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Clara Camacho


Nome completo: Maria Clara de Frayão Camacho

Local e ano de nascimento: Horta, 1960 Formação académica: Doutoramento em História (Tese na área da Museologia) pela Universidade de Évora

Cargo actual ou último cargo desempenhado: Técnica Superior da Direção-Geral do Património Cultural

Como foi o seu percurso profissional? Por onde começou e por onde passou?

Licenciei-me em História na Faculdade de Letras de Lisboa e trazia já a ideia de vir a trabalhar na área do património cultural, pois tinha sido membro fundador do DECUP, movimento de defesa do património cultural da Ilha do Pico, e enquanto estudante tive a oportunidade de participar nos encontros anuais das associações de defesa do património, que na altura ocorriam em diferentes cidades portuguesas. Depois do curso, candidatei-me à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira (CMVFX), onde comecei a trabalhar na Direção do Museu Municipal (na verdade, além do guarda, era a única técnica), no património cultural e na ação cultural concelhia. De 1983 a 2000 exerci na CMVFX diversos cargos sempre ligados à área cultural, até ser criada, nos anos 1990, a Divisão de Museus, Património Cultural e Arquivo Histórico, que me permitiu desenvolver um trabalho concertado no campo patrimonial de âmbito municipal. No ano 2000 vim para o Instituto Português de Museus (IPM) coordenar a estrutura de projeto da Rede Portuguesa de Museus, a convite de Raquel Henriques da Silva, na altura Diretora do IPM. De 2005 a 2009, fui Subdiretora do IPM e do organismo que lhe sucedeu, o Instituto dos Museus e da Conservação (IMC). Após o termo da minha comissão de serviço, resolvi não continuar a exercer cargos de chefia na Administração Pública e iniciei o doutoramento na Universidade de Évora, em situação de equiparação a bolseira, desenvolvendo, ao longo de três anos, um projeto de investigação sobre redes de museus e sistemas de credenciação ao nível europeu. Em 2014, estando já extinto o IMC, ingressei na Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), enquadrada no Departamento de Museus. Em paralelo, desde o início dos anos 1990 e até 2012, dei aulas de Museologia em várias universidades e em diferentes cursos, especialmente no extinto Mestrado em Museologia da Universidade de Évora.

Onde está hoje e o que faz?

Trabalho no Departamento de Museus da DGPC, onde coordeno a Coleção Estudos de Museus, um projeto editorial desta Direção-Geral e da Caleidoscópio que publica teses de doutoramento em museus e Museologia, selecionadas por um Conselho Editorial, composto por docentes de várias universidades e em que também participo, em representação da DGPC. Tendo arrancado no final de 2015, foram já editados dez volumes com temáticas muito diversas. Neste projeto, asseguro todo o ciclo editorial, da seleção, revisão e interlocução com os autores até aos lançamentos e à divulgação. Tenho a meu cargo também algumas áreas de representação internacional da DGPC, designadamente na NEMO (Network of Museum Organisations) e no Ibermuseus, o que me permite divulgar possibilidades de intercâmbio e de formação para os profissionais dos museus portugueses e trabalhar com colegas de outros países na programação de iniciativas. No corrente ano integro o Grupo de Trabalho do Ano Europeu do Património Cultural, estando particularmente envolvida na preparação da conferência internacional que irá decorrer em 25 e 26 de outubro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Também asseguro a interação com as universidades na pesquisa e reflexão em Museologia e neste ano participo na organização do II Fórum Ibérico de Investigação em Museologia, em colaboração com o Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa, previsto para 14 e 15 de dezembro. Claro que, além destas áreas-chave, na DGPC, respondo a solicitações e elaboro pareceres na área da Museologia.

Até ao presente e do ponto de vista profissional, qual elegeria como o projecto mais relevante que levou a cabo, para o sector do património?

Com tantos anos de trabalho e com tantos projetos interessantes em que estive envolvida, não posso deixar de mencionar uma meia-dúzia. Em meados dos anos 1980, no início do trabalho em Vila Franca de Xira, recordo o inventário do património arqueológico e do património construído do concelho, realizado com o Rui Parreira, que era acompanhado de sessões de apresentação e discussão em todas as freguesias, geralmente com casa cheia e suscitando um expressivo interesse da população local. Em 1988, em colaboração com o Grupo Português do MINOM, organizei, em Vila Franca de Xira, as primeiras Jornadas sobre a Função Social do Museu, que ainda perduram. Nos anos 1990, com a equipa do Museu Municipal, promovemos um ciclo de exposições temporárias anuais sobre diferentes patrimónios concelhios, olhados por vezes de ângulos originais e precedidas de investigação no terreno, como foi o caso das exposições sobre mecanização e agricultura, lojas tradicionais, património industrial, profissões da tauromaquia, entre outras. No final dessa década, o Museu teve oportunidade de participar no projeto europeu Museus, Mediadores e Educação de Adultos, com algumas instituições museológicas de referência, como o Victoria and Albert e o Irish Museum of Modern Art, ajudando a introduzir este importante tema no espaço museológico português. Nos anos 2000, destaco a conceção, a implementação e a coordenação da Rede Portuguesa de Museus, na altura um projeto inovador no panorama dos museus em Portugal. Pela mesma altura, a participação no grupo de trabalho que preparou a Lei-Quadro dos Museus Portugueses e o acompanhamento de todas as suas fases até à aprovação por unanimidade na Assembleia da República, em 2004. Nos últimos anos, saliento o projeto de investigação que correspondeu ao meu doutoramento, Redes de Museus e Credenciação. Uma Panorâmica Europeia, que veio lançar algumas novas pistas na perspetiva histórica e na comparativa sobre estes temas. Em 2015, fui a representante de Portugal no grupo de peritos internacionais que comentou e debateu a Recomendação da UNESCO sobre a Proteção de Museus e Coleções, que introduziu pela primeira vez a temática das coleções não museológicas num documento desta natureza. Na atualidade, enfatizo a importância que concedo à Coleção Estudos de Museus pela possibilidade de divulgar e colocar à disposição de todos as mais recentes investigações no campo da Museologia.

