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O Museu de Arte Contemporânea de Elvas, seis anos depois


O Museu de Arte Contemporânea de Elvas – Colecção António Cachola comemora este ano o seu sexto aniversário. Instalado no antigo Hospital da Misericórdia, adaptado a museu pelo arquitecto Pedro Reis, o MACE converteu-se, desde logo, num importante pólo de dinamização urbana e cultural da região, afirmando-se como um novo ponto de referência nos itinerários ibéricos da arte contemporânea.

Foto da capa: Galeria de exposição. Foto de Fernando Guerra.

Fachada principal.

Foto de Alberto Mayer.

Fundado e gerido pela Câmara Municipal de Elvas, o museu resultou em grande medida do empenho pessoal de António Cachola, empresário natural do concelho, detentor de uma extensa colecção de arte portuguesa contemporânea, representativa dos principais movimentos e autores das últimas três décadas. Motivado pela proximidade do MEIAC - Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporânea, em Badajoz, o coleccionador estabeleceu um acordo com a Autarquia para criar um espaço especificamente consagrado à arte actual, fora dos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto.

Tratava-se de uma proposta oportuna, “num momento em que Portugal discutia, como nunca, o papel da arte contemporânea junto das populações, a questão das centralidades e periferias e o estatuto das colecções privadas nas suas relações com o Estado” (1). Neste contexto, o MACE tornou-se um caso paradigmático em termos de descentralização das instâncias de produção e difusão cultural, através da cooperação entre o sector público e a iniciativa privada, aqui potenciada por fundos europeus.

Planta de implantação do MACE, incluindo a Igreja.

Desde o início do processo, houve a intenção de associar a divulgação da arte contemporânea à reabilitação do património arquitectónico, assumindo que a identidade cultural constitui uma referência colectiva que engloba “quer os valores actuais que emanam de uma comunidade, quer os valores autênticos do passado” (2). Neste sentido, o projecto arquitectónico do MACE partiu da premissa de reabilitar um imóvel com reconhecido valor patrimonial, no centro histórico de Elvas. O Hospital da Misericórdia de Elvas, cuja fundação remonta ao século XVI, funcionou até 1994 no edifício perpendicular à Igreja, construído em meados do século XVIII, por iniciativa do marquês do Lavradio e com traçado de José Francisco de Abreu. Apesar de ter sofrido sucessivas obras de remodelação, o imóvel revela ainda a singularidade do barroco alentejano, eloquentemente concretizado através da síntese de valores arquitectónicos eruditos e vernaculares, em que a monumentalidade teatral dos grandes gestos compositivos contracena com a depuração volumétrica e a presença de elementos decorativos tradicionais.

Adquirido pela Autarquia em 2002, com o objectivo de vir a ser reabilitado para equipamento cultural, o edifício acolheu temporariamente alguns serviços municipais, até ser objecto de uma requalificação global, no seguimento do concurso público realizado em 2003. O programa, elaborado com a orientação do Instituto Português de Museus (3), revela a complexidade funcional dos museus contemporâneos, integrando um conjunto de espaços com requisitos específicos, designadamente, áreas expositivas diferenciadas, serviços técnicos e administrativos, serviços educativos, reservas, recepção, loja e cafetaria/restaurante.

Escadaria principal. Foto de Fernando Guerra.

Corte transversal.

Plantas dos pisos 0 e 1.

Piso 1: 1. Igreja, 2. Serviço educativo, 3. Mediateca, 4. Galeria de exposição, 5. Escada de serviço, 6. Plataforma elevatória, 7. Escada de acesso público, 8. Auditório, 9. Escada pública, 10. Gabinete de apoio Piso 0: 1. Igreja, 2. Entrada pública, 3. Sala de entrada, 4. Galeria de exposição, 5. Escada de serviço, 6. Plataforma elevatória, 7. I.S. pública, 8. Serviços de limpeza, 9. Loja, 10. Escada pública

A proposta vencedora do concurso foi desenvolvida por uma equipa multidisciplinar, constituída pelo arquitecto Pedro Reis e pelos designers Filipe Alarcão e Henrique Cayatte. Para além de dar resposta às múltiplas exigências programáticas, o projecto conseguiu conciliar as preexistências arquitectónicas com uma ideia de flexibilidade que, longe do conceito de espaço neutro e homogéneo subjacente ao paradigma do “white cube”, procura tirar partido da pluralidade dos compartimentos originais, simplificando-os e articulando-os de modo a configurar um todo contínuo, versátil e coerente.

