AutĂȘntico ou falso? Como podem os mĂ©todos laboratoriais ajudar a esclarecer o caso das pinturas da â
- 31 de mar. de 2017
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A exposição hĂĄ pouco inaugurada no Museu Nacional de Arte Antiga sobre a âCidade Globalâ deu visibilidade a dĂșvidas de autenticidade a respeito de duas pinturas e para o seu inequĂvoco esclarecimento estĂĄ em consideração a possibilidade do recurso a estudos laboratoriais. Independentemente dos pormenores, a histĂłria Ă© igual a muitas outras, mas, frequentemente, nĂŁo Ă© do conhecimento geral o que estĂĄ em causa nestes estudos laboratoriais nem, menos ainda, as suas limitaçÔes.
Antes de mais, convém referir que o uso de métodos laboratoriais para o esclarecimento de questÔes de autenticidade só faz sentido quando hå fundadas suspeitas de que uma obra não é aquilo que pretende ser ou que alguns pretendem que seja. Pelo menos de uma forma aprofundada, não faz sentido adoptar-se esse procedimento como rotina, não só devido aos custos envolvidos, mas sobretudo devido ao facto de o aproveitamento da informação resultante não ser tão simples quanto se pode pensar.
AlĂ©m disso, rigorosamente nĂŁo hĂĄ mĂ©todos de detecção de falsos, mas sim mĂ©todos que dĂŁo informaçÔes sobre os materiais ou as tĂ©cnicas empregues e, mesmo no caso dos designados mĂ©todos de datação, limitam o intervalo temporal em que um material pode ter sido usado. Essa informação, como qualquer outra, tem que depois ser interpretada em função das dĂșvidas concretas que suscitaram o estudo â e esta Ă© uma das partes mais difĂceis. Por isso quando nĂŁo hĂĄ dĂșvidas significativas, nĂŁo hĂĄ justificação para um aprofundado estudo laboratorial.
Antes do estudo de autenticidade propriamente dito é indispensåvel perceber-se qual o estado de conservação da obra, sendo especialmente importante distinguir-se o que é original do que não é original. Sendo pouco comum uma pintura antiga não ter sido sujeita a intervençÔes de restauro ao longo dos séculos, é preciso garantir-se que as anålises vão incidir apenas sobre o que é original.
No caso de uma pintura, Ă© ainda fundamental distinguir-se entre o que Ă© verdadeiramente a pintura â a camada cromĂĄtica que Ă© a matĂ©ria da imagem â e o suporte sobre a qual a pintura foi realizada, pois um dos primeiros mandamentos da bĂblia de qualquer aspirante a falsĂĄrio Ă© o uso de suportes antigos cronologicamente compatĂveis com a obra a falsificar. Assim, um suporte de tela ou de madeira do sĂ©culo XVI nĂŁo permite excluir a possibilidade de a pintura ser do sĂ©culo XIX ou XX, ainda que um suporte do sĂ©culo XIX, desde que nĂŁo resulte de um restauro, implique que a pintura nĂŁo Ă© anterior.
A identificação dos materiais Ă© efectuada atravĂ©s do emprego de diversos mĂ©todos de anĂĄlise quĂmica que, na actualidade, muitas vezes podem ser usados de forma nĂŁo invasiva, isto Ă©, realizando as anĂĄlises directamente sobre as obras, sem qualquer recolha de amostra e, por consequĂȘncia, sem qualquer dano. Os materiais em causa sĂŁo sobretudo os constituintes das tintas, ou seja, os pigmentos e os aglutinantes. Os pigmentos sĂŁo as substĂąncias responsĂĄveis pela cor, usadas na forma de pĂł muito fino. TĂȘm um papel muito importante neste tipo de estudos pois tĂȘm variado ao longo da histĂłria: hĂĄ pigmentos regularmente usados sĂł atĂ© uma certa ocasiĂŁo, tendo sido abandonados quando surgiram melhores alternativas (por exemplo, em termos de custos, qualidades Ăłpticas ou toxicidade); hĂĄ pigmentos usados sĂł a partir de determinado momento, nalguns casos sabendo-se com precisĂŁo o ano em que ficaram disponĂveis (como acontece com muitos pigmentos modernos surgidos no sĂ©culo XIX); hĂĄ pigmentos que sĂł tiveram alguma relevĂąncia durante um lapso de tempo relativamente limitado. Quanto aos aglutinantes, como o Ăłleo, a gema de ovo, a goma-arĂĄbica ou resinas sintĂ©ticas sĂł disponĂveis em tempos recentes, tĂȘm a função de unir as partĂculas dos pigmentos e ligĂĄ-las ao suporte. Condicionam decisivamente a forma de usar as tintas e, por isso, estĂŁo na origem da habitual distinção entre pintura a Ăłleo, pintura a tĂȘmpera, pintura acrĂlica, etc.
