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"Do Parnaso ao Paraíso: Caminhos para a reabilitação do património calipolense" Parte I

Atualizado: Abr 1



Catarina Portas | Tiago Salgueiro


“Paraíso, aqui, invoca-nos o paraíso perdido, mas também o encontrado, o desejado, e ainda aquele que está para além disso.”[1]


Introdução


Vila Viçosa é uma localidade com uma diversificada riqueza patrimonial, de caraterísticas singulares, resultado da grande influência que teve, enquanto centro político, urbanístico, cultural, religioso e científico, nos séculos XVI e XVII.


A presença dos Duques de Bragança, com maior incidência a partir de 1501, com a construção do Paço Ducal, converteu o pequeno aglomerado numa referência a nível europeu, devido à dinâmica da corte brigantina, proporcionando também a construção de edifícios civis e religiosos sob o patrocínio da Casa Ducal e dos seus vassalos.


De facto, Vila Viçosa representava à época um verdadeiro “Parnaso das Artes e das Letras[2], em virtude do ambiente invulgar de erudição intelectual e de requinte artístico e cultural da sociedade ducal, instituída no Paço.


A presença da "corte de aldeia" que se desenvolveu em torno da casa ducal dos Braganças a partir do século XVI e nos primeiros decénios do século XVII, em plena dinastia filipina (1580-1640) foi de facto uma referência que deixou como herança uma marca cultural de dimensão internacional.


Porém, o “universo” calipolense, “paraíso” monumental de grande coerência estilística[3], apesar da sua riqueza patrimonial, apresenta na atualidade alguns sinais de descaracterização, evidenciados pela crescente degradação de alguns dos seus monumentos mais representativos.


O exemplo da Ermida de Nossa Senhora do Paraíso e da sua envolvente, lugar na vertente nordeste de Vila Viçosa, que é único pela particular cenografia natural e capacidade evocativa, revela hoje o pior dos sinais de degradação e perda, caminhando a passos largos para o desaparecimento total[4].


O que se pretende, com esta proposta, é a criação de um projeto de desenvolvimento que valorize um importante conjunto patrimonial, resgatando uma memória quase perdida para a identidade local e reabilitando um edifício que se encontra em avançado estado de degradação.


Para este efeito, será estritamente necessário criar convergências entre os atuais proprietários e as entidades locais e regionais, inserindo, a médio prazo esta proposta de reabilitação numa estratégia mais vasta do ponto de vista patrimonial, que acrescente valor e permita a fruição pública dos mais emblemáticos monumentos calipolenses.


Torna-se cada vez mais evidente aos olhos das comunidades que o Património é um ativo que poderá contribuir de forma efetiva para o desenvolvimento local, criando riqueza, gerando empregos, melhorando a qualidade de vida das populações e fomentando dinâmicas que podem aportar novas perspetivas em termos de sustentabilidade económica.


Na nossa opinião e tendo em conta o processo de classificação de Vila Viçosa – Vila Ducal Renascentista a Património Mundial da UNESCO, torna-se urgente avançar na valorização das heranças culturais e patrimoniais de âmbito local, intervindo diretamente, com medidas de salvaguarda e de conservação, dos bens que se encontram em risco.


Exigem-se, portanto, políticas e ações concretas, apostando no trabalho em rede, na criação de parcerias institucionais, entre o público e o privado, reforçando a importância do património e da sua valorização e envolvendo a comunidade. Este fator é absolutamente fundamental, na medida em que se torna imprescindível que os cidadãos reconheçam, protejam e promovam os legados culturais, propondo a sua reabilitação e posterior fruição pública, através de um permanente diálogo com as diferentes tutelas.


Não podemos ficar indiferentes à degradação dos espaços e monumentos que fazem parte de uma herança cultural que é de todos, mas que implica a responsabilidade de todos, através da promoção de ações elementares e quotidianas de acompanhamento e monitorização.

Torna-se por isso necessário desenvolver ações que demonstrem cabalmente um discurso e uma prática global e coerente sobre o património em sentido lato e transversal[5], envolvendo e estimulando a participação cívica.


Esta iniciativa de valorização de um edifício em concreto só fará sentido no âmbito de um plano estratégico mais vasto, que inclua outros monumentos calipolenses e a reabilitação do património imaterial em risco e que permita a criação ou integração em rotas temáticas sobre as pinturas a fresco ou os azulejos, a título de exemplo, acrescentando valor, qualidade e escala.



A Ermida de Nossa Senhora do Paraíso


A Ermida de Nossa Senhora do Paraíso foi construída no ano de 1690, pelo Padre Dr. Manuel Rodrigues Rebelo e está localizada a nordeste de Vila Viçosa, pelo caminho do antigo Convento dos Capuchos, a cerca de um quilómetro e meio e junto do Porto de Elvas, num local muito pitoresco, antigamente inóspito e cercado por estevais e altas fragas de xisto.


A Ermida olha a oriente e precede-a um arco ou alpendre sobre o qual está um campanário. A data de 1690 foi descoberta a 6 de Agosto de 1889, quando o proprietário Padre Joaquim Espanca ali se deslocou para verificar as obras que decorriam a cargo do alvenéu João da Conceição Paixão, que lhe deu a notícia de a ter encontrado junto da cruz que rematava o campanário, envolta em musgo.


