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Maria Leonor de Sousa Botelho


Nome completo: Maria Leonor César Machado de Sousa Botelho

Local e ano de nascimento: Porto, 12 de Junho de 1979. Formação académica: Doutoramento em História da Arte Portuguesa (Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

Cargo actual ou último cargo desempenhado: Professora Auxiliar do Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Diretora do Mestrado em História da Arte, Património e Cultura Visual e Investigadora do Centro de Investigação Transdisciplinar – Cultura, Espaço e Memória (CITCEM/FLUP).

Como foi o seu percurso profissional? Por onde começou e por onde passou?

O meu percurso profissional, até ao início da docência na FLUP no ano letivo de 2012/2013, está ligado ao percurso convencional de um bolseiro de Investigação científica. Agradeço à FCT uma Bolsa de Mestrado (fui das últimas a ter – ao que sei…), uma Bolsa de Doutoramento e ainda uma Bolsa de Pós-Doc… Durante muitos anos pude ser investigadora num país onde é difícil ser-se investigador… Tive a sorte de frequentar o Mestrado em Arte, Património e Restauro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e depois ingressar no Doutoramento em História da Arte Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, casa que me formou em História, variante de História da Arte – Ramo Científico. Pude conhecer diferentes metodologias de Investigação, conhecer pessoas que hoje ocupam lugares importantes na área do Património e contactar com diferentes abordagens ao Património. Pude fazer grandes amigos! Durante este percurso colaborei ainda com a Escola das Artes da Universidade Católica do Porto, num projeto no Museu de Santa Maria de Lamas (Santa Maria da Feira). Já durante o Doutoramento, destaco colaborações que foram muito profícuas e com as quais aprendi muito, a Câmara Municipal de Felgueiras, o Centro Nacional de Cultura e, principalmente, o Centro de Estudíos del Románico da Fundación Santa María la Real (Aguilar de Campoo, Espanha). O Pós-Doc… o seu arranque coincidiu com a oportunidade de ser docente da FLUP.

Onde está hoje e o que faz?

Desde o ano letivo 2012/2013 que sou docente do Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Leciono desde então duas áreas, principalmente: a História Urbana e a Gestão do Património (que me apaixona!), ao nível da Licenciatura em História da Arte e, mais recentemente, Estudos e Práticas do Património e Gestão Cultural e Patrimonial no Mestrado em História da Arte, Património e Cultura Visual. Devo destacar a experiência gratificante que é a orientação, tanto de 2º como de 3º ciclo! Ver os estudantes a crescerem, acompanhar as suas solicitações e ver o trabalho final é uma das coisas que mais me motiva na minha profissão – aproveito para agradecer a todos aqueles que orientei e oriento por este sentimento (e pelo voto de confiança)! A Direção do Mestrado em História da Arte, Património e Cultura Visual é um desafio diário e absorvente, desde o momento em que o grupo de trabalho em História da Arte decidiu a sua criação… Investigação e CITCEM andam de braços dados! A oportunidade de organizar eventos científicos internacionais e o constante apoio para participar em encontros, apresentando resultados de Investigação, são momentos fantásticos para atualização, troca de conhecimentos e criação de networks..

Até ao presente e do ponto de vista profissional, qual elegeria como o projecto mais relevante que levou a cabo, para o sector do património?

Nesta fase da minha vida profissional e científica é-me ainda difícil eleger “o projeto”. Se me permitem, posso eleger duas áreas de Investigação que penso contribuírem de forma positiva para o sector do Património. A primeira é a do estudo da história das intervenções em Património edificado, preferencialmente da época românica! Cada vez mais tenho consciência de que para intervirmos hoje em Património edificado temos de estar cientes de todas as intervenções realizadas desde o século XIX e particularmente durante os tempos áureos da DGEMN…estudar a documentação gráfica, fotográfica e textual… interpretar e cruzar as fontes! A segunda área é a do estudo da arquitetura da época românica que, na sequência do meu doutoramento, tem permitido com que contribua para a difusão do conhecimento sobre esta arquitetura (tão transformada na sua legibilidade por força das intervenções dos séculos XIX e XX), de que têm resultado diversas colaborações, ao nível da publicação, com instituições de referência: Fundación Santa María la Real, Rota do Românico ou Câmara Municipal de Felgueiras.

E qual ‘aquele projecto’ que ficou por fazer ou completar?

