Exposições, reservas, opções … e uma esperança



O que fazer com recursos limitados? Investir mais nos museus centrais ou numa rede nacional? Dar mais visibilidade e glamour ao que já se valorizou ou abrir novos caminhos? Focar essencialmente a dimensão histórica ou memorial do passado? Estruturar nos museus os ecos da rua ou potenciar a dimensão transgeracional?


Face aos dilemas impostos pelas limitações orçamentais (que não desaparecem com o PRR nem com as raramente mencionadas poupanças que a pandemia gerou, e que em muito o ultrapassam), não existem escolhas “acertadas” em termos de investimentos concretos, fora de uma estratégia que deve estar assente em valores e visões de futuro.


O património é, de facto, sobretudo passado (interpretação, conservação) e futuro (educação, sustentabilidade, prospetiva). O presente interage com o passado fundamentalmente numa dimensão, a experiência, mas não o determina (a não ser quando o condena ao esquecimento e à destruição, ou seja, quando essa interação é negativa).


Os museus em Portugal têm tido uma expansão muito positiva, graças a alguns instrumentos centrais (como a Lei-quadro dos museus, apesar das suas enormes insuficiências) e ao investimento do poder local (traduzindo em atos o interesse das comunidades, ele próprio decorrente da conjugação de distintos processos: memórias locais, educação, sentimento de perda, procura de novas fontes de rendimento, entre outros). Mas são conhecidas as limitações, desde logo em técnicos qualificados (muitas estruturas subsistem sem equipas técnicas estáveis), em laboratórios e centros de investigação (muitas dessas estruturas não possuem sequer acordos de colaboração permanente e estável com laboratórios de conservação ou centros da rede da FCT) e, sobretudo, em estratégia (muitas, ainda, não possuem programas estratégicos que as orientem, acabando por atuar de forma meritória mas casuística, geralmente dependente da disponibilidade de financiamentos (cada vez mais dependentes do turismo).


Não raramente, os chamados “programas” ou “planos” de trabalho reiteram aspetos óbvios da missão institucional (como os de preservar as coleções e facultar o seu acesso público), para depois se estruturarem não em torno de uma estratégica política (para a polis) mas de uma tática financeira (orientada para a expectativa de financiamentos). Não que seja errado beneficiar desses apoios, mas na ausência de uma estratégia não se pode esperar um resultado muito coerente. E, sobretudo, dificilmente se conseguirá vislumbrar uma política museológica para a comunidade, para além das iniciativas museológicas para segmentos específicos (população local nuns casos, especialistas noutros, turistas em muitos deles, …raramente escolas).


O que se pode dizer a este respeito sobre os museus locais e regionais não será muito distinto do que se poderá escrever sobre boa parte dos museus nacionais e da própria tutela. Também com o PRR se anunciam diversas grandes obras, genericamente justificáveis, mas, com raras exceções, não creio que elas obedeçam a um rumo ancorado no passado e no futuro, perdendo-se no permanente presente. Foi assim em boa parte do passado, o que explicará que não tenhamos ainda um percurso museográfico que atravesse a totalidade do nosso passado mais remoto, ou que não tenhamos cuidado de repensar museus nacionais implantados em locais nobres mas em zonas de risco sísmico elevado, ou que a política de museus esteja (exceto em algumas autarquias) totalmente divorciada das políticas de ensino e de coesão social.


De entre as lacunas que emergem de décadas de investimento público em museus, uma avulta em especial, pelas terríveis consequências que implica para o futuro do património, comprometendo quer a sua dimensão de passado (impossibilitando o seu estudo e a revisitação de interpretações históricas) quer a sua função para o futuro (apagando memórias e alargando o espaço para o revisionismo histórico). Refiro-me às reservas. Sendo de há muito sabido que a generalidade dos museus tem as suas reservas em pré ou plena rutura, é especialmente grave que grande parte das estruturas museológicas mais recentes também não tenham previsto essa necessidade. Especialmente no que diz respeito ao património etnográfico material e ao património da imprensa regional, a perda quotidiana de acervos insubstituíveis é avassaladora.


Não vejo, quando se fala de PRR, Portugal 2030 e de planos para o património, nenhuma atenção especial (talvez uma referência marginal aqui e acolá) a esta realidade. Porém, é provável que grande parte dos saberes tradicionais das várias comunidades do território português, cuja dimensão imaterial se vai perdendo com a extinção de profissões, sofra uma segunda perda, com a destruição/degradação dos vestígios materiais desses saberes. É igualmente certo que, se não houver uma estratégia para o contrariar, a perda de arquivos locais, incluindo de jornais, comprometa os estudos futuros de história local e, ao mesmo tempo, acrescente ao despovoamento a dimensão da amnésia.


Pensar a coesão territorial passa por esta questão. A criação de reservas, tecnicamente equipadas e distribuídas pelo território (idealmente geridas em lógicas intermunicipais), não é apenas uma questão de preservação do passado: é uma condição de sustentabilidade e resiliência no futuro. Comparado com outros, este investimento não é desmesurado, mas é impossível pedir que as autarquias assumam essa obrigação, que é nacional, sozinhas. Um programa de estímulo, que a partir do Ministério da Cultura possibilitasse a criação de uma rede nacional de reservas, servindo grupos de museus, permitindo preservar os acervos, reforçar os laços territoriais e propiciar a reflexão sobre o futuro.


Claro que, se isso for feito, poderá faltar dinheiro para alguma nova megaexposição, que atrairia alguns milhares de turistas. Mas a vida é feita de opções, cuja coerência é fundamental. Estando certo de que o Ministério da Cultura não tem como o objetivo principal cuidar do Turismo, mantenho a esperança e um razoável otimismo sobre o desfecho desta lacuna. Se não for para preservar efetivamente o património em perigo, para que serviria então o Ministério?


E, sem reservas, desejo a quem lê esta coluna um bom 2022.

 

O autor utiliza o Acordo Ortográfico.


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