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Carla Ventura


Nome completo: Carla Braz Ventura

Local e ano de nascimento: Lisboa, 15 de Junho de 1982

Principais interesses: Música, Dança, Fotografia, Natureza. Formação académica: Licenciatura em História (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Mestrado em Museologia (Universidade de Évora).

Cargo actual ou último cargo desempenhado: Técnica de Serviço Educativo na Parques de Sintra – Monte da Lua.

Como foi o seu percurso profissional? Por onde começou e por onde passou?

Desde muito nova que sempre quis trabalhar na área do Património. Lia imenso sobre a história dos monumentos portugueses e adorava visitas de estudo a museus e palácios. Um dia, por volta dos meus 10 anos, perguntei ao meu pai o que tinha de fazer para trabalhar no Palácio da Pena, que era o meu monumento favorito, e ele respondeu-me que tinha de fazer o curso de História. Foi o que fiz.

Apesar de estar inscrita no curso de História (sem variantes), ao longo do meu percurso na Faculdade optei por fazer uma formação o mais abrangente possível, inscrevendo-me em várias cadeiras de outros cursos (Arqueologia, História de Arte e Línguas como Árabe, Latim e Alemão). Participei também em algumas campanhas de escavação arqueológica, pois tinha ideia de que o curso geral de História era demasiado teórico, faltando uma certa componente prática de terreno que pude encontrar nestas breves incursões na Arqueologia.

Terminado o curso, em 2004, não quis fazer o Mestrado de imediato, pois sentia que precisava de experiência em contexto laboral. No ano seguinte candidatei-me a um estágio voluntário no Museu Nacional de Arqueologia (MNA). Foi aí que tive o meu primeiro contacto com o trabalho de um Serviço Educativo, sector no qual realizei o estágio. Inicialmente o projecto de estágio consistia na criação de conteúdos para uma exposição virtual, mas progressivamente comecei também a fazer o que viria a ser a minha paixão: visitas guiadas e actividades com o público. O MNA foi, sem dúvida, a melhor escola que poderia ter tido para me iniciar na arte de ser mediadora. No final do estágio integrei a bolsa de guias externos do MNA e participei em alguns projectos da instituição.

Inscrevi-me depois no Mestrado em Museologia, no âmbito do qual acabei por fazer o estágio profissionalizante, precisamente no Palácio Nacional da Pena. O final do estágio coincidiu precisamente com a passagem da gestão deste monumento do então Instituto dos Museus e da Conservação (IMC) para a Parques de Sintra – Monte da Lua (PSML). Tendo terminado o estágio, durante o qual tinha feito visitas guiadas no Palácio, integrei a então recém-criada bolsa de guias externos da PSML, fazendo também formação para conduzir actividades e visitas guiadas nos restantes monumentos geridos pela empresa.

Ao contrário do que se possa pensar, o facto de ser trabalhadora independente foi, sem dúvida, uma grande vantagem nos anos que se seguiram, pois permitiu-me colaborar em actividades educativas de outras instituições, como a Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos, e participar em projectos de âmbito internacional, como o “EuroVision – Museums Exhibiting Europe” (EMEE), integrando a equipa do parceiro português, o Museu Nacional de Arqueologia.

Em 2015, integrei definitivamente a equipa da Parques de Sintra, actualmente a minha “casa”.

Onde está hoje e o que faz?

Sou Técnica de Serviço Educativo na PSML. Para além da concepção e implementação das actividades e visitas guiadas disponibilizadas pelo Serviço Educativo (para público geral, escolar, especializado e imprensa) nos diferentes monumentos sob gestão da PSML, faço também a gestão da bolsa de guias e de reservas. Fazem ainda parte das minhas tarefas a gestão de reclamações e ministrar a formação institucional para novos colaboradores.

Qual elegeria como o projecto mais relevante que levou a cabo, até ao momento, para o sector do Património?

Não falaria de um projecto, mas sim os diferentes projectos ligados à minha actual função. A Parques de Sintra gere um património muito vasto e diversificado, visitado diariamente por milhares de pessoas que pretendem fruir os espaços de modo muito diferenciado. Desde a criação de novas ofertas educativas até à gestão das existentes, surgem todos os dias novos desafios que fazem deste trabalho uma autêntica fuga à monotonia. São frequentes os projectos relacionados com a criação de novas actividades ou visitas direccionadas a diferentes tipos de público, bem como a criação de projectos conjuntos com outras entidades externas que colaboram com o Serviço Educativo, como é o caso dos grupos de animação. O grande desafio é, sem dúvida, ir de encontro às expectativas dos milhares de pessoas que procuram diariamente uma experiência individualizada nos diferentes espaços. Trata-se, na verdade, de um gigantesco projecto constituído por vários pequenos projectos.

O projecto escolhido é também aquele que lhe deu mais gozo executar?

