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Se a escola não vai ao museu...


Ana Gago*


Os constrangimentos causados pela pandemia COVID-19, com impacto sobre o normal funcionamento de equipamentos culturais, incluindo museus e monumentos, à escala global, são mais do que conhecidos. Este período de recolher obrigatório impeliu o setor a repensar estratégias e práticas para a programação de exposições, eventos e atividades, ao desenho de novas plataformas e de novas ferramentas para o contacto com o público ou, em última instância, a reconsiderar o(s) próprio(s) público(s)-alvo. Acima de tudo, a pandemia veio evidenciar discrepâncias entre instituições - de maior ou menor dimensão, melhor ou pior preparadas para a tão anunciada (e aguardada) transição digital, com maior ou menor grau de precariedade ao nível dos recursos técnicos e humanos – mas também problemas estruturais que são transversais a todo o setor cultural e, de forma muito particular, aos museus.


Publicado em novembro do ano passado, o relatório final do estudo promovido pelo Grupo de Projeto “Museus no Futuro”, identifica algumas destas questões, considerando a realidade das instituições públicas portuguesas. Lançada, em fevereiro de 2019, pelo Ministério da Cultura, a iniciativa contou com a participação de um grupo alargado de especialistas, profissionais do setor e representantes governamentais, assim como com a colaboração do Observatório Português para as Atividades Culturais. Traçando um panorama atual e retrospetivo do setor, o relatório reúne ainda um conjunto alargado de recomendações para o desenho de políticas públicas no âmbito concreto da gestão de Museus, Palácios e Monumentos Nacionais.


Algumas das conclusões avançadas no documento não constituem propriamente uma surpresa, nomeadamente no que diz respeito à forte dependência do setor em relação ao turismo, expressa na percentagem substancial de visitantes estrangeiros ao conjunto de museus e monumentos nacionais, em 2019; 65% do total de visitantes contabilizados. Não será, portanto, igualmente de espantar que, no que diz respeito às recomendações elencadas para um dos cinco eixos estratégicos apontados no Relatório, “Públicos e Mediação”, o foco seja colocado sobre públicos nacionais, especialmente sobre públicos locais. É neste contexto que, por exemplo, o relatório sugere a co-curadoria de residências artísticas e de exposições no eixo escola-museu, como uma das formas possíveis de aproximação aos públicos jovens e à comunidade escolar, menos presente, nos museus e monumentos, como consequência do declínio no número de visitas escolares, sobretudo a partir de 2011.


A colaboração entre escolas e museus ou, em termos específicos, entre Direção-Geral da Educação e Direção-Geral do Património Cultural, não é de hoje, sendo exemplificativo de ações passadas o protocolo firmado entre ambas as tutelas, em 2013, e que resultou, por exemplo, na utilização do “Kit de Recolha de Património Imaterial”, desenvolvido em 2011 pelo então Instituto dos Museus e da Conservação, em escolas do 2.º e 3.º ciclo do Ensino Básico. Contudo, uma estratégia para a promoção da educação patrimonial não se esgota na promoção conjunta de atividades entre museus e escolas. Um outro estudo recente, “Património Cultural: em Portugal Avaliação do valor económico e social”, resultante de uma parceria Spira, Observatório do Património e Nova School of Business & Economics, reforça algumas das conclusões do Grupo de Projeto “Museus no Futuro” e propõe o desenvolvimento de uma estratégia nacional e suprainstitucional para o Património que contemple um horizonte temporal alargado. No que diz respeito ao estreitamento de relações entre escolas, museus e monumentos, a ênfase é colocada sobre a dinamização conjunta de atividades culturais e de sensibilização, mas também, no desenvolvimento de formação técnico-profissional em áreas como a museologia, conservação e restauro.


Não obstante, confrontados com novo período de confinamento e com um cenário cada vez mais longínquo de retoma para a atividade turística, a reaproximação à comunidade escolar parece ser uma das saídas possíveis para os museus e monumentos portugueses. Uma necessidade que, em tempos (pós)pandémicos, poderá vir a revelar-se ainda transformar-se numa oportunidade para a reafirmação do papel formador e mediador dos museus que, no caso da programação e acolhimento de residências artísticas tem vindo a ser remetido para outros promotores (incluindo, com frequência, os próprios artistas...). Esta é uma necessidade que se conjuga com a urgência de valorizar o estatuto e vínculo de profissionais de serviço educativo e mediadores culturais, cuja precariedade na relação contratual com muitas instituições foi igualmente exposta pela pandemia.

Ainda que a promoção e acolhimento de residências artísticas por parte dos museus portugueses esteja longe de constituir novidade, ganha, efetivamente, um sentido de oportunidade renovado no âmbito da continuidade do Plano Nacional das Artes, que avança para o segundo ano de implementação. No que diz respeito à promoção da criação artística contemporânea, esta poderá também ser uma motivação para que os museus portugueses, e não apenas museus de arte, possam reinventar-se como lugar privilegiado para a experimentação e para a participação dos públicos, grupos e comunidades locais, através de práticas artísticas.


Considerando que 82% dos Museus, Palácios e Monumentos Nacionais possuem coleções de arte, percebem-se as eventuais vantagens da abertura do seu espaço à investigação (artística). Outras vantagens da promoção e acolhimento de residências artísticas, além do potencial para a dinamização das coleções, passam pela diversificação da atividade de programação expositiva, cultural e educativa, pelo alargamento de parcerias institucionais e, especialmente, pelo convocar de olhares e de leituras, muitas vezes externos ou mesmo deixados de fora da história dos museus e das estórias que estes têm para contar-nos.


Dentro ou fora do seu espaço físico, em regime presencial ou por via remota, o Museu assume cada vez mais a missão de sensibilizar, mobilizar e inspirar através do (seu) património, colaborando com potenciais agentes de questionamento e mudança, de investigadores, a professores e artistas - papéis que, por vezes, e em determinadas áreas, cada vez mais se confundem - reinterpretando-se e recriando-se a partir de dentro e para/com o contacto com gerações mais jovens. Desta forma, os Museus no Futuro poderão continuar a contribuir ativamente para a sua resiliência – cultural e económica – e para a dos territórios em que se encontram, reconectando-se aos lugares e às pessoas, promovendo a participação cultural, a partir da (re)criação artística do património – e das dinâmicas patrimoniais - que os sustentam.


*Ana Gago é doutoranda em Estudos do Património (UCP-Porto)


[Fotografia: Unsplash/ Monika Kozub]

A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


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