Buscar

“Quem faz o conto não é a boca, é o ouvido”:Educar para a escuta e salvaguardar o património oral



São de Italo Calvino, apaixonado pela tradição oral e pelos contos populares, as palavras do título deste texto.


Já pensaram que no dia em que deixarmos de querer escutar histórias, uma parte fundamental do nosso património oral acabará por se perder?


Teremos a consciência de que, entre as primeiras comunidades humanas, as histórias partilhadas à roda do fogo foram fundamentais para a coesão social, mantendo os seus membros unidos em torno de crenças, valores e memórias comuns?


Como escrevia José Gomes Ferreira no prefácio de uma antologia de contos populares, nestas narrativas encontramos "como que cristalizadas, as paixões e as experiências essenciais da alma humana, vindas lá do poço dos tempos, modeladas por povos e povos de esqueletos, transmitidas por milhares e milhares de bocas, ajeitadas por biliões e biliões de lábios."


Até há bem pouco tempo nos serões à lareira, continuaram a partilhar-se acontecimentos diários, estórias, lendas ou contos maravilhosos que ajudavam as crianças a crescer, enfrentar medos e desafios. Rimas, lengalengas, trava-línguas introduziam os mais novos na vida, ajudando-os no domínio da linguagem e na compreensão do mundo. Provérbios e adivinhas integravam o quotidiano e aproximavam gerações. Desde o ultimo quartel do séc. XX porém, mudanças nas formas de vida à escala comunitária e familiar e nos contextos de trabalho provocaram rupturas nestes mecanismos de transmissão oral.


Hoje, cresce a consciência de que as tradições e expressões orais fazem parte do nosso património, de um tesouro colectivo. Como os tesouros das antigas lendas, temos que desenterrá-los da memória dos mais antigos, desencantá-los e dividi-los para que não se perca o fio deste contar de boca a orelha.


Há um livro que percorre os 365 dias do ano convidando à descoberta de contos, lendas, provérbios, adivinhas, lengalengas… recolhidos pelas crianças ainda numa cadeia de transmissão oral de avós para netos, de pais para filhos, de graúdos para miúdos. Chama-se “De boca a orelha. 365 tesouros do Património Oral das 4 Cidades” e foi criado recentemente no âmbito de um projecto – “À descoberta das 4 cidades” – que aproxima 4 regiões do nosso país: Fundão, Marinha Grande, Montemor-o-Novo e Vila Real de Santo António.


Como nasceu este livro? Como se conseguiu, nos dias que correm, criar momentos de escuta e de narração? Se uma das grandes preocupações do ensino é hoje estimular a leitura e criar leitores, com este projecto pretendemos estimular a escuta e criar “ouvidores”… Um grande desafio, num mundo carregado de imagens e em grande aceleração.


Ao longo de 3 anos, no âmbito de uma acção educativa “DE BOCA A ORELHA. Contos, lendas, provérbios, adivinhas, lengalengas… À descoberta do património oral das 4 cidades”, crianças e professores (8 turmas do 1º ciclo, num universo de cerca de 120 alunos) debruçaram-se sobre o domínio do património oral, ou seja o conjunto de tradi­ções e expressões orais que se transmitem ao longo de um tempo mais ou menos longo, no seio de uma comunidade. Falamos de um património frágil, porque sempre associado às pessoas, que garantem a sua existência, vivenciando-o e transmitindo-o às gera­ções futuras.


Conscientes da sua fragilidade, e dos seus tão ricos significados, empreendemos uma viagem em busca de contos, lendas, provérbios, adivinhas, lengalengas e trava-línguas. Porque se um conto, uma lenda, uma lengalenga ou uma adivinha não for ouvido, nem for dito ou contado, é esquecido, morre, desaparece. Se este processo tão antigo e inerente à condição humana de contar, ouvir e voltar a contar… for interrompido, estas narrativas e saberes desaparecerão da nossa memória colectiva, e ficaremos todos muito mais pobres.


