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"Do Parnaso ao Paraíso: Caminhos para a reabilitação do património calipolense" Parte II



Catarina Portas | Tiago Salgueiro


[< Parte I]


O interior da Ermida divide-se em corpo da nave, de formato retangular, com planta de cruz latina, cruzeiro e capela–mor pouco profunda de prospetos que estavam anteriormente completamente revestidos por painéis de azulejos azuis e brancos, do tipo de figura avulsa, enquadrados em faixas barrocas de ornatos naturalistas.


A capela-mor tinha um pequeno retábulo de talha barroca, também desaparecido, dourado e coevo, disposto em quatro colunas torsas, de estilo salomónico, ornadas de parras, uvas e pássaros. Neste local está também um nicho de arco redondo, que tinha colunelos concêntricos, da mesma arte, onde se venerava a curiosa imagem da padroeira – Virgem com o Menino, de madeira estofada e roupagem ondulante suspensa pelas costas, ladeada por anjos esvoaçando, procedendo à sua coroação. Esta imagem do século XVII, também em parte incerta, foi restaurada em 1950[1].


Ermida de Nossa Senhora do Paraíso © Túlio Espanca: "Inventário Artístico de Portugal"


A curiosa composição cerâmica da nave era a mais arcaica do seu género conhecida a sul do país, de provável fabrico conimbricense dos finais do século XVII, inspirada em modelos holandeses de Delft e de assuntos antropomórficos, intensamente iluminada por motivos soltos, por vezes caricaturais, de caçadores, animais e aves, embarcações, assuntos marítimos e paisagens pitorescas. Este valioso e raro conjunto desapareceu completamente em data incerta e o seu paradeiro é desconhecido.


As pilastras angulares do cruzeiro, a cúpula, de meia laranja, o presbitério e a cobertura da nave, lançada em meio canhão, estão ainda recobertos de pinturas a fresco dos finais do século XVII e do mesmo estilo, figuradas por laçaria de sanefas e albarradas, anjos brutescos, aves e atributos marianos.


No eixo da abóbada, existe uma grande tabela ovoide, de mascarões, volutas, vieiras e a legenda latina encomiástica presa por dois serafins. Este conjunto resistiu à erosão do tempo e mantêm-se em razoável estado de conservação.


Fora do alpendre, num pequeno adro ensombrado por um velho freixo, existia um púlpito de alvenaria. Daí para baixo, até à estrada, havia escalões de lajes de xisto, já um tanto derruídos no século XIX, por onde se subia até ao pequeno templo, desde a estrada. Esse acesso hoje já não existe.


Da parte de baixo e desse mesmo lado, estava a casa do dito colmeal, hoje completamente em ruínas, onde existia um fogão onde eram preparadas as refeições pascais e mais abaixo, no caminho da estrada e antes da ribeira do Beiçudo, estava o ermitério, onde sempre tinha residido um morador ou eremitão, desde o século XVII.


Mais a poente encontra-se a gruta a que os locais chamam a Cova do Monge, possivelmente habitada desde o século XVI pelos anacoretas que deambulavam por entre este e os eremitérios da Tapada Real de Vila Viçosa, nomeadamente junto das ermidas de Santo Eustáquio e São Jerónimo.

Porém, hoje, a Ermida de Nossa Senhora do Paraíso encontra-se em avançado estado de degradação, tendo sido profanada ao longo de décadas, com o interior e a envolvente completamente cobertos com vegetação.


A distância em relação ao centro histórico de Vila Viçosa e o isolamento foram seguramente os fatores que mais contribuíram para a degradação do edifício e da envolvente, assim como as sucessivas pilhagens e roubados efetuados desde 1950.


O “Lugar do Paraíso” situa-se fora da Zona Especial de Proteção do Plano Diretor Municipal de Vila Viçosa, pelo que a Ermida não consta na base de dados do SIPA. O atual proprietário, desde meados dos anos 90 do século XX, é o Sr. Nemeu Fernandes, residente em Vila Viçosa, integrada na designada Herdade do Paraíso.


