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Dia Internacional dos Museus sob o signo da sustentabilidade e do bem-estar



Clara Frayão Camacho*


Há quase meio século que no dia 18 de maio se comemora o Dia Internacional dos Museus. Introduzido pelo ICOM em 1977, foi ganhando a adesão dos museus de todo o mundo, encarado como uma ocasião festiva de sensibilização da sociedade civil para o papel dos museus, que abrem portas, regra geral de modo gratuito e com programação especial. Em Portugal é sobretudo a partir dos anos 1990 que esta data passa a ser comemorada de forma alargada, seguindo anualmente as propostas temáticas apresentadas pelo Conselho Internacional dos Museus.


Neste 18 de maio, o mote é o da sustentabilidade e do bem-estar, prosseguindo um caminho iniciado pelo ICOM em 2020, ao concentrar a atenção, em cada ano, num conjunto de metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. Em 2023, o foco é em três destas metas: saúde e bem-estar (objetivo 3), ação climática (objetivo 13) e vida na Terra (objetivo 15).


Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável decorrem da Resolução da Organização das Nações Unidas, intitulada “Transformar o nosso mundo: Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, aprovada em 2015 pelos 193 Estados-membros da ONU. Trata-se de uma agenda com uma dimensão universal, expectavelmente a implementar por todos os países, que assenta em 17 ODS e 169 metas e pressupõe a sua integração nas políticas, processos e ações desenvolvidos nos planos nacional, regional e global. Os ODS incidem sobre “questões globais”, ou “desafios globais”, que se crê só poderem ser resolvidos pelo esforço coletivo dos países num mundo cada vez mais interconectado. São muitas e variadas as questões globais mais prementes da atualidade, que abrangem, entre outras, as dimensões da democracia, a desigualdade social, as migrações, a emergência climática, a perda da biodiversidade e as tecnologias digitais.


São palavras e expressões que estão na ordem do dia e que em muitos casos se transformaram em moda. Numa crónica neste mesmo espaço, em outubro do ano passado, Lino Tavares Dias explorava precisamente a moda das palavras e a antiguidade das práticas, questionando o extensivo uso da palavra sustentabilidade e dando exemplos de práticas passadas que exemplificavam preocupações com a sustentabilidade dos territórios.


Em 2022 a palavra sustentabilidade entrou no conceito de museu. A definição aprovada na Assembleia Geral do ICOM em Praga, depois de um largo debate, introduziu ainda outros novos termos: acessibilidade, inclusão, diversidade, participação, comunidades e partilha. E se o museu continua a ser uma “instituição permanente, sem fins lucrativos e ao serviço da sociedade”, já não visa, contudo, o desenvolvimento desta mesma sociedade, essa finalidade utópica, franqueada pela Mesa-Redonda de Santiago do Chile em 1972 e transposta para a definição oficial do ICOM no ano seguinte, que se manteve no enunciado durante meio século.


Nos textos de apoio às comemorações deste Dia Internacional dos Museus, o ICOM assume que os museus dão um contributo essencial para o bem-estar e o desenvolvimento sustentável das comunidades e podem concorrer para alcançar os ODS, apoiando a ação climática, promovendo a inclusão, combatendo o isolamento social ou melhorando a saúde mental. Todas estas assunções correspondem a evidências comprovadas pela investigação. Sabemos hoje que efetivamente os museus têm contribuído para o bem-estar das pessoas, a inclusão dos grupos sociais e a coesão das comunidades.


Como reagem os museus portugueses a estas propostas do ICOM? Que ofertas apresentam nas suas agendas para lidar com estes relevantes desafios? Que leitura podemos fazer das comemorações do Dia Internacional dos Museus no plano geral das preocupações destas instituições com a sustentabilidade e a promoção do bem-estar?


Como exercício prático, verifiquei que atividades estão presentes na oferta do 18 de maio de 2023, em consonância com os temas recomendados pelo ICOM. A base de recolha da informação é o programa disponibilizado online pela DGPC, que abrange os museus da Rede Portuguesa de Museus (RPM), ou seja, o menu de 442 atividades, acedido no dia 13 de maio, data da redação desta crónica.


A primeira constatação é que apenas cerca de 10% destas atividades correspondem a abordagens específicas nos campos da sustentabilidade e do bem-estar, na aceção proposta pelo ICOM, que delimitou estes conceitos aos campos da saúde e do bem-estar, sobretudo no que toca à saúde mental e aos contributos para amenizar o isolamento social; ao combate às alterações climáticas; e à utilização sustentável dos ecossistemas terrestres. Na realidade, a maioria dos museus oferece visitas guiadas, orientadas ou encenadas às suas exposições permanentes e temporárias, espetáculos, concertos, oficinas, jogos, conferências e conversas em torno das suas coleções, na senda do que é a sua programação habitual, embora em mais quantidade e variedade. Esta programação beneficia dos canais de divulgação associados ao Dia Internacional dos Museus, sejam os da DGPC, sejam os da newsletter “porto dos museus”, que também publica anualmente a programação de um vasto conjunto de museus, capitalizados ainda pelo interesse da comunicação social por esta data comemorativa.


