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“Poema de Contornos”



É, desde logo, o nome de uma das obras do artista plástico português Martins Correia. Tríptico, a pastel e tinta sobre papel, de 1984, é, com efeito, uma das múltiplas criações artísticas do Mestre Escultor (e pintor, e também poeta, professor, pedagogo…) Joaquim Martins Correia, nascido na Golegã a 7 de Fevereiro de 1910 e falecido a 30 de Julho de 1999. Conhecido (embora devesse ser muito mais e melhor), sobretudo, pela sua produção escultórica e de arte pública ao longo de décadas.


São-me particularmente familiares os painéis de azulejo da estação de Picoas do Metropolitano de Lisboa, a estátua de D. Pedro V no exterior da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a estátua de Garcia de Orta no exterior do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, as estátuas de Fernão Lopes e Gil Vicente na entrada da Biblioteca Nacional de Portugal, ou ainda a composição escultórica do Café Império, todas em Lisboa. Estas surgem mais próximas, mas tantas outras, em várias localidades do território nacional, passando naturalmente pela Golegã e a sua “A Camponesa” a título de exemplo, bem como as longínquas estátuas de São Francisco Xavier, Bartolomeu Dias e de Camões, em Goa, ou ainda obras no Brasil (São Paulo), Moçambique (Maputo), Guiné-Bissau (Bissau), entre outras.


Representado em colecções privadas e também públicas como as do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado ou do Museu Nacional Soares dos Reis e, entre outros, o Museu José Malhoa, o Museu Municipal Martins Correia, na sua terra natal, cujo acervo é composto fundamentalmente por obras doadas pelo artista em vida. Tinha assumidamente dificuldade em vendê-las e desfazer-se das mesmas, daí ter “tanta coisa acumulada”, nas suas próprias palavras.


Este último museu encerrou há pouco tempo, temporariamente quero crer, sob pretexto da pandemia que ainda teima em vaguear pelo mundo (contudo, já encerrava regularmente aos sábados, domingos e feriados, à semelhança de equipamentos culturais de outros municípios, o que não deixa de ser lamentável no que diz respeito à prestação de serviço público), possui uma concentração impressionante de obras do Mestre (cerca de setecentas) desde escultura, pintura, desenho, cerâmica, medalhística, que sublinham as suas temáticas recorrentes, a figura feminina, a natureza, o meio rural, o cavalo, o touro, inspiradas na cultura popular, que para o artista não é possível dissociar da identidade nacional, mas também na herança cultural da antiguidade clássica, no universo do Mediterrâneo antigo. O espaço Equuspolis - Casa das Artes, no qual está integrado o Museu Municipal Martins Correia, suscita um repensar deste projecto museológico tal como existe e uma reorganização museográfica que possibilite uma leitura mais conseguida das coleccões expostas.


Artistas como Martins Correia provocam um aprofundar de dúvidas, legítimas e até desejáveis diria eu, sobre a definição de fronteiras entre os diversos campos artísticos num panorama da multiplicidade de linguagens. De qualquer forma, não é propriamente o objectivo deste artigo uma análise ensaística sobre o percurso e obra deste Mestre. Pretendo antes fixar-me na divulgação (necessariamente breve) de espaços museológicos onde podemos aceder à sua obra, ter a experiência insubstituível de contactar ao vivo e a cores (neste caso, a expressão não poderia ser melhor aplicada, “o Mestre da forma e da cor”, “o escultor da cor”, inovador na introdução do cromatismo em escultura, nomeadamente em metais como o bronze).



Quero sublinhar de igual forma as relações que se querem cada vez mais estreitas entre as áreas da educação, da formação e as da criação artística, da produção e fruição culturais que irão ter uma influência determinante, quer no património cultural do futuro, quer na própria consistência da evolução das artes, dos artistas, da criatividade, dos públicos e da própria cidadania. Esperamos que o Plano Nacional da Artes, com potencial para ser um bom instrumento e uma plataforma de articulação e convergências, alcance o maior dos sucessos. Tal como sugerido na apresentação dos resultados do estudo “Património Cultural em Portugal: Avaliação do Valor Económico e Social”, no passado dia 9 de Dezembro, será de louvar e muito útil uma iniciativa semelhante relativa ao Património Cultural e à educação patrimonial.