Estado de conservação


Conforme referimos, em termos gerais, o edifício encontra-se em avançado estado de ruína e de abandono, envolto em densa vegetação, que não permite a sua visualização e leitura do conjunto edificado desde a estrada.

A humidade tem provocado o surgimento de fungos e bolores em quase todas as superfícies expostas. Nas paredes só restam vestígios do revestimento azulejar, que foi quase integralmente furtado. Os frescos mantêm-se em estado razoável de conservação e é este legado patrimonial que apresenta atualmente maior interesse. O altar foi destruído, assim como se destaca também uma fissura ao longo de toda a abóbada, na parte central. Todo o edifício apresenta grandes deficiências estruturais.


A ausência total de camada impermeabilizante da cobertura tem acelerado o processo de deterioração e toda a estrutura está fragilizada devido à exposição aos elementos. As variações sazonais dos valores de humidade deixam as paredes saturadas ou secas, sucessivamente, nas diferentes estações, provocando danos nas camadas impermeabilizantes das paredes, com perda total na maioria dos pontos. Estas oscilações aceleram também o processo de degradação[2], aumentando a fragilidade de todo o edificado.


Como já referimos, todos os elementos de madeira, estruturais (portas e janelas) e decorativos, como o retábulo, deixaram de existir. Para além da degradação interior, o conjunto edificado está envolto em densa vegetação. O adro que se encontra em frente da Ermida está também completamente coberto por um manto vegetal, sendo absolutamente impossível de identificar.


Esquerda: Parte do revestimento azulejar original no transepto, com azulejos azuis e brancos, do tipo de figura avulsa, do final do século XVII. Direita: Tabela ovoide, de mascarões, volutas, vieiras e a legenda latina encomiástica presa por dois serafins, situada no eixo da abóbada - Pintura a fresco do século XVII, afetada por uma fissura que percorre toda a abóbada.


Conclusão


A proposta que foi apresentada a várias entidades locais, regionais e nacionais, pretende assumir-se como um contributo que permita a reflexão sobre este património, procurando encontrar uma solução para a sua reabilitação e proporcionando o reconhecimento de um testemunho/bem cultural com um grande significado para a comunidade calipolense.


A relação da Ermida de Nossa Senhora do Paraíso com o entorno social de Vila Viçosa justifica a extrema necessidade de conjugação de esforços para a sua salvaguarda. Recuperar essa memória é um dos pilares fundamentais desta iniciativa, de modo a garantir às gerações vindouras a possibilidade de usufruto deste património singular.


Nesse contexto, propõe-se a criação de uma equipa de trabalho multidisciplinar, composta por um historiador de arte, um arquiteto, um arquiteto paisagista, um arqueólogo, um engenheiro civil e um conservador-restaurador especializado em pinturas murais, para a elaboração de um diagnóstico sobre o estado de conservação da Ermida de Nossa Senhora do Paraíso, identificando mais pormenorizadamente as atuais condições, os riscos, as patologias, assim como o conjunto de possíveis soluções, assentes num projeto de requalificação integral.


Para o efeito, pensamos que esta iniciativa poderá ser assumida através de uma parceria a desenvolver entre o proprietário, a Câmara Municipal de Vila Viçosa, a Universidade de Évora, a Comissão de Coordenação da Região Alentejo, a Entidade de Turismo do Alentejo e a Direção Regional de Cultura do Alentejo, através de uma candidatura a um conjunto de fundos que permitam a implementação do projeto.


A eventual inclusão da Ermida no Plano Diretor Municipal e a sua classificação enquanto imóvel de interesse municipal poderão ser mecanismos que permitam a obtenção de financiamento para a intervenção.


