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Não havia necessidade…. de criar um “catálogo de absurdos”


A cidade do Porto não merecia as intervenções “descuidadas” que, ao longo de décadas, aqui vão sendo feitas no “património cultural arquitetónico” e que a estão a criar “um catálogo de absurdos” que pode ser usado, pelo menos, como exemplo académico do que não deve acontecer.


Curiosamente, o “catálogo de absurdos” está a ser construído por somatório de intervenções “descuidadas” em torno de Monumentos Nacionais, com classificação publicada em Diário da República. Isto deveria merecer alguma reflexão.


Em princípio, estes Monumentos são “um conjunto de bens (herança) que uma geração sente que deve transmitir às seguintes porque pensa que esses bens são um talismã que permite à sociedade compreender o tempo”.


O “catálogo de absurdos” está a ser construído por intervenções teimosas, pouco refletidas na perspetiva da defesa da herança, com falta de “respeito” pelas marcas que o homem deixou no território, marcas que foram reconhecidas por gerações para garantir o futuro patrimonial, para garantir, afinal, a verdadeira dimensão do conceito de Património Cultural identitário de um Povo. É um “catálogo de absurdos” constituído por intervenções datadas.


O último exemplo para esse catálogo é o que está a acontecer no início de 2021 junto do monumento nacional denominado “Ponte da Arrábida”. Projetada pelo reconhecido engenheiro Edgar Cardoso, foi classificada em 2013.


Ponte da Arrábida em Dezembro de 2020

Constitui a primeira grande ponte sobre o rio Douro, integralmente projetada, concebida e construída entre 1956 e 1963 por técnicos e empresas portuguesas, atestando a capacidade dos projetistas e construtores nacionais, e constituindo ainda um dos mais significativos monumentos da engenharia portuguesa do século XX.


A inserção da ponte da Arrábida nas encostas, do Porto e de Gaia, é observada por muita gente que todos os dias, ao longo de anos, de verão e de inverno, por ali transita no seu quotidiano, daqueles que vivem as cidades. Não havia necessidade de estragar esta paisagem, de degradar a perspetiva do amplo arco da ponte que faz parte do monumento nacional assim classificado pela sua singularidade.

Dirão, alguns, que na perspetiva da gestão administrativa a construção do bloco de habitações está a pouco mais de 50 metros da ponte da Arrábida…e, por isso, está legal.


No Porto, também foi legalizada, na primeira década do século XXI, a “descuidada” construção de um túnel com saída junto da porta do Museu Soares dos Reis, o único “museu nacional” que existe no Porto. Esta saída de túnel é outra “peça” para o “catálogo de absurdos”.


No Porto, também foi legal, na década de 90 do século XX, a “descuidada” construção da ampliação do Hospital de Santo António, classificado como “monumento Nacional”. Esta ampliação é outra “peça” para o “catálogo de absurdos”.


No Porto, também foi legal a “descuidada” demolição do Palácio de Cristal em 1951. Houvesse “cuidado”, porque espaço urbano não faltava, e o Porto poderia ter as duas coisas: o Palácio de Cristal e o Pavilhão dos Desportos. Esta demolição também é “peça” para o “catálogo de absurdos”, formalmente menos grave porque o Palácio de Cristal, inaugurado em 1865, não estava classificado com “monumento nacional”.


Mas, afinal, quais as razões que levam a que o “catálogo de absurdos” no Porto continue?


Haverá alguma hipótese de valorizar o bom senso e a sensibilidade para que não se repitam “descuidos legais” nos monumentos, no Porto?


No Porto, como em todo o lado, não há necessidade de estragar o que existe, o que foi bem feito e, por vezes, reconhecido como importante marca do homem num território e, por isso, classificado como “monumento nacional”.


Enfim, não há necessidade, mas continua a acontecer…

Nota para a fotografia: A Ponte da Arrábida foi inaugurada no dia 22 de junho de 1963. O pequeno edifício marginal do rio Douro, conhecido pelos populares por “casa dos engenheiros”, foi construído para acolher o acompanhamento técnico da obra entre 1956 e 1963. O edifício foi conservado por estar umbilicalmente ligado com a construção da Ponte e com ela formar um conjunto.

O autor utiliza o Acordo Ortográfico.


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