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A Acesso Cultura


Inicia-se este mês uma feliz colaboração entre a SPIRA/Patrimonio.pt e a Acesso Cultura. Duas entidades empenhadas, cada uma à sua maneira, em criar acesso – físico, social, intelectual – ao património. Neste canto do Patrimonio.pt, os leitores irão encontrar todos os meses um texto que aborde uma das múltiplas temáticas relacionadas com as formas de pensar, estudar, preservar e tornar conhecida e acessível a herança material ou imaterial da qual procuramos cuidar hoje e deixaremos a gerações futuras.

A Acesso Cultura é uma associação cultural criada em 2013 cuja missão é a promoção do acesso – físico, social, intelectual – à participação cultural. É composta por 131 membros activos, profissionais do sector cultural, entidades culturais e pessoas em geral interessadas em apoiar a sua missão.

Umas das nossas principais actividades é a realização de cursos de formação, destinadas principalmente, mas não exclusivamente, a quem trabalha no sector cultural. Cursos de formação que abordam o acesso de forma diversa: desde o que pode parecer mais óbvio e imediato (temáticas relacionadas com as pessoas com deficiência ou com necessidades específicas: “Acessibilidade: uma visão integrada”, “Atendimento a pessoas com necessidades especiais”, “Planos de emergência e deslocação de pessoas com necessidades especiais”), às formas de criar acesso à distância e desde o primeiro contacto com o visitante (“Marketing Digital”, “Websites e documentos digitais acessíveis) e a questões técnicas muito específicas do nosso trabalho diário (“Comunicação acessível: design de comunicação e linguagem clara”, “Direito de autor e domínio público”, “Acolhimento e fidelização”, “Serviços educativos: pontes de acesso”).

Todos os anos procuramos introduzir temáticas novas, atentos aos comentários e sugestões das pessoas que frequentam os nossos cursos e que acompanham o nosso trabalho. Em 2019, o nosso novo curso chama-se “A (in)visibilidade da população LGBTI” e vem no seguimento da conferência "E este património? A presença LGBT no Ano Europeu do Património Cultural", realizada em 2018. Na altura que foi anunciado o tema da conferência, alguns colegas questionaram o que é que havia para discutir, se este não era um tema mais que presente e até mais que resolvido. Quem participou na conferência descobriu que pode, realmente, ser um tema mais que presente, mas que está longe de estar resolvido e que o nosso desconhecimento é grande. Nas palavras de alguns dos participantes:

“Pensei que estava dentro do tema, afinal sabia muito pouco... O que levo de mais importante é essa consciência do caminho que ainda tem de ser trilhado.”

“A noção da invisibilidade do sofrimento de uma larga maioria (quem sabe do desafio da afirmação da identidade do outro?), que é transversal na sociedade e perpetuada pelos agentes e instituições culturais.”

“Gostei de ouvir os relatos de experiências pessoais sem qualquer tipo de pudor. De ter tido consciência de como as pessoas trans se sentem realmente discriminadas e da enorme diversidade que existe quando falamos nestas questões. Gostei também de ter existido algum debate em torno dos fluxos de poder e da sub-representação destas minorias em determinados circuitos.”

Esperamos, por isso, que mais colegas venham agora assistir a este curso (Lisboa, 18 de Fevereiro | Porto, 25 de Março), para podermos ficar mais conscientes das questões que persistem e que, às vezes, nós próprios ajudamos a perpetuar.

Em 2019 há mais uma novidade, os seminários, focando temas específicos que vamos poder explorar com a ajuda de colegas disponíveis para partilhar a sua reflexão e experiência. No primeiro semestre do ano abordaremos temas como as práticas artísticas e a participação no Brasil (Porto, 31 de Janeiro), a presença negra na cultura em Portugal (Lisboa, 11 de Fevereiro), a descolonização dos museus (Lisboa, 22 de Março) e as narrativas LGBT em museus portugueses (8 de Maio).

A Acesso Cultura organiza ainda quatro debates públicos ao longo de cada ano, para podermos reflectir em conjunto sobre questões ligadas ao acesso e que têm um impacto no nosso trabalho e na nossa relação com pessoas com variados perfis. Iniciados em 2013 em Lisboa e passando em 2014 para o Porto, os debates organizam-se no mesmo dia e hora também em Évora, Funchal, V.N. Famalicão, uma cidade algarvia e, a partir deste ano, em Castelo Branco. Os debates realizam-se graças à ajuda dos colegas no terreno, associados e não associados da Acesso Cultura.