É uma escolha difícil, pois todos os projectos em que participei tiveram uma dinâmica muito própria, considerando a altura e as circunstâncias em que foram feitos. Um dos projectos que considerei mais aliciantes, apesar de não ser o mais relevante, teve lugar ainda no início do meu percurso profissional: a implementação do Programa “Famílias nos Museus”, no Museu Nacional de Arqueologia, em 2005. Tratava-se de uma iniciativa promovida pelo então Instituto Português dos Museus (IPM), em diferentes museus, com o objectivo de trazer as famílias aos museus, aos fins de semana, através de actividades temáticas. Foi o primeiro projecto em que tive a oportunidade de poder participar nas várias fases de implementação, desde a criação das várias actividades, passando pela elaboração de materiais, até à monitorização dos resultados obtidos pela aplicação de questionários de satisfação. Precisamente por se tratar de um projecto mais pequeno e de duração reduzida (cerca de dois meses e meio), tive a oportunidade de poder acompanhar tudo de perto e observar os resultados directamente. Foi, de facto, um projecto em que aprendi muito e que me deu muito gosto fazer.

E qual ‘aquele projecto’ que ficou por fazer ou completar?

O ‘projecto’ que me falta concluir é, sem dúvida, um Doutoramento na área da Museologia. Será certamente algo que farei no futuro.

Qual a experiência humana que mais a marcou ao longo da sua vida profissional (colega, chefe, grupo de trabalho…)? Em todos os locais por onde passei, aprendi bastante, encontrei pessoas com as quais pude aprender muito e a quem tive também o prazer de poder deixar o meu contributo. Em alguns dos casos tive também a sorte de ganhar amigos que ainda permanecem. No entanto, ao nível da experiência humana, destaco sobretudo a minha actual equipa de trabalho. Já nos conhecemos há muito tempo, conhecemos bem as dinâmicas uns dos outros e estamos sempre orientados no mesmo sentido, com critérios e procedimentos bem definidos, de modo a atingir objectivos comuns. Seja qual for o projecto ou a tarefa que estamos a desenvolver, sabemos que podemos confiar no trabalho dos diferentes elementos da equipa. O ambiente é, de facto, muito saudável, havendo sempre lugar para a boa disposição, mesmo em situações adversas. Desde modo, as soluções chegam com mais facilidade.

Obviamente, o local onde trabalhamos também faz a diferença: para além de estarmos cientes de que trabalhamos todos os dias com a missão de proteger e valorizar parques e monumentos classificados como Património da Humanidade, o nosso “escritório” é a belíssima paisagem de Sintra!

Em retrospectiva, e numa escala de 1 a 10, como classificaria o seu percurso profissional?

A nível da satisfação pessoal do que fiz até ao momento, sem dúvida, classifico com 10. Numa perspectiva geral de tudo o que ainda poderei fazer, classifico com 8, pois gostaria ainda de poder ter uma experiência mais alargada com outras instituições além-fronteiras.

Se tivesse possibilidade de voltar atrás, faria algo de forma diferente?

Não. Penso que, no meu percurso profissional, tudo foi feito no momento certo. Efectivamente, quando algo não corre bem num determinado momento, é porque talvez esse não seja mesmo o momento para isso. É preciso aprender a reconhecer as falhas como parte do processo. Ou seja, os insucessos são parte da “argamassa” que consolida os sucessos futuros.

Que conselho daria a quem está hoje a iniciar a sua carreira profissional na área do Património?

Em primeiro lugar é, sem dúvida, muito importante gostar do que se faz. Parece um conselho óbvio, mas na verdade, muitas vezes até estamos na área profissional certa, mas não na função que realmente nos satisfaz. Em muitos casos, só nos apercebemos disso quando experimentamos diferentes funções. Por exemplo, podemos gostar muito de trabalhar num museu, mas há uma diferença entre trabalhar no estudo das colecções e trabalhar no serviço educativo. Havendo hipótese, há que experimentar diferentes perspectivas e perceber em qual delas nos podemos enquadrar melhor.

É igualmente importante estabelecer uma boa rede de contactos dentro do meio, participar nos diferentes encontros de profissionais e partilhar experiências. A troca de ideias leva sempre a novos projectos, tanto a nível individual como institucional. Devemos também estar bem informados sobre o que se passa no cenário profissional que nos rodeia.

Por fim, destaco a importância de saber arriscar novas soluções. A abertura das perspectivas permite-nos ter muitos mais caminhos por onde seguir.

O que deseja para o sector do património em Portugal, no presente e no futuro mais próximo?

Em primeiro lugar, acredito que o futuro da preservação patrimonial está na educação, pelo que gostaria que houvesse um maior investimento nesta área, sobretudo ainda em idade escolar. Do mesmo modo que as escolas ensinam aos mais novos a importância de cuidar do meio ambiente, deveriam também transmitir naturalmente, de modo consistente, os valores sobre a importância da preservação do património natural e construído.

Além disso, considerando que há uma consciência cada vez mais maior da riqueza patrimonial existente em Portugal, faço votos para que haja também um crescimento dos recursos materiais e humanos afectos à sua preservação. Se por um lado o aumento da actividade turística contribui para uma maior divulgação do património, por outro é importante fazer essa transmissão de modo sustentado e com os meios adequados.

As sugestões de Carla Ventura:

Um filme para rir e para pensar: Monty Python and the Holy Grail

Um livro inesperadamente interessante: A Primeira Aldeia Global, de Martin Page

Um museu para ir “experimentar” a História: Museu Portugal Romano em Sicó – PO.RO.S

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OPINIÃO

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