O tempo verbal que quero usar não é o passado, mas sim o futuro! Há projetos para fazer – gostava de explorar a questão da educação patrimonial (ou educação para o Património?) e contribuir para que esta seja mais eficaz em Portugal! Urge sensibilizar e educar para o Património, quer no sentido top-down, mas também no bottom-up! Será isto um projeto ou uma missão?

Qual a experiência humana que mais o marcou ao longo da sua vida profissional (colega, chefe, grupo de trabalho)?

Quando em 2001 acabei a minha licenciatura na FLUP como que disse para mim própria: quero voltar, mas para ensinar. Durante a licenciatura fiquei fascinada pela arquitetura medieval e isso devo-o à Prof. Lúcia Maria Cardoso Rosas! Foi minha madrinha de curso (bateu três vezes com a bengala na minha cartola azul!) e mais tarde veio a ser minha orientadora de Doutoramento. Com ela aprendi (e aprendo hoje todos os dias) sobre a arte medieval, Património, sobre pedagogia e difusão de ciência, sobre a vida!

Só que não posso deixar de falar do grupo de docentes de História da Arte da FLUP, pela vontade comum de lutar pelo reconhecimento de uma área científica fascinante e procurar criar futuros profissionais, com conhecimentos e competências que permitam desenvolver o campo alargado do Património em Portugal. E já agora, alguns colegas que pela sua alegria contagiante tornam os dias na FLUP muito mais agradáveis!

Em retrospectiva, e numa escala de 0 a 10, como classificaria o seu percurso profissional?

Não consigo fazer essa avaliação. Sou hoje fruto do meu percurso profissional, e acrescento, científico e académico… O meu percurso profissional ainda vai tão no início… tanto para aprender, tanto para fazer… todos os dias… até ao ultimo dia!

Se voltasse atrás, fazia algo diferente?

Não me ocorre nada.. podia fazer uma análise SWOT a todas as minhas experiências e ia concluir sempre que apesar das dificuldades e constrangimentos, o cômputo geral é sempre positivo!

Que conselho daria a quem está hoje a iniciar a sua carreira profissional nesta área?

Aquele que dou aos meus alunos: trabalhar em Património exige dedicação, paixão e, até, ousadia! É uma área tão complexa quanto fascinante! E acima de tudo digo a quem está a começar uma carreira profissional na área do Património – não desistir diante do primeiro obstáculo, procurar implementar um plano B, se não resulta à primeira, será à segunda ou à terceira… as coisas levam o seu tempo! Mas é preciso fazê-las, saber e querer fazê-las!

O que deseja para o sector do património em Portugal, no presente e no futuro mais próximo?

Já falei de uma Educação Patrimonial ou Educação para o Património mais consistentes! Penso que o setor do Património poderia beneficiar de uma maior autonomia das instituições de tutela ao nível da decisão e da implementação. O sector do Património tem de se abrir ao mercado, tem de ser mais ágil na resposta (porque quase sempre institucional) e tem de olhar mais por si próprio e pela sua própria história… O valor económico do Património é hoje reconhecido e a economia do Património tem de ter um lugar mais visível. O Património não é só de e para alguns!

As sugestões de Maria Leonor de Sousa Botelho:

Citação: Podem ser duas?!?! Estão intimamente ligadas e aplicam-se à vida profissional e pessoal - “Se podes olhar vê. Se podes ver repara” (José Saramago In Ensaio sobre a Cegueira) e… “O essencial é invisível aos olhos. Só se vê bem com o coração” (Saint Exupéry In O Principezinho) Livro: Em termos profissionais, “A Alegoria do Património” (F. Choay) – um clássico, mas sempre de leitura (e releitura) obrigatória! Leituras da vida: Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago) e O Principezinho de Saint Exupéry… mas podia falar de tantas outras…

Música: Sting! Sempre Sting - Shape of my Heart, Fields of Gold, Englishman in New York… Roxanne…

Projecto: Neste momento, a Enciclopédia do Românico em Portugal, cuja coordenação, na FLUP, tenho a honra de partilhar com a Prof. Lúcia Maria Cardoso Rosas e com o Prof. Mário Barroca. Obrigada à Fundación Santa María la Real por confiar em nós! Vamos a isso!

*O texto desta entrevista foi escrito de acordo com o Novo Acordo Ortográfico.


BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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