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Quanto vale uma obra?


A sabedoria popular diz-nos que tudo tem um valor, o difícil está em sabermos qual é esse valor. Todos queremos acertar num valor que seja o melhor possível para o vendedor e ao mesmo tempo o melhor possível para o comprador. Um valor justo e equilibrado é aquele que agrada a ambos. Para chegar a esse valor os especialistas nas mais diversas áreas, para além dos anos de experiência, apoiam-se em informação e dados concretos. Cada área tem as suas diferentes especificidades, cada área procura diferentes tipos de informação.

Há objectos cujas avaliações têm por base cotações de mercado que são actualizadas e publicadas diariamente, em meios cada vez mais acessíveis e gratuitos, como uma simples página na web. Qualquer motor de busca leva-nos, por exemplo, a diversos “sites” que apresentam a cada instante a cotação dos metais como o ouro, a prata ou a platina, tornando fácil saber a quanto se está a comprar ou a vender uma onça. Daqui a extrapolar para quanto vale um vulgar fio de ouro é um passo.

O trabalho artístico não tem nada de “vulgar”, não se rege por regras de cotações em bolsa ou de ordem científica. A arte é avaliada por factores que em alguns casos roçam a subjectividade e a sensibilidade, mas tem também por base uma série de dados e informação que nos permitem ser mais rigorosos.

Como podemos então atribuir valor a uma peça de arte? A primeira linha a ter em conta, tal como em qualquer venda, seja uma casa ou um carro, é a comparação com os preços atingidos em peças semelhantes. Se o comum prato em porcelana chinesa da Companhia das Índias, com esmaltes da família rosa, atinge hoje valores médios entre os 100€ e os 200€, o mais provável é que o valor de um prato semelhante se enquadre entre estes valores. A análise do resultado de vendas em leilões, antiquário e galerias do mundo inteiro, são a primeira ferramenta a ser usada. No entanto, se alargarmos a procura aos valores de mercado internacionais, temos que ter em conta que esses variam de país para país, ou mesmo de região para região. As diferentes Histórias, tradições e gostos fazem oscilar os números da procura e da oferta, alterando o valor de uma obra.

Cada obra tem uma história a contar. A quem pertenceu, em que exposições esteve patente, qual a sua raridade, quem é o autor, o que retracta? Todas estas respostas podem afastar a obra dos valores de referência. É com base nesse historial que o valor pode duplicar ou atingir mesmo valores impensáveis para peças semelhantes. Se o mesmo vulgar prato da Companhia das Índias pertenceu à colecção de António de Medeiros e Almeida, famoso coleccionador português do séc. XX, torna-se naturalmente mais apelativo a um novo coleccionador. Se por um acaso esteve presente numa importante exposição, vindo ilustrada e descrita no respectivo catálogo, então deixa de ser um simples prato em porcelana chinesa e passa a ser uma peça com história, autenticada por especialistas que a consideraram suficientemente relevante para constar numa exposição.

O estado de conservação é outro dos factores a ter em conta numa avaliação, o mercado tende a valorizar as obras que estão mais próximas do seu estado original.

No caso das antiguidades existem algumas excepções, o tempo traz aquilo que os negociantes em arte gostam de chamar de “patine”, sinais do uso e do tempo que diferenciam positivamente as obras antigas das obras contemporâneas. O marfim ganha um tom pérola, o pau-santo e o couro um novo brilho e maciez que apesar de os afastarem do seu estado inicial dão-lhe um novo carácter, muito apreciado por certos coleccionadores. Embora influencie a avaliação, a “patine” não é fácil de ajuizar, varia com a sensibilidade de cada um e é por isso difícil de definir. Não devemos no entanto confundir “patine” com defeitos ou sujidade, os primeiros não favorecem as obras e os segundos devem ser retirados.

No caso de terem de ocorrer restauros, a qualidade dos mesmos é também determinante para a avaliação. Os restauros devem ser bem realizados, devem ter em conta a época e as características de cada obra. Um mau restauro é prejudicial e pode mesmo ser irreversível. Um mau restauro pode adulterar de tal forma a obra que o seu valor artístico fica comprometido.

Ponderados todos estes factores, quanto vale uma obra de arte? Vale aquilo que o mercado está disposto a dar, num determinado momento e local. Saber analisar o mercado, conhecer as suas mudanças é fundamental para antecipar as oscilações de valores. É preciso estar atento às mais pequenas mudanças e ajustar constantemente os valores de referências. O mercado rege-se por razões económicas e históricas mas é muito influenciado pela moda e mudanças de hábitos, por muito pequenas que sejam. Estas nuances do gosto fazem renascer, ou nascer, obras que não tinham mercado, que tinham caído em desuso, que não eram apreciadas ou reconhecidas pelo público.

Como em todas as avaliações, as avaliações de arte fazem-se da ponderação de todos estes dados e informações. Não deve ser feita de forma leviana e deve ser actualizada, não sendo estanque no tempo e nem no local.

Colecção de Pratos Companhia das Índias século XVIII

(Imagem retirada de http://movelariacarioca.blogspot.pt/2012/05/colecao-de-pratos-cia-das-indias-sec.html)

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