Ao longo de três anos foram diversas as actividades realizadas nas escolas envolvendo toda a comunidade escolar. Depois da sensibilização dos professores para o trabalho a desenvolver no domínio do património oral com formação sobre métodos de recolha, estruturação e arquivo da informação, deu-se início ao registo e documentação das tradições e expressões orais em cada concelho, junto da família e comunidade em geral, pelas crianças, com recurso a ficha de recolha.

Paralelamente, foram identificados na comunidade detentores de património oral, a quem foi dirigido o convite para partilharem os seus saberes na sala de aula. Outras recolhas foram feitas no âmbito de visitas a Centros de Dia e Lares ou de encontros com os seus utentes. Desta forma foram-se identificando detentores de tradições orais e fazendo registos áudio e vídeo.


Mas, porque este património se quer vivo, o desafio lançado foi também o da exploração lúdica e artística das manifestações orais recolhidas. Dinamizaram-se concursos e gincanas de adivinhas, conversas sobre provérbios; criaram-se jogos didácticos, em sala de aula, para estimular a narração oral; realizaram-se de oficinas de criatividade e expressão artística a partir das tradições recolhidas (ilustraram-se contos, lendas, provérbios, adivinhas, fizeram-se fantoches, criaram-se filmes de animação com provérbios, lendas e contos). Todas as escolas participaram no “Concurso de desenho sobre personagens e objectos mágicos dos contos e lendas”. Em paralelo, foram dinamizadas sessões de narração oral com a participação de alunos, professores, familiares e contadores de histórias, nas escolas, nas Bibliotecas Municipais e mesmo ao ar livre.


Com este projecto identificámos, registámos e documentámos tradições e expressões orais de cada concelho, contribuindo para a sua salvaguarda; promovemos a partilha intergeracional, estimulando a narração oral; explorámos memórias e o imaginário colectivo que subjazem a estas manifestações; motivámos dinâmicas de exploração da tradição oral promovendo serões, concursos, jogos; e explorámos a criatividade e a expressão artística a partir das tradições recolhidas.


Numa fase intermédia foi editado o jogo de memória “Personagens e Objectos Mágicos dos Contos e Lendas”. Vinte desenhos, realizados pelas crianças das 4 cidades irmãs, deram corpo a 40 cartas, representando personagens e objectos mágicos dos contos e das lendas (velha, rei, fada, bruxa, lobisomem, moura encantada, raposa, carochinha, anel mágico, chave, arcas, etc). Durante o jogo, cada criança pode ir lendo os textos associados para ficar a conhecer melhor as personagens e objectos mágicos que povoam os contos e lendas da tradição oral portuguesa. Uma divertida porta de entrada neste universo maravilhoso do imaginário popular.



O livro “De boca a orelha. 365 Tesouros do Património Oral das 4 Cidades”, concebido a partir da pesquisa desenvolvida nas escolas, apareceu na recta final da acção educativa e pretendeu devolver à comunidade todo o percurso e recolhas realizadas. Os 365 contos, lendas, provérbios, adivinhas, lengalengas e trava-línguas que apresentamos neste livro, e que podem ser lidos à medida que percorremos o calendário ao longo do ano, foram recolhidos, pelas crianças e professores, ainda numa cadeia de transmissão oral de avós para netos, de pais para filhos. Todos foram ouvidos, passaram de boca para orelha. E porque este património está sempre associado a pessoas, que o detêm e transmitem, para além do “texto” recolhido as crianças foram estimuladas a perguntar: quem contou, quem disse? Com quem aprendeu? Em que situação? Ainda conta? E assim conferir ao “texto” um contexto: memórias e vivências de família e de grupo no contar e no escutar.


O livro propõe uma viagem no espaço pelas 4 regiões do país onde as recolhas foram feitas, mas também no tempo, percorrendo os 365 dias de um ano e mergulhando num tempo muito antigo em que este contar de boca a orelha preenchia os dias de velhos e novos, unindo gerações.



#OPINIÃO #CATARINAOLIVEIRA #LIVRO #TRADIÇÃOORAL #EDUCAÇÃO #PATRIMÓNIOIMATERIAL #PATRIMÓNIOORAL

BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

1/16

Conteúdos redigidos de acordo com a antiga ortografia, excepto no caso de artigos de autor, nos quais este/a é livre de optar.