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Liverpool: um mau exemplo a não ser seguido?



Não é realmente possível dizer que a desclassificação de Liverpool como Património Mundial da Humanidade tenha surpreendido alguém: foram inúmeros os avisos da UNESCO desde 2012. No máximo, é possível dizer que houve quem esperasse que tal decisão não tivesse lugar; afinal, em quase cinquenta anos desde a convenção de 1972, só outros dois sítios tinham sido desclassificados. O primeiro, em 2007, sequer suscitou discussões: o santuário do Órix da Arábia (Omã) viu o seu tamanho reduzido em 90% e a sua população de animais diminuiu drasticamente, fazendo com que o título perdesse significado. Já o segundo, embora com algum grau de controvérsia, foi de alguma forma decidido pelos próprios moradores: em Dresden, no vale do Elba, em dois plebiscitos diferentes, decidiu-se construir uma ponte que, embora fora da área de proteção da UNESCO, era visível da cidade, modificando a paisagem destacada.


Porém, no caso de Liverpool, quando no dia 24 de julho o Comité de Património Mundial da Unesco reunido na China anunciou que as docas vitorianas de Liverpool deixavam de ser património mundial da UNESCO houve uma ampla gama de manifestações contrárias na cidade. E este é um caso que vale a pena ser observado com atenção porque mostra o quanto a especulação financeira que o próprio título traz pode ser danosa para o património salvaguardado; não que isso já não fosse sabido; há inúmeros outros casos de patrimónios cujo sucesso causou impactos capazes de colocarem aquilo que está se salvaguardando em perigo, mas nenhum sofreu de maneira consciente modificações tão grandes.


Durante os séculos XVIII e XIX, Liverpool foi o porto britânico mais importante, algo que se reflete na imponência dos edifícios então construídos e na zona das docas, mas a construção de um estádio nas imediações, com uma altura e tamanho acima do recomendado, e a construção de um grande projecto imobiliário, o Liverpool Waters, colocaram em risco a integridade do conjunto. A UNESCO afirmou que tais construções causaram uma "perda irreversível" do valor histórico das docas vitorianas. A resposta da Liverpool Waters e de outras autoridades foi que eles regeneram uma parte da cidade, beneficiando-a ao criar novas moradias, espaços comerciais e de lazer e outras infraestruturas.

Frente a todas as críticas é necessário destacar que a desclassificação parece justa quando se observa o seu caráter técnico. As candidaturas são feitas pelos próprios agentes locais a partir de monumentos e paisagens únicos. Em Dresden era a paisagem do vale do Elba e em Liverpool eram as docas e edifícios nos seus entornos que mostravam — somando 380 construções protegidas — a importância histórica da cidade. O projeto Liverpool Waters, embora não estivesse entre esses edifícios, integrava parte da área de proteção. Logo, a desclassificação é da candidatura. Contudo, é preciso salientar o quanto essa desclassificação fomenta e fomentou discussões sobre a historicidade dos sítios. A História não pode ser apagada, mas os seus vestígios materiais podem. E aqui dois termos são os indicados pela UNESCO para justificar esse procedimento: a perda da "autenticidade" e de “integridade”. Certo é que manter um sítio classificado como Património da Humanidade é um esforço quase hercúleo: tentar fazer o tempo parar ou voltar o mais próximo possível para o momento de glória ou apogeu daquele espaço, uma proposta que tem um quê de romântica. Só intervenções mínimas pontuais ou que não destruam o ambiente do sítio são permitidas, implicando algumas vezes a destruição de estruturas para a candidatura. E não há nada de errado neste desejo de estar o mais próximo possível de um dado momento histórico ou de tentar preservar um sítio no seu apogeu, mas não é surpreendente que não se consiga fazê-lo a não ser que haja um real empenho de toda a comunidade, em todos os seus níveis hierárquicos e sociais.


A ironia é que o próprio “selo” da UNESCO coloca em perigo o património. Nenhuma candidatura é feita ingenuamente; os ganhos financeiros são parte essencial para os próprios proponentes, mas não são compartilhados por todos. A ponte de Dresden teria supostamente sido construída justamente por conta do afluxo de turistas que teria tornado o trânsito muito mais difícil. Seu objetivo era desviar os automóveis do centro.


Já em Liverpool, sem o título da UNESCO a cidade ficou já excluída de uma verba governamental de 150 milhões de euros para o Património Mundial, mas o projeto Liverpool Waters teve um custo de mais de 5 mil milhões. A UNESCO pediu diversas vezes para o governo do Reino Unido se responsabilizar pelo património salvaguardado pela entidade, mas igualmente parece nunca ter sido ouvida; os patrimónios são geridos pelas autoridades locais.

Quão rentável é efetivamente o selo UNESCO? Elvas teve um aumento de 300% no número de turistas, convertido em ganhos para os hotéis e restaurantes, mas em Coimbra o mesmo não se sentiu de maneira homogénea: só os entornos da Universidade obtiveram um ganho económico relevante. No ano em que Dresden perdeu o título houve uma queda de 10% do turismo. Mas, ainda assim, ser reconhecido pela UNESCO traria um perfil de turista mais interessante para as localidades. Os turistas informados pelas listas patrimoniais teriam um maior nível educacional e socioeconómico.


Liverpool parece ter saído beneficiada de ter o seu património destacado, todavia já não é hoje tão dependente desse reconhecimento: conta com um Tate, dezenas de museus, aeroporto nas proximidades e a capacidade de atrair e fixar jovens na cidade nos últimos anos. A cidade pobre da época dos Beatles mudou muito nas últimas décadas e, logo, não deve sofrer muito com a perda do título. Devemos, contudo, estar atentos para que não se torne um modelo de uso do título como marketing temporário para a recuperação de cidades até que os grandes investidores cheguem e o “selo” deixe de ser necessário. O património pode e deve ser utilizado para a recuperação de áreas degradadas, mas não arriscando-se a si próprio.


A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


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