BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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Um projecto

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Um mergulho em Colónia de Sacramento


Com uma costa com de 672 km de extensão, dos quais 452 km correspondem ao rio da Prata e 220 km à costa de cariz verdadeiramente oceânico, a República Oriental do Uruguai é um dos mais pequenos países da América do Sul.

Não obstante haver quem sugira terem sido os portugueses os primeiros europeus a avistar o estuário do rio da Prata, o que se sabe é que este rio que separa – e une – a Argentina e o Uruguai terá sido reconhecido logo em 1510.

Durante mais de cento e cinquenta anos, Portugueses e Espanhóis disputam esta zona - com o Brasil português a tentar empurrar a sua fronteira natural para Sul e a Audiência de Buenos Aires do Vice-reinado do Peru a tentar impedir o acesso dos Portugueses às vias da prata.

A 28 de Janeiro de 1679, Manuel Lobo, Governador do Rio de Janeiro, escava defronte à ilha de São Gabriel, os alicerces da Fortaleza do Santíssimo Sacramento, encetando assim uma colónia lusa em terras austrais e pondo em marcha uma sucessão de ataques, cercos (1680, 1704, 1735,1762, 1777, 1807, 1811, 1816, 1825, 1839-1851), derrotas e vitórias militares e diplomáticas. Sacramento é portuguesa quando em 1822 o Brasil se torna independente de Portugal e permanecerá brasileira até 1828, quando irá integrar o novo país independente resultante da Guerra Cisplatina - o Uruguai.

Atraídos pela prata e pelas oportunidades de enriquecimento que uma zona de fronteira mal vigiada e pior controlada sempre proporciona, embarcações espanholas, portuguesas, inglesas e francesas demandaram aquelas paragens desde praticamente meados do século XVI.

Para muitos destes navios, o seu fim foi ditado pela baixa profundidade do rio e pelos grandes e sempre móveis bancos de areia. Infelizmente, miragens de ouro encadearam muitos mergulhadores do rio da Prata. Muitos destes caçadores de naufrágios escavaram o leito do Prata a eito, descartando tudo o que não luzisse e pilhando e destruindo irreversivelmente dezenas de sítios arqueológicos submersos.

Exemplo paradigmático disso mesmo foi o caso da nau N. Sra. da Luz, perdida em 1752 perto de Montevideu. Alvo de caça ao tesouro entre 1991 e 1993, este navio português foi pilhado de todos os artefactos em ouro, vendidos em leilão. Os naufrágios do Prata - como os da miragem de três navios portugueses alegadamente perdidos com um suposto tesouro jesuíta a bordo - ficaram então sob os holofotes mediáticos.

Esta caça ao tesouro levou a Comisión del Património Histórico a tentar limitar ao interesse público a gestão do património cultural subaquático uruguaio. Mas, se em 2007 o Uruguai impôs uma moratória à exploração comercial de naufrágios históricos, a verdade é que a discussão pública esteve desde sempre capturada pelos interesses dos caçadores de tesouros, pelo brilho mediático do ouro e, especialmente, pela falta de alternativas científicas. Era assim difícil manter a moratória activa, tanto mais que os caçadores de tesouros não hesitaram em recorrer aos tribunais, pedindo – e obtendo! – indemnizações milionárias pela alegada quebra de contractos de concessão de exploração comercial de sítios arqueológicos submersos.

Com a atribuição, em 2015, de uma concessão para o saque do Lord Clive – um navio inglês perdido em combate quando estava integrado numa frota portuguesa – as entidades culturais uruguaias e a Universidad de la Republica pediram oficiosamente ajuda portuguesa.

Desde então, leva-se a cabo um projecto científico que não só oferece uma alternativa bilateral à exploração comercial de naufrágios como também permite aos dois países estudar, valorizar e divulgar o seu património comum. Um exemplo de como falar-se de património cultural português não significa fechar os nossos horizontes dentro de fronteiras. Por vezes, muitas vezes, é necessário atravessar oceanos.

Muitas vezes comparada a Mazagão, temido local de degredo ou empório mercantil onde muitas fortunas se fizeram e desfizeram, pequeno povoado fortificado, onde a rede de tensões quotidianas incluía as dificuldades de relacionamento com minuanos, charruas, guaranis e espanhóis, a Colónia de Sacramento foi um lugar onde o heroísmo, a fidelidade e o sacrifício mas também, a cobardia, a deserção, o desespero e a fome marcaram a vida dos seus habitantes.

Arrasada, mas não apagada da memória das gentes, Colónia do Sacramento escolheu a ter a sua herança portuguesa como factor identitário e diferenciador. Uruguaia, mas europeia; portuguesa, mas ibérica; sul-americana, mas património da Humanidade. Capaz de servir agora como pedra de toque para Portugal e Uruguai cooperem para salvaguardar um recurso finito, frágil e não renovável, que lhes é comum.

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