Quando hĂĄ suspeitas sobre a autenticidade de uma obra, o estudo Ă© orientado para a detecção de materiais, especialmente pigmentos, incompatĂveis com a autenticidade da obra â por exemplo, o uso de branco de titĂąnio, que sĂł Ă© possĂvel a partir do inĂcio do sĂ©culo XX, em vez de branco de chumbo, um pigmento tradicional (tambĂ©m conhecido como alvaiade) que foi empregue em praticamente em todas as pinturas europeias atĂ© ao sĂ©culo XIX. Desta forma muitas falsificaçÔes tĂȘm sido descobertas ou confirmadas, sobretudo falsificaçÔes realizadas no sĂ©culo XIX, numa Ă©poca em que a histĂłria do uso dos pigmentos era praticamente desconhecida. A partir de meados da primeira metade do sĂ©culo XX os falsĂĄrios, pelo menos os mais cuidadosos, passaram a ter em conta essa informação e a situação Ă© mais difĂcil quando podem estar em causa falsificaçÔes recentes. Contudo, as possibilidades analĂticas vĂŁo melhorando muito significativamente, o conhecimento vai avançando e, por isso, tambĂ©m Ă© possĂvel ir mais longe na caracterização dos pigmentos â sendo possĂvel distinguir, por exemplo, um branco de chumbo preparado no sĂ©culo XVI de um branco de chumbo do sĂ©culo XX.
A forma de construir uma pintura, começando na preparação do suporte, passando pelo tipo e caracterĂsticas do desenho e, finalmente, o modo de misturar as tintas e obter determinado efeito pictĂłrico, ou seja, a tĂ©cnica de execução, Ă© algo que tambĂ©m pode ser muito Ăștil nestas circunstĂąncias â ainda que, mais do que numa situação em que hĂĄ dĂșvidas sobre a data, como acontece em muitos casos de autenticidade, seja no caso de dĂșvidas sobre o autor que essa utilidade Ă© maior. Por um lado, hĂĄ certos procedimentos gerais que sĂŁo caracterĂsticos de determinada Ă©poca (por exemplo, a cor e a composição da camada de preparação aplicada sobre o suporte); por outro lado, hĂĄ especificidades que, alĂ©m de condicionadas pela Ă©poca, dependem de cada pintor e, assim, quando hĂĄ seguros dados de referĂȘncia (o que muitas vezes nĂŁo Ă© o caso), permitem abordar questĂ”es de autoria. Estas especificidades sĂŁo mais ou menos o equivalente pictĂłrico da grafia ou da assinatura de cada um. A caracterização da tĂ©cnica de execução Ă© geralmente feita recorrendo quer a mĂ©todos de exame como a radiografia, a reflectografia de infravermelho (especialmente Ăștil para a visualização do desenho subjacente) e a fotografia com luz rasante, quer Ă observação ao microscĂłpio (microscĂłpio Ăłptico e microscĂłpio electrĂłnico de varrimento) de cortes transversais de milimĂ©tricas amostras recolhidas da camada cromĂĄtica (igualmente muito Ășteis para a identificação dos materiais) que mostram a sequĂȘncia de estratos e respectivas caracterĂsticas que estĂŁo na origem de determinado efeito pictĂłrico.