Para além do vínculo do artista ao município da Golegã, é conhecida a sua relação com uma instituição que neste ano de 2020, com as contingências sobejamente conhecidas, celebra 240 anos desde a sua fundação – a Casa Pia de Lisboa. Martins Correia ficou órfão muito cedo (os pais foram vítimas da gripe pneumónica de há mais de cem anos) e acabou por ingressar, enquanto aluno, na Casa Pia que, não querendo escamotear problemas graves relativamente recentes, tem todo um percurso e uma história que muito abonam a favor da instrução, da educação e do amparo dos mais necessitados, que formou diversas personalidades de relevo na sociedade portuguesa, nomeadamente no meio artístico e intelectual. Na Casa Pia de Lisboa foi também professor e é esta instituição que no Museu do Centro Cultural Casapiano acolhe, desde 26 de Novembro passado (estará patente até Maio de 2021) a exposição “Poema de Contornos”, evocativa da obra artística de Martins Correia, em parceria com a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, também parte integrante do seu percurso de vida. Uma pequena grande exposição, com 21 peças/núcleos que faz jus à diversidade da sua criação artística e das suas linhas dominantes, as formas articuladas com as cores, os próprios materiais plenos de significado, o carácter simultaneamente nacional e universal, e eminentemente humano. Sempre a condição humana.


Disse Martins Correia sobre os museus:

“Já reparaste - os museus em todo o mundo são expoentes para a formação superior de todas as pessoas. – Pelos museus as pessoas adquirem conhecimentos de entusiasmo para com todas as actividades vivas – porque todas são desenhadas – são úteis as visitas a todos os museus de artes, letras e ciências e a visita aos museus de arte, têm além da contribuição para a formação de educação estética das pessoas, a particularidade de estimar mais principalmente aos homens que desejam formar-se nos cursos superiores artísticos de arquitectura, escultura e pintura – e também serve aos dos cursos superiores da faculdade de letras no capítulo do estudo moderno de professores da história de arte – e ainda aos que se dedicam ao jornalismo no capítulo de formação de críticos de arte e ainda aos que se dedicam ao turismo, para se aperceberem da superior menção artística dos seus monumentos e museus e ainda a todos os operários, cuja superioridade de exercícios manuais são conduzidos por todos os grafismos simples e coloridos e ainda a todos os camponeses, que com paixão cultivam a terra em todo o seu geometrismo, que oferece a expressão das terras planas e acidentadas quando cavadas, aradas e lavradas. – Os museus de arte devem ser visitados, porque a vista é um dos órgãos mais inteligentes para a formação duma humanidade sensível.”


Não servirá para definição de Museu mas é um contributo muito válido para o debate que ainda está em curso sobre a actualização dessa mesma definição. O Museu com um papel fundamental na conservação, conhecimento e valorização do património cultural, com uma missão cultural que é em simultâneo de carácter social, abrangente, inclusiva e que deve envolver todos os cidadãos. Todas as pessoas deveriam viver, de forma sistemática e continuada, por hábito e por necessidade, a experiência museológica, que de uma forma ou de outra a assimilem, a incorporem e estarão mais aptas à sua utilização na melhoria das suas vidas, nos vários contornos da vida, na consciencialização maior de si e do outro. O Museu essencial na comunidade educativa, na comunidade no seu todo e verdadeiramente relevante em e para cada um de nós.

Imagens:

Folheto Exposição Poema de Contornos, Museu do Centro Cultural Casapiano (Novembro 2020 - Maio 2021)

Parte do Tríptico Poema de Contornos, pastel e tinta sobre papel, 1984


Bibliografia:

CARVALHO, Gabriela, “Martins Correia, Laureatus. O Mestre da forma e da cor”, Althum.com ed., Lisboa, 2011

LOURENÇO, Elsa (coord.), “Catálogo Museu Municipal Martins Correia”, Edição Câmara Municipal da Golegã, 2003

COELHO, José, “Escultura pública: poética do escultor Martins Correia”, Dissertação de Mestrado em Escultura (Especialização em Estudos de Escultura Pública), Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, 2014, disponível em http://hdl.handle.net/10451/15731

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