A conferência anual, realizada em Outubro, é um dos momentos altos do nosso ano, um momento para estarmos juntos com muitos colegas, discutirmos os desafios que enfrentamos, sermos inspirados, questionarmos as nossas práticas, sairmos um pouco diferentes do que quando entrámos.

Estas actividades são complementadas com diversos trabalhos de consultoria e estudos, que permitem trabalhar com maior proximidade com certas entidades culturais, ajudando a identificar barreiras e procurar soluções para as mesmas. Já foram realizados diagnósticos de acessibilidade para o Centro Cultural de Belém, a Casa Fernando Pessoa, o Museu Nacional Ferroviário ou o LU.CA – Teatro Luís de Camões; trabalhamos na implementação da linguagem clara na exposição “Racismo e Cidadania” do Padrão dos Descobrimentos ou no Centro de Interpretação do Românico; realizámos uma avaliação qualitativa de algumas iniciativas apresentadas pelo Teatro Maria Matos; editámos publicações como “Participação: partilhando a responsabilidade” (2016) ou “A inclusão de migrantes e refugiados: o papel das organizações culturais” (2017).

Deixamos dois projectos muito especiais para o fim:

Em 2017, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, realizámos as jornadas “Além do Físico: Barreiras à Participação Cultural” em todas as Comunidades Intermunicipais do país e duas nas Regiões Autónomas. Graças à contínua promoção da acessibilidade e da legislação em vigor, os profissionais do sector cultural têm maior consciência da existência de barreiras físicas no acesso aos espaços culturais. No entanto, e para além da legislação não estar a ser aplicada, é certo também que a reflexão sobre o acesso não vai muito além da questão física e, no caso desta, da necessidade de haver rampas e casas de banho adaptadas. Num sector que se habituou a pensar e a afirmar que em Portugal não existe interesse pela cultura ou que os portugueses são pouco cultos, era urgente que os agentes culturais passassem a ter uma visão mais holística do que constitui ‘acesso’ e tivessem consciência das barreiras – físicas, sociais e intelectuais – que muitas vezes são eles próprios a criar no acesso à cultura. O relatório desse périplo encontra-se disponível no nosso website.

No final de Setembro de 2018, demos mais um passo no sentido de contribuir para a promoção do acesso à cultura: com o apoio da Fundação Millennium BCP, criámos o website Cultura Acessível, através do qual pretendemos facilitar o acesso do público à informação sobre programação cultural acessível. Ao mesmo tempo, queremos dar maior visibilidade ao esforço de algumas entidades culturais em Portugal para tornar a sua oferta acessível a pessoas com diferentes necessidades e perfis. E esperamos que isto possa ser uma inspiração para outras.

O caminho tem sido longo e há muito ainda por fazer. A Acesso Cultura valoriza o acesso e esforça-se para o garantir, assim como para garantir a pluralidade de expressões culturais, de formas de pensar e de fazer. Fazemo-lo porque consideramos que a participação activa dos cidadãos é uma das formas através das quais poderemos contribuir para a criação de um mundo melhor. Isto não acontecerá se apenas algumas pessoas tiverem condições e poder para decidir o que é cultura, quem a faz, qual é a cultura que se deve apoiar. A cultura decidida apenas por alguns não é necessariamente, não é com certeza, relevante para todos.

Um outro aspecto importante é que a falta de representatividade e de visibilidade de certas pessoas faz com que o seu mundo se torne mais pequeno, mais fechado. Não podem imaginar o seu futuro, o seu lugar no mundo, de uma forma arrojada e desafiadora. A sua invisibilidade tem também o efeito contrário de fazer outras pessoas pensar que o mundo é apenas aquele que elas conhecem, um mundo de pessoas parecidas com elas e que pensam como elas. Ou seja, acabamos por ficar todos mais pobres.

Trabalhamos para criar condições de acesso ao conhecimento, à cultura, à participação; para que haja lugar para a diversidade, para que existam lugares de encontro que permitam conhecer o “Outro”, ver o mundo também através dos seus olhos e não ter medo dele sem o conhecer. Numa altura em que a razão é desvalorizada, em que os fake news são consumidos com agrado e sem questionamento, em que procuramos viver no conforto das nossas bolhas, a Acesso Cultura sonha com um mundo maior, mais diverso e mais rico. Um mundo onde a diferença será mainstream.

Maria Vlachou é sócia fundadora e directora executiva da Acesso Cultura. Consultora em Gestão e Comunicação Cultural. Autora do blog Musing on Culture. Maria Vlachou é sócia fundadora e directora executiva da Acesso Cultura. Consultora em Gestão e Comunicação Cultural. Autora do blog Musing on Culture.


BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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