O lançamento de uma campanha de crowdfunding pode ser outra das alternativas a considerar, caso seja possível contar com o apoio e o consentimento do atual proprietário, propiciando uma participação ativa dos cidadãos no processo de reabilitação deste património. O objetivo será o da devolução de alguma dignidade ao edifício e à zona envolvente, partindo do pressuposto que já muito foi perdido de forma irremediável.


A recuperação da cobertura, das paredes, o restauro das pinturas murais e a limpeza da zona envolvente seriam as medidas mais efetivas, de modo a que fosse possível a fruição pública deste espaço, sem um investimento demasiado avultado numa primeira fase e que poderia, na nossa perspetiva, ser analisado e comparticipado pelas entidades anteriormente mencionadas.


Outra das propostas, respeitando sempre que possível a originalidade do conjunto, seria a criação de um acesso construído em materiais tradicionais (alvenaria de xisto, em abundância na zona), que permitisse, de forma mais fácil, a deslocação pedestre até à zona de entrada da Ermida, tal como existia no passado. Na atualidade, esse acesso é bastante complexo, por ser bastante íngreme e escorregadio.


O que solicitámos às entidades com responsabilidade nesta matéria foi a formulação de um projeto, eventualmente com recurso a fundos europeus ou outros considerados ajustados, através da criação de parcerias, que possibilitem a concretização do que aqui propomos, noutros formatos ou com outras alternativas ou conteúdos.


Como referimos inicialmente, pensamos ser possível manter-se o carácter original do edifício, com o investimento adequado, aperfeiçoando os acessos, recuperando o conjunto das pinturas murais, que se encontram em razoável estado de conservação e devolvendo a dignidade a este pitoresco monumento.


A eventual criação de um centro interpretativo (numa fase posterior), com base na história do “Lugar do Paraíso” e das vivências seculares que aqui se foram desenrolando ao longo dos anos, poderia vir a constituir uma referência em termos turísticos e um exemplo de boas práticas também a nível da preservação ambiental, tendo em conta o cenário da envolvente paisagística da Ermida.


Defendemos por esse motivo uma intervenção global, que preserve a traça original e utilize materiais e técnicas tradicionais, meta que só pode ser efetivada com conjugação de vários contributos de organismos públicos e privados e com o apoio do proprietário.


Pretende-se que este testemunho cultural seja encarado também como um recurso em termos de desenvolvimento, integrado na Rota do Fresco Calipolense, em conjugação com vários fatores de atratividade, promovendo uma estratégia de trabalho em rede, em conjugação e como complemento de outros projetos turísticos e culturais já existentes.


Com o contributo de todos os atores, será possível definir com rigor uma estratégia válida e identificar prioridades de intervenção que evitem a total destruição deste bem com especificidades únicas e que tem um lugar por direito próprio na história de Vila Viçosa.


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[1] ESPANCA, Túlio, Inventário Artístico de Portugal, Zona Sul, vol. I, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1978, p. 608.


[2] SERRANO, Hugo, Achados e Perdidos, Caracterização e projeto de reabilitação da Ermida de Nossa Senhora do Paraíso de Vila Viçosa, Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2011.


Bibliografia consultada:


ESPANCA, Joaquim José da Rocha, Memórias de Vila Viçosa, Cadernos Culturais de Vila Viçosa, Câmara Municipal de Vila Viçosa, 1985 (1º edição 1885).


ESPANCA, Túlio, Inventário Artístico de Portugal, Zona Sul, vol. I, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1978.


LAPÃO, Manuel, Para além do Paraíso, contributo para uma candidatura de Vila Viçosa a Património Mundial da Humanidade, Câmara Municipal de Vila Viçosa, 2004.


LUND, Christopher, O parnaso de Vila Viçosa : leitura do texto, introdução, notas e índices, Rio de Janeiro: H.P. Comunicação Editora, 2003.


SERRANO, Hugo, Achados e Perdidos, Caracterização e projeto de reabilitação da Ermida de Nossa Senhora do Paraíso de Vila Viçosa, Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2011.



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