A intervenção arquitectónica baseou-se numa leitura simultaneamente sensível e crítica do imóvel histórico, pautada por um método rigoroso, “quase cirúrgico”, que anulou “as várias ambiguidades resultantes das sucessivas alterações (pontuais e de pobre qualidade construtiva), reconquistando assim a dimensão e a neutralidade originais dos vários espaços/galerias necessárias para a exposição de arte contemporânea.” (4) Ao longo destes cinco anos de actividade, a versatilidade das galerias tem sido comprovada com a montagem de distintas exposições e instalações de artistas contemporâneos que, tal como os curadores, têm repetidamente elogiado as características do edifício.

Tanto na reorganização do espaço como no desenho de pormenor, o projecto compatibiliza o legado barroco e rocaille, bem patente na azulejaria restaurada, com “um entendimento certo do espírito da arquitectura chã portuguesa” (5), elegendo a contenção formal e a sobriedade cromática como denominadores comuns a toda a intervenção, desde a escala urbana até à iluminação e à sinalética.

Sequência de espaços expositivos.

Foto de Fernando Guerra.

Um dos aspectos mais notáveis nesta obra de Pedro Reis é justamente, o acerto de escala e de expressão, que parte de uma pontuação discreta ao nível da rua, para se revelar através de uma sequência de espaços, onde o desenho contemporâneo alternadamente cede ou assume protagonismo, em função da relevância da arquitectura original. Essa tensão, presente ao longo de todo o percurso, é inteligentemente contida até ao momento de espectacular abertura para a cidade, na esplanada-miradouro do último piso, onde culmina a visita ao museu.

Por outro lado, a relação do museu com a cidade foi amplificada através da utilização do antigo Paiol de Nossa Senhora da Conceição como extensão do museu. Com uma intervenção mínima de limpeza e iluminação, o edifício militar converteu-se num espaço particularmente estimulante para projectos artísticos site-specific, alargando as possibilidades curatoriais do MACE e confirmando a vocação territorial implícita na sua situação geográfica.

A par de renovadas apresentações da colecção António Cachola, os primeiros cinco anos do museu foram marcados por um conjunto de exposições produzidas em parceria com instituições de referência, a nível nacional, como o Museu Colecção Berardo, a Culturgest e o Museu de Serralves. Estas colaborações, iniciadas por João Pinharanda6, são essenciais para a dinamização do museu e para a sua projecção a uma escala transregional, tanto mais que, a curta distância, encontram-se instituições congéneres espanholas, como o MEIAC, a Fundação Vostel ou a Fundação Helga de Alvear, com as quais o MACE deve manter uma relação de diálogo e complementaridade. Trata-se, portanto, de posicionar o Museu de Arte Contemporânea de Elvas no território ibérico, contribuindo para o seu reordenamento segundo os valores contemporâneos da comunicação e da criatividade. Porque o território constituiu, ele próprio, tema e inspiração para a reabilitação do património e para criação artística do nosso tempo.

Agradecimentos/créditos das imagens:

Museu de Arte Contemporânea de Elvas, Câmara Municipal de Elvas (fotografia da fachada principal do museu) Pedro Reis (desenhos do projecto de arquitectura) Fernando Guerra (fotos do interior do museu)

1) João Pinharanda - “Primeiro balanço de um museu novo” in Colecção António Cachola – Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Museu de Arte Contemporânea de Elvas, 2009, p. 15.

2) Ver definição de “Identidade” na Carta de Cracóvia, 2000.

3) Actual Direcção-Geral do Património Cultural.

4) Pedro Reis / Filipe Alarcão / Henrique Cayatte - “Dossier de Obra” in Colecção António Cachola – Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Museu de Arte Contemporânea de Elvas, 2009, p. 25.

5) Ana Tostões – “MACE: espaço de contemporaneidade e lugar de memória”, Monumentos n.º 28, 2008, p. 181.

6) Director do MACE entre 2007 e 2010.

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