E qual ‘aquele projecto’ que ficou por fazer ou completar?

Se, por um lado, acredito que os projetos são dinâmicos e poderiam sempre ser melhorados, por outro, prefiro olhar para a frente e imaginar novos projetos. Tenho um especial fascínio por me envolver em algo que não tenha sido ainda feito e que contribua para a qualificação do setor museológico, seja a uma escala macro ou micro. Claro que, trabalhando na Administração Pública Portuguesa, há muitos fatores que não dependem da minha vontade ou do meu trabalho concreto. No entanto, aprendi também, ao longo da minha vida profissional, a lidar com os aspetos que não estão sob o meu controlo. Isto dito, julgo que o período de quatro anos em que fui Subdiretora do IPM/IMC, corresponderá àquele em que mais frustrações experimentei quanto à possibilidade de implementar alguns projetos estruturais de mudança para os museus portugueses. Nas outras funções de coordenação que desempenhei, creio ter desenvolvido os projetos que me estavam cometidos na sua completude, o que não impediu as interrupções, extinções ou afrouxamentos que alguns posteriormente conheceram.

Qual a experiência humana que mais o marcou ao longo da sua vida profissional (colega, chefe, grupo de trabalho)?

Uma vez mais, terei de invocar mais do que uma experiência. Enquanto coordenadora de equipas, lembro o pequeno grupo que formava o Museu Municipal de Vila Franca de Xira e o seu comprometimento com os inúmeros projetos que íamos levando a cabo, em especial na educação, na interação com a comunidade e nas exposições. Na estrutura de projeto da Rede Portuguesa de Museus, o espírito de militância, de disponibilidade e de competência da equipa foi insuperável, o que permitiu percorrer o país de lés-a-lés, em visitas técnicas aos museus de todos os tipos, adquirindo e sedimentando um conhecimento da realidade que seria vertido nas linhas de trabalho. Em 2015, a coordenação de um grupo de trabalho da DGPC, para fazer o respetivo plano estratégico, permitiu-me descobrir outras competências e saberes que me enriqueceram profissional e humanamente. Já fora do âmbito da coordenação de equipas, foi-me especialmente proveitoso o período de pesquisa para doutoramento e os contatos que estabeleci com colegas de vários países europeus, em particular as estadias e as conversas que permitiam refletir e comparar o caso português com os seus congéneres. Na atualidade, saliento o trabalho de grupo da Mesa Técnica de Formação do Ibermuseus, em que participo com colegas de mais de 5 países e em que programamos anualmente ações de formação e atribuição de bolsas para profissionais de museus dos 22 países ibero-americanos. Finalmente e de forma transversal ao longo das últimas décadas, não posso deixar de referir a cumplicidade e o entendimento enormes com o Manuel Bairrão Oleiro e, fora do plano institucional, o gosto pela reflexão e pela escrita co-autoral com a Graça Filipe.

Em retrospectiva, e numa escala de 0 a 10, como classificaria o seu percurso profissional?

Não sou capaz de responder a esta pergunta.

Se voltasse atrás, fazia algo diferente?

Não tenho por hábito fazer esta reflexão, pelo que creio que a resposta é não.

Que conselho daria a quem está hoje a iniciar a sua carreira profissional nesta área?

Obter uma formação sólida na área patrimonial / museológica, a par de uma formação nas áreas tecnológicas, estar atento ao panorama internacional, ser perseverante e persistente.

O que deseja para o sector do património em Portugal, no presente e no futuro mais próximo?

Atendo-me apenas ao setor museológico, desejo em primeiro lugar uma visão estratégica, ancorada em informação e em dados fiáveis e atualizados. Em segundo lugar, o reforço de meios humanos e financeiros que permita o recrutamento de jovens profissionais e uma programação regular de qualidade. Não se trata de uma miragem, mas de uma necessidade concreta que contrarie anos e anos de suborçamentação crónica do setor. Por último, que sejam flexibilizados os modelos de gestão dos museus, que seja revitalizada a Rede Portuguesa de Museus e que seja cabalmente cumprida a Lei-Quadro dos Museus Portugueses. Muitos mais seriam os meus desejos, mas fico-me por aqueles que, sendo básicos, infelizmente estão por concretizar.

As sugestões de Clara Camacho:

Citação: “O nosso saber é a mais pequena parte do que ignoramos.” (Garcia de Orta)

Livro: “O Museu da Rendição Incondicional”, de Dubravka Ugresic Música: “Woody Allen & La Musique: de Manhattan à Magic in the Moonlight”

Projecto: “Dicionário Quem é Quem na Museologia Portuguesa” (projeto em curso, promovido pelo Instituto de História da Arte da FCSH-Nova)

* O texto desta entrevista foi escrito de acordo com o Novo Acordo Ortográfico. ​


BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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