A identificação de materiais e a caracterização das tĂ©cnicas indirectamente permitem obter informaçÔes Ășteis para a datação, ainda que esta geralmente se traduza num largo intervalo cronolĂłgico. No entanto, hĂĄ mĂ©todos directos de datação que, em teoria, podem ser utilizados no caso de uma pintura, como a dendrocronologia (aplicĂĄvel a suportes de madeira) e a datação por radiocarbono ou carbono 14 (aplicĂĄvel a suportes de madeira, tela ou outro material de origem vegetal ou animal). PorĂ©m, independentemente de numa obra recente poder ser usado um suporte antigo, estes mĂ©todos de datação colocam vĂĄrios problemas prĂĄticos no caso de uma pintura. A dendrocronologia sĂł pode ser usada no caso de algumas madeiras (sobretudo carvalho proveniente do BĂĄltico) e, alĂ©m disso, rigorosamente sĂł fornece uma data a partir da qual a madeira pode ter sido usada, nĂŁo se sabendo sequer a data em que a ĂĄrvore foi abatida. Ao contrĂĄrio da ideia corrente, nĂŁo permite dizer qual Ă© a data de uma pintura, mas apenas a data a partir da qual a pintura pode ter sido executada (terminus post quem) â desconhecendo-se a real dimensĂŁo do intervalo que vai de uma data Ă outra. Quanto ao radiocarbono, de aplicação mais vasta em termos de materiais, tambĂ©m nĂŁo fornece uma data, mas sim um intervalo correspondente ao momento em que terminou a actividade biolĂłgica do organismo a partir do qual foi obtido o material (por exemplo, a ĂĄrvore no caso da madeira ou a planta do linho no caso de uma tela). O problema Ă© que esse intervalo pode ser relativamente largo em resultado da incerteza intrĂnseca ao mĂ©todo. Em contextos arqueolĂłgicos, onde Ă© frequente a datação por radiocarbono, essa incerteza Ă© pouco significativa comparada com a idade dos materiais, mas no caso de uma pintura dos Ășltimos sĂ©culos pode ser quase semelhante Ă dĂșvida e, por isso, nĂŁo Ă© habitual o uso do radiocarbono nestas circunstĂąncias. Num dos raros casos em que foi utilizado, o de uma pintura sobre a qual havia dĂșvidas se era ou nĂŁo de Peter Bruegel, o Velho (c. 1525/30-1569), concluiu-se que uma tela datava do perĂodo que vai de meados do sĂ©culo XV atĂ© meados do sĂ©culo XVII enquanto outra tela, de reforço, datava de um momento qualquer entre meados do sĂ©culo XVII e a ocasiĂŁo da anĂĄlise (sĂ©culo XX). Frequentemente os materiais e as tĂ©cnicas de execução acabam por serem mais precisos.
Resumindo, o estudo laboratorial de uma pintura pode contribuir de muitas formas para o esclarecimento de dĂșvidas de autenticidade. No entanto, muitas vezes os resultados nĂŁo sĂŁo conclusivos. Na realidade, rigorosamente nĂŁo Ă© possĂvel concluir que uma certa pintura Ă© autĂȘntica. Neste tipo de situaçÔes, o estudo laboratorial tem como objectivo Ășltimo descobrir qualquer incompatibilidade que ponha em causa a autenticidade da obra e quando alguma Ă© detectada (por exemplo, identificando branco de titĂąnio onde devia estar branco de chumbo) pode-se concluir que a obra Ă© falsa. Mas quando nĂŁo Ă© notada nenhuma incompatibilidade cronolĂłgica isso nĂŁo significa que a obra Ă© autĂȘntica; significa apenas que nĂŁo foram encontradas evidĂȘncias que ponham em causa a autenticidade ou que nĂŁo foram encontradas evidĂȘncias que apoiem a hipĂłtese de se tratar de um falso â o que nĂŁo quer dizer que nĂŁo possa ser. Evidentemente, quanto mais profundo e rigoroso for o estudo, quanto maior for o esforço para se tentar mostrar que uma obra Ă© falsa sem que se consiga descobrir alguma evidĂȘncia disso, maior Ă© a probabilidade de a obra nĂŁo ser falsa â mas, mesmo assim, sem que isso implique a sua autenticidade.
Independentemente desta assimetria da prova, hĂĄ situaçÔes extremamente complexas. Mesmo apĂłs longos anos de estudo envolvendo numerosas equipas multidisciplinares e de diferentes instituiçÔes internacionais, contexto em que os recursos analĂticos nĂŁo sĂŁo problema, hĂĄ casos que continuam por esclarecer, permanecendo em aberto as duas possibilidades â autĂȘntico ou falso. Ă o que sucede, por exemplo, com o mapa de Vinland ou com o kouros do Museu Getty que Ă© descrito, pela prĂłpria instituição que o tem em exposição, como sendo uma escultura de cerca de 530 a.C. ou uma falsificação moderna.
António João Cruz, Director do Mestrado em Conservação e Restauro do Instituto Politécnico de Tomar; investigador do Laboratório HERCULES e do ARTIS - Instituto de História de Arte.
VersĂŁo mais curta originalmente publicado no jornal PĂșblico a 17.03.2017.
Fotografia: A Rua Nova dos Mercadoresâ (retirada de: http://www.museudearteantiga.pt/exposicoes/a-cidade-global).
