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Tonight we fly - "And wandering why"


O Verão é belo como o é A Guerra para os gregos antigos, o lacónico Salústio e, depois de Clausewitz, qualquer reincidente da Blackwater (que deploro, como as outras empresas com a mesma oferta – a guerra).


Bela, A Guerra, não pelos campos floridos de Maio antes da peleja, ou todos os correligionários de Catilina trespassados pela frente, tão pouco o frémito de um plausible denial raid no Hindu Kush.


É porque se não pensa em escolher roupa, refeição, muito menos estamos condenados a ser livres: a nossa agenda é da lavra de outro alguém. No fim do dia, a ler o Times of Oman, o Aujourdui Marroc, a New Yorker ou The Economist, não há balanços a fazer. Se pousamos cabeça numa almofada - que não de hospital de campanha - é porque estamos vivos. A espaços saímos do compoundum. E morremos ou matamos. Nada de tons de cinzento. Só a serenidade narcótica dos binómios sim/ não, sol/lua; morto/ vivo. Tocqueville e as angústias (Deo Gratias) de um primado do indivíduo livre, decapitado quase o Ancient Regime.


*


Imprensa, Cultura e Incidente Incitante


Os últimos artigos de Cultura da imprensa portuguesa de Junho que, já lidos, relanceei, na tarefa de reabastecer a revisteira: Público 020621 - um diferendo parlamentar com a Ministra da Cultura. Público 080621 - «Criança do lapedo já é tesouro nacional», transcrita da exemplar agência Lusa, de que muito nos devemos orgulhar. Mas só isso: a transcrição de uma nota informativa de agência noticiosa. Tão empolgante como um obituário, o resultado, para um leitor não especialista no tema.


Hoje a New Yorker e o Aujourdui Marroc anunciam com júbilo nas secções de Cultura, informação cultural (aquilo que em miúdo aprendi ser um valor notícia na redacção de uma críptica estação de rádio).


À laia da tarefa matinal de picar o telex no Verão de 1988:

Aujourdui Marroc 050721

«Art organise à partir du 10 juillet une exposition collective, intitulée "Le rêve en couleurs". Durant cette exposition, le public plongera dans les rêves relatés par chaque artiste. "Chaque couleur révèlera un personnage, une situation narrative qui se dévoilera dans des œuvres en esquissant la nature de leur vie intérieure"».


O Aujourdui é um dos diários de eleição dos cafés de Tangier, do Petit Socco ao Boulevard Pasteur. Leio-o desde que, na Cinemateca do Município, vi o documentário o anti-Daesh jamais realizado (num festival anti-extremismo) de um genial e apátrida iraniano. Em Marrocos passou. Num dos festivais de Lisboa, não passou, consta que por motivos de segurança. A ironia pede reciprocidade: eu vi o filme com um pé na coxia e, a espaços, olhava para as cortinas de feltro puído da porta, à espreita do inominável. Yalah!!


New Yorker 050721

Na (outra vez) livre Manhattan a New Yorker rejubila. «Celebrating the Fourth with a Little Liberty: The arrival on Ellis Island of a little-sister statue from France offers a moment to reflect on what liberty means in 2021».


Lá atrás ainda ia citar a manchete de capa do The Economist deste mês «The hopeless peace process [Palestinians and Israelis]», mas vou atalhar caminho. E não merecemos, mas:

Andaremos tão distraídos no doce maniqueísmo das barricadas, que nos esquecemos do fundamental. Opto por deixar o ponto de interrogação por grafar. É preciso saber para perguntar; e eu não sei de todo a potencial resposta.


*


[Transcrição do caderno de viagem AS/OMAN/10JUL2015]


«No Al Cornish Café sobre a entrada do souq. Fico a olhar para a aristocrata inglesa que partilha o terraço comigo para anotar os traços de uma personagem do Dendur [publicado cinco anos depois com o título Dilmun].


Praia de Al Q’rum; fim do dia (7PM; 47ºC; 90% humidade). Os dedos a sujar de tâmara as páginas do Times of Oman 100713. Um químico investigador veio dar uma palestra de a Muscat a mote da Central de Dessalinização de Sur e foi convidado a escrever uma coluna. Fechou a crónica da secção de Cultura com estas palavras, as últimas do Profeta:


«Take advantage of five matters before five other matters: your life before your death, your health before your sickness, your free time before your preocupations, your youth before your old age, your wealth before your poverty».


Parece que é tudo, não é? É.

E também o não é.

Faltam os últimos 7 versos de Neil Hannon:


«(…) And when we die

Oh, will we be

That disappointed

Or sad


If heaven doesn't exist

What will we have missed

This life is the best we've ever had»


À bientôt, wadaeana ya, sadiqi, fare thee well.


#OPINIÃO #ALEXANDRESARRAZOLA #IMPRENSA #CULTURA #SOCIEDADE #DEMOCRACIA

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