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Uma mesa posta para a eternidade


O rio está agitado, a não querer destoar do ambiente geral. O vento agreste sopra sem contemplações. Sigo um trilho junto à margem e salpicos salgados vêm ter comigo. Opto, prevenindo, por me afastar. Olho o céu, o sol está com dificuldade em furar a densidade cinza das nuvens, mas por enquanto ainda não há borrifos celestiais. Qual alpinista subo o plano inclinado a bom ritmo, mas com os devidos cuidados. Há pedras da calçada que teimam em deixar de pertencer ao seu chão e parecem querer circular entre os transeuntes com uma rebeldia particular, só explicada pela falta de quem as ponha no sítio certo e as mantenha por lá. E precisamos de chão, bem cuidado de preferência, para os nossos pés.


A cidade dá espaço à cadência de silêncios e ruídos, de cores vivas e escala de cinza, de vozes, de gritos, de mais silêncios, os musicais e os forçados. Artérias movimentadas encostadas a becos e ruelas, a bairros que mais parecem aldeias, onde a solidão faz rondas diárias. É sempre bom regressar à aldeia, muitas vezes lá viver é que não é fácil. Mesmo nas aldeias urbanas. E, num certo sentido, sobretudo nestas. O espaço urbano é tão complexo como o seu criador.


Aceno a um grupo que está à porta de um café, a tentar abrigar-se do vento frio, com uma pequena esplanada composta por duas mesas e quatro cadeiras, manifestamente insuficiente para tanta gente, mas também muito pouco apetecível num dia como este. Retribuem o aceno em simultâneo e sigo a minha escalada, após hesitar em fazer uma paragem curta para tomar café. Talvez na descida…


No cimo da colina lá está o grande edifício neoclássico, qual templo de musas e das musas. A luz, não sendo intensa, parece fazê-lo encolher um pouco. Mesmo assim e com um estaleiro nas imediações permanece grandioso. Quando o sol incide radiante nas fachadas, nas arquitecturas, nas vidraças, nas esculturas, agiganta-se, brilha como um astro com luz muito própria. A completá-la, a iluminação interior, mais velada, mais contida, reservada e envolvente, menos quando nos fixamos nos grandes lustres de cristal plenos de energia. Parece que ofusca, mas não, encanta. Como encanta! As sedas das paredes, as pinturas murais, os dourados, as madeiras, os objectos de arte que só não estão mais próximos uns dos outros porque não podem, em harmonia e diálogo. Quando as luzes se apagam estou quase certo que se juntam ainda mais, convivem, conversam, bailam! Como os actores após um espectáculo. Desce o pano, apagam-se os focos, e a vida, que também é arte e espectáculo, prossegue, ainda mais animada pela dita arte. Ou não, talvez não. Não em todos os casos. De qualquer forma, a diversidade que dá unidade ao conjunto. Não deveria ser sempre assim? Por vezes um caos organizado, que de caótico terá só a parte poética.


Um espaço de contemplação, de fruição de beleza (conceito necessariamente subjectivo), de arte, de artes, de história, mais do que um templo que guarda e conserva tesouros. Muito mais do que isso. Uma instituição que se quer perene, sólida mas não rígida, de conhecimento, de cultura, com portas sempre abertas e que abre outras tantas, que suscite, a partir do legado que detém, dos acervos disponíveis e a disponibilizar aos públicos, um conjunto de contributos, de questões e interrogações, de debates, de conexões com a comunidade e com o indivíduo, enquanto tal e enquanto cidadão que se pretende activo no meio onde se insere, que no limite é o mundo inteiro. Sem ser utópico, mas não dispensando, por completo, uma fatia de utopia. Um património que é de todos e para todos, que somos também todos nós. O Património Cultural, com potencialidades eminentemente culturais e sociais, sem querer salvar o mundo das suas desgraças, mas que esteja sempre do lado das soluções, dignas e construtivas, e nunca dos problemas.


Quando fotografo um palácio, um castelo, uma igreja, um templo, uma estátua, uma calçada, uma rua, uma avenida, uma cidade avistada de um miradouro ou a partir do rio, um candeeiro ou um pormenor de arquitectura, uma ruína, um edifício aparentemente banal mas que ganha vida quando acariciado por uma luz excepcional, um espelho, quando fotografo e não surge na imagem uma única figura humana, ela, contudo, está sempre, mas sempre presente, materializada nas suas concepções, nas suas criações, nas suas obras, nas suas concretizações. E nas fotografias escritas também.


A mesa está posta, com elegância e sobriedade quanto baste. Doze lugares sentados, cinco copos de pé alto em cada lugar, um guardanapo de linho denso magnificamente dobrado sobre cada prato de porcelana branca, com fio de ouro, talheres de prata ladeiam-nos. Os espelhos grandes distribuem aos nossos olhares várias perspectivas daquele espaço. Daqui a pouco dos vários momentos vividos e a viver ali. Uma mesa posta para a eternidade. Ou lá perto. A eternidade é muito tempo. Como consta na “História da Humanidade”, na sua segunda edição de 1935, por Hendrick Willem Van Loon, “Muito longe, nas plagas boreais, numa terra denominada Svithjod, eleva-se um penhasco imponente de cem milhas de altura e cem milhas de circunferência. De dez em dez séculos, um passarinho pousa nesse rochedo, para aguçar o bico. Quando dêste (sic) modo a avezinha houver consumido a rocha, ter-se-á escoado um único dia da eternidade”.


Uma mesa para a qual estamos todos, à partida, convidados, mais do que isso, convocados. E os que nela se sentam hoje devem deixá-la preparada para a refeição seguinte, desejavelmente enriquecida. Está na hora de regressar ao exterior. De descer por desejo da geografia urbana e de tomar o tal café. Quente e aromático, pois. O conforto interior que ambicionamos, para nós mesmos e para o outro, mais não será do que a síntese de desconfortos, a gestão ética dos estímulos que nos interpelam e os valores que estão na base das respostas. Mastigo o café, dispensando sempre o açúcar que lhe adultera o gosto e que vou buscar a outras fontes mais crocantes. Penso na próxima refeição e como fazer para que todos recebam, em tempo útil, a convocatória para a mesa. E que haja motivos para um brinde. Pelo menos um.


Votos de um Feliz Natal e um Excelente Ano Novo!


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