Relativamente às cerca de 40 atividades promovidas pelos museus da RPM e direcionadas para as propostas do ICOM, o tema que concita maior oferta programática é o da vida na Terra. Visitas e passeios exploram, entre outros tópicos, a biodiversidade na Fábrica da Pólvora de Vale de Milhaços (Ecomuseu Municipal do Seixal), as praças, os jardins e a água em Lisboa (Museu Nacional de História Natural e da Ciência e Museu da Água), a geodiversidade em Mação (Museu de Arte Pré-histórica e do Sagrado no Vale do Tejo) ou os cheiros no Parque do Monteiro Mor (Museu Nacional do Traje). Oficinas ensinam os segredos da cosmética natural (bio) e sustentável (Museu Municipal de Vila do Conde), a reutilização de fragmentos de azulejo (Museu Nacional do Azulejo), a reciclagem (Museu Municipal de Ferreira do Alentejo) ou uma horta comunitária (Casa-Museu Fernando de Castro, Museu Nacional Soares dos Reis). Palestras e conversas abordam a contribuição dos museus para a sensibilização das comunidades para a sustentabilidade social e ambiental (Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo) ou a sustentabilidade na conservação (Museu de Conímbriga).


A saúde, o bem-estar global, a saúde mental e o isolamento social motivam, por exemplo, o jogo “O que é velho não é para descartar” (Museu Municipal de Penafiel), a sessão de mindfulness no Jardim Botânico de Lisboa (Museu Nacional de História Natural e da Ciência), a conversa “Compromisso, gratidão e futuro” (Ecomuseu do Barroso), o workshop de musicoterapia e arteterapia (Museu Nacional de Etnologia) ou o espetáculo “Há vozes no Palácio” (Palácio Nacional da Ajuda).


A ação climática é o tema que estimula menos programação diretamente inspirada em preocupações de emergência climática. Entre as exceções contam-se o “Observatório dos rios”, uma coprodução do Teatro Nacional Dona Maria II e da Fundação Calouste Gulbenkian, no Museu Municipal de Ourém, ou o workshop “Cartas de Amor a um Rio” (Museu Nacional de Etnologia).


Este percurso pelo programa de atividades dos Museus da RPM constantes da agenda da DGPC a propósito do 18 de maio de 2023, suscita-me alguns comentários. Embora consciente de que outras atividades foram realizadas fora deste universo, ainda assim a primeira nota é a de que as questões da emergência climática parecem não ter ainda encontrado generalizado eco nos museus portugueses e que a transposição deste tema para uma programação dirigida aos mais variados públicos está longe de ser expressiva. O segundo comentário diz respeito às tipologias dos museus mais ativos na consciencialização da sustentabilidade e da sua introdução na programação. A par de uma mão cheia de Museus Nacionais, é sobretudo em museus municipais que se encontra maior agilidade, diversidade e capacidade para responder a estes desafios. Finalmente, apraz registar que os exemplos respigados evidenciam criatividade, imaginação, rentabilização de recursos e capacidade de trabalhar em parceria.


É evidente que desta breve análise de uma programação comemorativa não se podem tirar conclusões sobre o posicionamento e a atuação dos museus portugueses, e em particular os da RPM, no campo da sustentabilidade. Não é este também o contexto para traçar um historial do que têm sido a reflexão e as práticas em torno deste tema nos últimos anos. Se fosse esse o caso, teria pelo menos de recuar até 2011 e ao encontro sobre museus e sustentabilidade financeira, promovido pelo ICOM Portugal no Museu Nacional Soares dos Reis, em que Graça Filipe apresentou o inspirador texto “O Poder dos Museus: Refletindo sobre as Missões e a Sustentabilidade dos Museus, em Teoria e na Prática.”


Na atualidade, o enquadramento das tutelas determina orientações que, por exemplo, no caso dos museus municipais entroncam na plataforma ODS local - Plataforma Municipal dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, para a qual os museus concorrem, a par das outras organizações municipais. Ainda assim, da observação da atuação dos museus no espaço público, parece haver um longo caminho de sensibilização para a integração das questões levantadas pelos ODS no planeamento e na gestão dos museus em Portugal.

Coincidentemente, em vésperas deste Dia Internacional dos Museus, o Ibermuseus (programa de cooperação intergovernamental para os museus do espaço ibero-americano), divulgou o Guia de Autoavaliação em Sustentabilidade para Museus. Trata-se de uma ferramenta disponível em português e espanhol, que pode ser utilizada online de maneira autónoma. Integra 55 indicadores, distribuídos pelas funções museológicas da educação, conservação, comunicação e investigação, a par da função da gestão. É certo que existe neste âmbito temático uma significativa bibliografia referencial, sobretudo em língua inglesa, em que se destaca a publicação Museums and the Sustainable Development Goals, utilizada por muitos museus. De forma complementar, julgo que este guia ibero-americano pode ser um auxiliar poderoso para a sensibilização dos museus portugueses para as questões da sustentabilidade e para uma atuação prática nos diferentes domínios suscitados pelos ODS e suas metas.


*a autora utiliza o novo acordo ortográfico.


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