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Elogio do perfil de conservador/a de museu


“Há uma geração de conservadores a reformar-se e não há quem lhes suceda”, titulava o jornal Público em 26 de Março de passado. Uma conservadora-restauradora, um conservador e duas conservadoras de museus eram ouvidos, sendo uma delas Ana Isabel Palma dos Santos, minha colega de toda a vida profissional no Museu Nacional de Arqueologia. As presentes notas resultam do que ali dizem.


Nunca fui, nunca quis ser, conservador de museu. Quando tal me foi proposto, e bastaria querê-lo, podendo até auferir maior vencimento, recusei-o. Sou um arqueólogo que fez carreira em museus. Pelas vicissitudes da vida, abandonei um dia a minha inserção preferida em museu, ou seja, a de investigador das colecções que fui treinado para saber interrogar, e aceitei percorrer outras funções, umas mais afins da minha formação de base (por exemplo, comissariado de exposições, acção educativa), outras dela mais afastadas (por exemplo, gestão pura e dura, teoria e politica de museus).


Pensei até certo momento que a amplitude das funções que fui exercendo seria compatível com a investigação que desenvolvia antes. Sendo eu já director do MNA, Raquel Henriques da Silva, à altura directora do Instituto Português de Museus, visitou-me um dia em escavações que eu dirigia. Recebi-a como estávamos todos: feios, porcos e… bons, tendo ela comentado (agradada) que eu era o único director de museu nacional que conseguia manter tal actividade. Mas, com o tempo, mesmo isso acabou. Não pude manter aquilo que em décadas anteriores me deu mais gozo.


Lamento-o? Bom, lamento pelas colecções e sítios que não publiquei. Mas não, não lamento, afinal: perdi algo, mas ganhei também bastante. Ganhei sobretudo uma visão holística do “ser museu” e interiorizei profundamente o sentido do trabalho de equipa, entendido como relação interpares. Adquiri a consciência de que a vida de um museu se compõe pela combinatória entre campos de especialidade e campos de convergência, susceptíveis estes de serem preenchidos por formações as mais diversas. Entre estes campos de convergência conta-se tipicamente, no meu entendimento, a função de direcção, que deve ser sempre considerada como “comissão de serviço por tempo limitado” e não como carreira profissional. Já no terreno oposto, encontram-se por exemplo os perfis que habilitam à interrogação colecções de acordo com as tipologias definidas pelas ciências que as estudam (arqueólogo, paleontólogo, historiada da arte, etnólogo/antropólogo, etc., etc.); os que habilitam ao restauro (conservador-restaurador); os que habilitam à comunicação e educação (mediador educativo); etc., etc.; e, por último mas não por menos, os que habilitam à gestão de colecções. Está neste caso especialmente o perfil de conservador, o tal que eu nunca quis ser… precisamente porque, sem lhe reconhecer superioridade (como antigamente era norma nos museus, ao ponto de haver vencimento superior), sempre o respeitei imenso.


Conheci alguns conservadores/as de museu que muitíssimo me inspiraram, mesmo quando os/as confrontei (por querer preservar o meu território de arqueólogo). Adília Alarcão vem-me sempre à cabeça. Nem ela, nem eu até muito tarde, percebi bem o quanto me influenciou. É alguém que, mesmo tendo estudado em Londres temas de conservação de colecções de arqueologia, se fez principalmente na prática. Alguém de quem o establishment dos conservadores de museus desconfiava tanto que nem a quiseram eleger para os corpos gerentes da Comissão Nacional Portuguesa do ICOM antes de 1974: faltava-lhe o cursus honorum, que curiosamente já reconheciam ao marido, Jorge Alarcão, alguém obviamente muito menos ligado ao mundo dos museus, não obstante as funções que, por circunstâncias inopinadas e obrigação universitária, desempenhou no Museu Nacional de Machado de Castro.


Já um dia escrevi que quando ingressei há mais de quatro décadas no Museu em que ainda trabalho, havia nele uma grande diversidade de perfis funcionais: arqueólogos com actividade de campo ao serviço do museu, bibliotecário, desenhadores (vários), fotógrafo, auxiliares de museografia, telefonistas, técnicos de laboratório e restauradores, secretaria com chefia própria, almoxarife, marceneiro, carpinteiro.


