposições de Género, de Maya Wei-Haas, que acrescenta no lead uma grave indagação: “Os investigadores assumiam que geralmente só os homens pré-históricos é que caçavam – mas e se as evidências que refutam essa ideia estivessem à vista de todos durante décadas?”. Discordo do lead em duas particularidades: não deveria convocar interrogativa, mas sim afirmação; não são décadas, mas sim séculos. Demasiados séculos. Em suma, uma pessoa com estrutura biológica maiêutica e observadora atenta do comportamento humano enquanto amamenta: a criatura que ainda não tem pruridos para nada e os demais membros da comunidade ao redor. Tal resiliência física e sapiência social não reclama uma potencial propensão para a liderança? Para mim, sim. Mas para Jephte e São Paulo, nunca. Só sectarismo (de género e delito de opinião) de direito natural e asfixia pelo mais letal miasma da judaico-cristã visione del mondo: a culpa.


Deo gratias, quando Mariana Diniz em Concordâncias e discordâncias de Género: a questão na Arqueologia Portuguesa limpou a mesa a jogar ao gamão com o diabo e elevou enobreceu conceptual e historicamente os postulados de Angéles, atingindo uma clarividência humanista a que me não lembro de ter assistido a propósito do tema antes da sua sessão, só houve respeito encaixe e aplauso. Aqui não farei spoiler. Prefiro que vejam e ouçam.


Em Zaragoza talvez tenha tido o azar de entre as três centenas de pessoas do quorum ter esbarrado com o terço de estúpidos cipolliano. Mas regressei triste. Vivia num mundo de papel de cenário, com a paleta transversal do arco-íris camuflando a santa Trindade das cores primárias dos bastidores.


De saída para uma via com um topónimo épico – se bem que a espuma dos dias só adquira esse lustro da ars poetica quando é já passado. Rua dos Lusíadas; imito de mim para comigo, de braço dado com o meu homónimo de primeiro nome e autor daquela cativa que me tem cativo, a actualíssima indagação de Cícero, «Quosque tandem Catilina abutere patientia nostra». Eu que até tinha uma escondida simpatia pelo anarca aristocrata da Conjuração de Salústio: mas, em lugar de envelhecer com elegância, o animal engordou alimentado por pérolas, lampedusianas enviesadas citações que envergonhariam o Príncipe Mestre de Narratologia autor d’A Sereia e d’O Leopardo, «por vezes é necessário mudar algo para que tudo fique na mesma».


E recordo aquele quase crepúsculo setentrional em que acelerámos para sudoeste, com a luz rasante do plaino a obnubilar o arco-íris que se ia formando enganadoramente, longe, no horizonte. Porque, na espuma dos dias (a Vida) está tudo (quase) na mesma. Quosque tandem?



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