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Cicatrizes invisivelmente presentes



Há poucos dias conversava com uma amiga sobre uma imagem guardada no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico que mostra as obras de abertura da Avenida Infante Santo em Lisboa. Na imagem é visível, ainda intacto, o troço do Aqueduto das Águas Livres que teve que ser derrubado para que a avenida surgisse. Quem por lá passa hoje em dia, não o sabendo, nem sequer desconfia. Mas aquela zona da cidade, como tantas outras, já foi outra coisa, sofreu uma transformação, recuperou e hoje a cicatriz antiga é invisível para quem não a conhece nem a procura, como a minha amiga.


Álvaro Salvação Barreto em visita às obras de abertura da Av. Infante Santo / Arquivo Municipal de Lisboa

Nas suas centenas de milhares de imagens, o Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico guarda a memória dos processos de transformação da cidade. As suas imagens ajudam-nos a descobrir tantas destas cicatrizes, resultado de intervenções urbanísticas melhor ou pior planeadas, com objetivos e resultados variados, muitas delas tão perfeitamente disfarçadas que quase nem deixaram marcas na cidade de hoje. No entanto, quanta riqueza fica nestas histórias por contar…


Esta reflexão vem a propósito do que todos vivemos neste último ano e meio, que também não é visivelmente percetível (a não ser talvez nalguns quilos a mais…). Interiormente, no entanto, todos estamos transformados, mais conscientes das nossas fragilidades e das nossas forças, depois de nos submetermos a um isolamento social e cultural que só não foi mais traumático porque aconteceu numa era tecnologicamente tão avançada.


Também os serviços educativos passaram por um processo semelhante: depois do choque inicial e da sensação de navegar em águas desconhecidas, veio a reação corajosa com momentos de aprendizagem intensa e transformadora.


Hoje, de regresso a uma quase normalidade nos nossos dias, mais máscara menos máscara, mais álcool gel, menos álcool gel, com as escolas e os museus abertos, atividades e visitas a decorrer, pode até parecer que nada mudou, que fomos sempre assim. Mas internamente, há cicatrizes invisíveis ainda dolorosamente presentes. Sentimos uma maior urgência na nossa missão, uma convicção da importância do trabalho que desenvolvemos na construção de uma sociedade formada por indivíduos capazes, criativos e empenhados, conscientes do seu papel. Olhamos para as atividades que planeámos anteriormente, questionamos o seu sentido, a sua pertinência neste momento e refazemos, reordenando prioridades e reformulando objetivos.


Que a invisibilidade das cicatrizes que trazemos connosco depois deste ano não nos permita esquecer o que vivemos e nos traga a possibilidade de uma reconstrução conjunta.

A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


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