Trata-se de um edifício de exíguas dimensões[6], mas bem proporcionadas.


A zona envolvente à Ermida do Paraíso está apertada entre dois outeiros de grandes escarpas de xisto e por esse motivo, dizia o Padre Espanca que aqui “anoitecia mais cedo do que na vila[7]. A zona tem uma cenografia muito particular, que diferente bastante das características morfológicas do restante contexto concelhio de Vila Viçosa.


O local, designado como Penedos do Paraíso, era já conhecido e descrito na centúria anterior e estava integrado no colmeal da Cova dos Monges, onde viveram os anacoretas, tal como acontecia na primitiva Tapada Ducal de Vila Viçosa, nomeadamente junto das Ermidas de São Jerónimo e de Santo Eustáquio. O colmeal tinha sido formado antes de 1640, pelo capitão de Ordenanças da vila, Baltazar Rodrigues de Lemos.


A propriedade já se designava como “Paraíso”, pelo menos desde o século anterior, conforme o Padre Joaquim Espanca teve oportunidade de constatar numa escritura do Tombo da Misericórdia[8].


Nas suas imediações encontra-se a ribeira do Beiçudo e o arruinado e poético pontão de grossa alvenaria, recoberto hoje de plantas silvestres. Este ribeiro corre encanado na vila, através do Rossio de São Paulo e depois dividido, na cerca do Convento dos Capuchos, por este e pelo que se desenvolve através do Pinhal de Cristóvão de Morais ou Del-Rei, comprado pelo Duque D. Teodósio II para a Casa de Bragança.


A fonte vizinha[9], já destruída, também chamada do Paraíso, era antiga e pertencia ao concelho de Vila Viçosa, que a reparou várias vezes, incluindo a grande obra determinada por um acórdão municipal de 24 de Julho de 1720[10].


A Ermida propriamente dita estava situada na Herdade das Cercas e pertenceu ao património do cronista calipolense Padre Joaquim Espanca até à sua morte (1896). Este religioso foi o responsável pelas obras de conservação e valorização que decorreram no ano de 1889. O proprietário tinha feito um esforço no sentido de conservar a Igrejinha e o seu eremitério, porque no seu entender, “não podia o Governo central vender ou desamortizar o que ali estava por não ser público ou nacional”[11].


O padroeiro e senhor do colmeal do século XIX, por não ser rico, não podia beneficiá-la conforme desejava, mas esperava conservá-la sem ruína e transmiti-la assim aos vindouros. Infelizmente, essa vontade do padre Joaquim Espanca não foi cumprida e o conjunto patrimonial está hoje ao abandono e em avançado estado de degradação.


Relativamente ao edifício, trata-se de um exemplar interessante e puro de arquitetura rústica alentejana, de alvenaria anteriormente enobrecida no interior, por cerâmica azulejar, pinturas murais e obra de talha do estilo barroco de certa sumptuosidade.


Cúpula de meia laranja, com a representação de pinturas a fresco do século XVII.

Os alçados das linhas retangulares eram sóbrios e discretos e conservavam vestígios de composição primitiva, escaiolada. O portal de mármore, entretanto desaparecido, era adintelado e tinha a seguinte legenda latina:


PARADISI, PORTAE E PER TE NOBIS APERTAE SVNT

("Os portões do Céu foram abertos para nós através de ti")

[Parte II >]


[1] LAPÃO, Manuel, Para Além do Paraíso, contributo para uma candidatura de Vila Viçosa a património mundial da humanidade, Câmara Municipal de Vila Viçosa, 2004, p. 47

[2] LUND, Christopher, O parnaso de Vila Viçosa : leitura do texto, introdução, notas e índices, Rio de Janeiro : H.P. Comunicação Editora, 2003

[3] LAPÃO, Manuel, Para Além do Paraíso, contributo para uma candidatura de Vila Viçosa a património mundial da humanidade, Câmara Municipal de Vila Viçosa, 2004, p. 47

[4] Ibidem

[5] LAPÃO, Manuel, Para Além do Paraíso, contributo para uma candidatura de Vila Viçosa a património mundial da humanidade, Câmara Municipal de Vila Viçosa, 2004, p.33

[6] Trata-se da mais pequena ermida de Vila Viçosa.

[7] ESPANCA, Joaquim José da Rocha, Memórias de Vila Viçosa, Cadernos Culturais de Vila Viçosa, Câmara Municipal de Vila Viçosa, 1985 (1º edição 1885), p. 74.

[8] Idem, p. 73.

[9] Estava localizada nas imediações da Ermida, junto à ponte, derivando da ribeira do Beiçudo. A fonte secava, quando secava também o curso de água, segundo o Padre Espanca.

[10] Assim consta da Vereação de 24 de Julho de 1720.

[11] ESPANCA, Joaquim José da Rocha, Memórias de Vila Viçosa, Cadernos Culturais de Vila Viçosa, Câmara Municipal de Vila Viçosa, 1985 (1º edição 1885), p. 75.

Os autores utilizam o Acordo Ortográfico.


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