top of page

“Sinta-se em Casa” - Sessões Descontraídas na Casa Fernando Pessoa

  • 11 de jul. de 2023
  • 6 min de leitura

Atualizado: 20 de jul. de 2023


Clara Riso*


Usamos a expressão “Sinta-se em Casa!” sempre que queremos destacar o ambiente de hospitalidade que desejamos proporcionar a quem visita a Casa Fernando Pessoa. É um dos jogos de linguagem que nos são permitidos por trabalharmos num museu que tem a palavra Casa no nome.


Usámo-la quando a Casa Fernando Pessoa reabriu em agosto de 2020, depois de obras de requalificação que visaram tornar os espaços e a exposição mais acessíveis e acolhedores.


Quando no final de 2021 começámos a preparar o lançamento das Sessões Descontraídas na Casa Fernando Pessoa, tínhamos a intenção de tornar a visita ao museu uma experiência tranquila, segura, agradável e amigável para algumas pessoas que muito frequentemente se sentem desconfortáveis nos espaços culturais. Há certos “protocolos” que vigoram, de forma latente, nos museus: não se faz barulho, não se fala alto, não se corre, não se mexe…


Conhecíamos as Sessões Descontraídas nos espetáculos de dança e teatro, ou seja, no campo das artes performativas. Sabíamos que nessas sessões era previsível que houvesse interrupções, ruído, movimentações na sala por parte do público. E o público sabia que não seria alvo de olhares recriminatórios nem dos habituais “shhhhiu” que tanto constrangem.


As pessoas que não ficam fácil e voluntariamente silenciosas, quietas, atentas durante um intervalo de tempo longo, num espaço que não lhes é familiar, entre pessoas desconhecidas, podem, nas Sessões Descontraídas, sentir-se à vontade para fruir tranquilamente da experiência. São bem-recebidas e, como consequência, ficam mais descontraídas. Tal como quem os acompanha, família ou pessoas amigas.

Não sabíamos bem como trazer o conceito – e a prática – das Sessões Descontraídas para o museu. Como poderíamos adaptar os espaços e a exposição para preparar um ambiente seguro, desejável para receber visitas destes públicos.


Começámos por fazer formação com a APPDA-Lisboa, Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo (Inês Neto), e com a Acesso Cultura (Maria Vlachou). Nesta formação pudemos perceber melhor a que públicos se destinam as Sessões Descontraídas, que tipo de estímulos devemos ter em atenção, que comportamentos e reações devemos esperar, que situações de crise devemos antever.

A APPDA e a Acesso Cultura elaboraram um relatório para preparação das Sessões Descontraídas na Casa Fernando Pessoa, do qual constam 1) informações a incluir da História Visual, documento de que falaremos de seguida; 2) notas para divulgação das Sessões ao público; 3) orientações para a equipa da Casa Fernando Pessoa, detalhando pontos e aspetos concretos a ter em conta em cada piso da exposição; 4) sugestões.

Considerando estes elementos, pudemos então preparar os espaços, os materiais e a equipa para começar a fazer as sessões, e desenhar os materiais de comunicação para anunciar a existência do programa.

Foram elaborados documentos, disponibilizados online, para consulta anterior à vinda à Casa Fernando Pessoa para a Sessão Descontraída.


A História Visual é um documento essencial para conhecer os espaços antes de iniciar a visita. É composto por fotografias acompanhadas de texto breve e claro sobre entrada e circulação no museu, interação com a equipa, espaços e elementos que vão encontrar na exposição. É este documento que permite evitar situações de perturbação que o desconhecimento do espaço e dos ambientes poderia causar. Conhecendo previamente a História Visual, os visitantes vêm predispostos para o que vão encontrar, o que torna a visita mais controlada e tranquila. A História Visual está disponível no site da Casa Fernando Pessoa, português e inglês.



Igualmente disponível online está o Guião Pictográfico, documento que apresenta o museu e a exposição através de imagens e de frases curtas e objetivas. Foi uma sugestão deixada pela APPDA e pela Acesso Cultura no relatório que elaboraram, por ser considerado um importante elemento de apoio à visita. Foi elaborado por Célia Sousa / Centro de Recursos para a Inclusão Digital – CRID, Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria.



Decidimos fazer a primeira Sessão Descontraída na Casa Fernando Pessoa no dia 18 de maio de 2022, Dia Internacional dos Museus. Nesse ano, o tema proposto pelo ICOM (International Council of Museums) foi “O Poder dos Museus” e incluía a seguinte afirmação: “O Poder dos Museus reside na capacidade de garantir espaços inclusivos, de diálogo e promoção de cidadania ativa, mas também espaços de bem-estar e deleite.”.

