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Don’t Forget Me (up from underneath your feet)


A cidade de Lisboa é vetusta de três milénios. Uma complexa história de cerca de seiscentos lustros de urbanismo. Tal diacronia de ocupação, associada às suas condições naturais e geomorfologia remete, no longo tempo, para uma dimensão duplamente terrestre e portuária asseverada por fontes documentais diversas. De Estrabão a Plínio-o-Velho, do Cruzado Osberno (ou Raúl) a Damião de Góis, de Andersen a Castilho, todos remetem para a dimensão cosmopolita da urbe associada à luminosa proximidade do estuário do Tejo.


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O Rossio

Centro por excelência de uma dinâmica sociocultural marcadamente lisbonense, o Rossio esconde memórias que remontam ao circo de Olisipo, espaço de corridas equestres de que ainda hoje podemos adivinhar os traços na configuração da sua planta. Entre esses tempos mais remotos e os nossos dias, outras permanências urbanas sobreviveram à transformação e mudança da cidade, destacando-se a proximidade da necrópole romana, às portas setentrionais da cidade, função que conhecemos ainda nas medievas Portas de Santo Antão e na longevidade da sua microtoponímia.


Museu do Dinheiro (antiga Igreja de São Julião)

Centrado no poder narrativo e ilustrativo do dinheiro (moeda objecto e moeda ideia), o museu proporciona uma extensa viagem temporal, desde a ocupação romana de Lisboa à medieval Cerca Dionisina da cidade – de que conserva um monumental segmento – focando-se de forma muito expressiva nas evidências materiais do quotidiano. Esse quotidiano tão profundamente alterado pelo Grande Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755 cuja história nos conta o filme ali em permanente exibição.


Núcleo Arqueológico da Fundação Millenium BCP

Eis-nos sob as ruas ortogonais da Lisboa Pombalina e de seu racional traçado, imbuído da mundividência iluminista, recticulando ordeiramente a orientação dos nossos passos. Aqui em baixo tudo é, por contraste, subterraneamente orgânico, abrindo-se a nossa visão por sobre sucessivas paisagens de quantas Lisboas o tempo conheceu: o bairro das margens do esteiro do rio da primeira cidade pré-romana e seus sucessivos episódios até ao aterro da reconstrução pombalina que fez com que o chão que pisamos se erguesse cinco côvados acima da cidade antiga.


Casa dos Bicos

O Grande Terramoto de Lisboa derrubou os andares cimeiros da Casa dos Bicos e as suas pontas de diamante. A vontade, o espírito e a memória do nosso tempo quiseram erigi-los para que pudéssemos voltar a ver a azáfama da Ribeira Velha e do Mercado do Peixe, o vai e vem das primeiras caravelas dos Descobrimentos, ali naquela que era a praia da Lisboa Mourisca, à beira da Cerca Velha e das suas Portas do Mar. Eis-nos nas instalações da Fundação José Saramago – Prémio Nobel da Literatura – na companhia das personagens que assistiram à tomada do Castelo de São Jorge que se nos depara no topo da colina.


Museu do Teatro Romano

A meia encosta do nosso périplo vencemos os degraus puídos das escadas de tiro do Páteo do Aljube e entramos no Teatro Romano de Olisipo, aquele que Augusto mandou construir e Nero remodelar, o tempo arruinou e o Terramoto de 1755 devolveu à luz da desordem dos dias seguintes. Entre a plateia e o palco reaprendemos que, se soubermos distinguir a história ciência da história mito, este último é parte integrante da nossa identidade, nos molda a memória - suas comédias, tragédias e enredos - e lança a pergunta do contador de histórias: Olisipo, Lisboa ou Ulisseia?


Castelo de São Jorge

No topo da colina aquelas ameias, torres e escadarias do Castelo de São Jorge constituem monumental espaço cénico reinventado no tempo das Comemorações do Duplo Centenário (uma dúplice invenção). Assim são as cidades: nascem à beira dos rios, crescem, fecham-se dentro de muralhas armando-se de virotes e canhões e um dia voltam a descer para a foz e a zarpar para outras partes do mundo, para regressar com novas cores conhecimentos e ideias. Talvez seja isto que nos faz não parar de caminhar: a demanda por novas ideias. Como aquela que há trezentos anos terá levado Alexandre Bartolomeu de Gusmão a (não) voar do Castelo ao Terreiro do Paço, sobre o casario, o azul do céu e os barcos do Tejo. História ou mito? Uma boa memória.


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A arte de contar histórias. Uma arte associada ao acto sagrado de caminhar e ao poder da fábula. Talvez seja este o nosso mote. Em face de uma boa história não somos novos nem velhos, ricos nem pobres, ignorantes nem sábios. Somos todos iguais.


#ALEXANDRESARRAZOLA #OPINIÃO #LISBOA #HISTÓRIA #ARQUEOLOGIA

BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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