Desde essa data, fazemos uma manhã, bimestral, de Sessão Descontraída na Casa Fernando Pessoa. Entre as 10h e as 13h de um sábado, a cada dois meses, os espaços da exposição e a equipa de mediação estão preparados para receber quem sinta que, ao abrigo deste programa, pode ter uma experiência de visita ao museu mais de acordo com a sua expectativa, com o seu perfil, com o seu gosto. Ao chegar à Casa Fernando Pessoa, os visitantes vão encontrar a Casa especialmente preparada para os receber.

Na exposição a luz é ajustada: é aumentada ligeiramente em zonas mais escuras e pode ser temporariamente diminuída ou desligada, se necessário, em zonas onde é mais forte, como nos patamares das escadas entre pisos.


O som é também adaptado: em vários espaços há instalações sonoras que fazem parte da museografia cujo volume, nestas ocasiões, é reduzido.


Os elementos da equipa da mediação vestem, nessa manhã, um colete fluorescente para serem mais facilmente identificados pelos visitantes. A equipa recebeu formação sobre o modo adequado para comunicar com os visitantes e como atuar em situação de crise.


A lotação é controlada: não estarão mais de dez pessoas por piso simultaneamente.

São preparados dois espaços de conforto, um no Piso 3 e outro no Piso 0, para o caso de as pessoas sentirem necessidade de se recolher durante algum tempo num local que seja tranquilizador. Nestas salas, estão puffs para sentar, almofadas e alguns jogos manuais para ajudar a acalmar.


Quanto à divulgação do programa, recupero aqui a sinopse de apresentação: “as Sessões Descontraídas destinam-se a todos os indivíduos e famílias que preferem ou beneficiam de um ambiente mais descontraído num espaço cultural, reduzindo os níveis de ansiedade e tornando a experiência mais agradável. Por exemplo, pessoas com perturbação do espectro do autismo (PEA); pessoas com dificuldade intelectual e de desenvolvimento; crianças com perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA); pessoas com síndrome de Down; pessoas com síndrome de Tourette; seniores em estados iniciais de demência; pessoas com deficiências sensoriais, sociais ou de comunicação; famílias com crianças pequenas”.


Na verdade, temos tido alguma dificuldade em apresentar as Sessões Descontraídas. Neste, como em todos os programas com recursos específicos de acessibilidade, optamos por promover a participação de públicos mistos, em vez de fazer programas exclusivos para públicos com e sem necessidades específicas. Assim, a participação nas Sessões Descontraídas na Casa Fernando Pessoa está aberta a qualquer visitante. No entanto, sentimos necessidade de enumerar exemplos de públicos específicos aos quais as sessões se destinam em primeiro lugar, pois há ainda muitas pessoas que não sabem o que são as Sessões Descontraídas. Recebemos contactos de pessoas que nos perguntam de que se trata exatamente e, se desconhecem o conceito, presumem que Sessões Descontraídas são programas de jogo e brincadeira para crianças. Outras pessoas, nomeadamente alguns pais, estão já familiarizadas com o termo e fazem então questões sobre materiais de apoio e condições de visita.


Continuamos assim a procurar uma fórmula eficaz para divulgar o programa para que, por um lado, não crie equívocos sobre o que o visitante vai encontrar, mas que, por outro lado, não restrinja a participação de público ao fazer uma listagem – longa mas necessariamente restrita – de beneficiários das Sessões.

Já passou mais de um ano desde que iniciámos as Sessões Descontraídas na Casa Fernando Pessoa. Creio que somos dos poucos museus em Portugal a fazê-lo. Este ano, para o Dia Internacional dos Museus, fizemos um programa dedicado ao tema Literatura, Arte e Saúde Mental. No dia 18 de maio, dia de entrada livre, recebemos um grupo do Elo Social para a Sessão Descontraída, que nos deixou algumas sugestões de melhoria.


Temos intenção de preparar uma visita orientada à exposição, ou uma oficina relacionada com Fernando Pessoa e poesia, em formato de sessão descontraída. Pensamos implementá-la quando a equipa sentir que já ganhou a experiência necessária para tal. É provável – e desejável! – que no próximo ano possamos anunciar um novo programa, levando mais longe a prática das Sessões Descontraídas na Casa Fernando Pessoa, Museu de Literatura.


2022 ©José Frade


_____________________________________________________________________________________


*Clara Riso é directora da Casa Fernando Pessoa desde 2014.

A Casa Fernando Pessoa é tutelada pela EGEAC, empresa municipal de gestão cultural de Lisboa.


 
 
 

2 comentários


I am thankful for this amazing article covering Pradhan Mantri Awas Yojana and Kanya Sumangala Yojana. These schemes are very beneficial for poor families and young girls. Housing assistance under PMAY and financial support through Kanya Sumangala bring security and hope. You have explained everything in a clear and organized manner. This information will surely help many people.


Curtir

MCRW YDWB
MCRW YDWB
20 de dez. de 2024
Curtir
bottom of page