Havia também conservadores, claro. Conservadores para várias colecções: pré-história, romano, etnografia, etc. Alguns passaram episodicamente pelo Museu, ou porque a vida e as condições de estabilidade profissional não permitiram criar raízes, ou porque verificaram eles/elas, ou verificámos nós (os outros membros da equipa técnica), que realmente não possuíam a formação de base que lhes permitisse desenvolverem laços de conhecimento e empatia tanto com as colecções de que era suposto ocuparem-se, como com a vivência da Casa que as contem. Chegámos a ter historiadores da arte, e em tempos mais recentes, “museólogos”. Mas se não sabiam distinguir uma lucerna de um candil e ambos de uma candeia… Se não sabiam reconhecer um geométrico entre esquírolas ou um brunido entre fragmentos… Se não sabiam identificar uma asa de sítula, um fundo de ânfora, um fragmento de tégula… Se não eram capazes de identificar as principais tipologias de peças de cada período crono-cultural... Se não conheciam os sítios arqueológicos e núcleos centrais no museu… Se não percebiam os desafios particulares dos sistemas de inventário ou de reservas que a natureza do acervo impunha… Se de tudo isto eram ignorantes, como poderiam eles/elas desenvolver em relação a colecções de cacos e pedras as leituras e afeições que provavelmente teriam em relação às obras de arte?


O contrário passou-se, pelo que sabemos da história, com a plêiada de conservadores que nos antecederam e sentimos ainda pairarem em nossa volta, desde Vergílio Correia, Félix Alves Pereira ou Irisalva Moita até João Saavedra Machado. Olha-se, por exemplo, para os enunciados dos exames de concurso para conservador de museu e fica-se elucidado: nenhum “estudioso” ou “amante” de museus (ou de arqueologia), nenhum dito “museólogo” moderno, só por o ser, poderia jamais obter neles classificação positiva.


Vale a pena detalhar o percurso de Ana Isabel Santos, talvez a última conservadora de museu no MNA, na linha dos que ficam referidos. Somos colegas, e acima do mais somos amigos, de toda uma vida, estudantil e profissional. Fizemos estudos idênticos, frequentámos a maior dos mesmos locais, incluindo escavações em Portugal e no estrangeiro, ingressámos no MNA quase ao mesmo tempo (eu uns dois anos antes, apenas). Mas percebemos desde o princípio que, debaixo das mesmas cumplicidades, tínhamos gostos diversos, o meu mais virado para a investigação e o dela mais para a gestão de colecções. Entre todos os da equipa inicial (ainda sem a Ana Isabel, ou seja em 1980) era o Rui Parreira o que melhor fazia a ponte entre estas duas dimensões. Foi, aliás, o único que chegou a concluir o curso de conservador de museu, o último realizado, que eu não quis frequentar porque estava então totalmente virado para a arqueologia de campo. Quando a Ana Isabel chegou, já esses cursos não se faziam e por isso a formação de conservadora que teve foi totalmente prática, em exercício.


E que formação! E que desempenho! Partia de uma boa base académica de arqueologia e tinha a vantagem de estar integrada em equipa de grandes amigos, onde havia quem conhecesse os detalhes que a ela naturalmente poderiam escapar. Mas desenvolveu sobretudo por si mesma aquilo que um conservador de museu deve possuir: um conhecimento extensivo do acervo, um amor infinito pelo mesmo e um desejo sincero, permanente, de aprendizagem, traduzido por exemplo numa disponibilidade constante para adquirir novos conhecimentos, seja nas áreas da gestão e conservação em sentido restrito (onde ela beneficiou muito mais do que eu dos ensinamento de Adília Alarcão, por exemplo), seja nas da responsabilidade e valorização social, nomeadamente pelas pontes a estabelecer com a investigação e com os programas expositivos.


Tudo isto, a Ana Isabel fazia (uso o pretérito a custo, mas a verdade é que se reformou…) com imenso sentido de entrega à Casa. Quando exerci funções directivas, tínhamos com frequência discussões e tomávamos posições diferentes, mesmo opostas. Ela sempre mais atenta às condições de segurança e conservação das colecções; eu mais sensível às dimensões da investigação, do uso social e da abertura ao exterior. Autorizar este ou aquele estudo, às vezes com dimensões destrutivas; permitir empréstimos para esta ou aquela exposição, com possíveis danos irreparáveis; facilitar o acesso a reservas, instituindo mesmo os chamados dias de “portas abertas”; aceitar depositar esta ou aquela peça noutro museu, em regime de depósito de longa duração, sob risco de não retorno; consentir até algum tipo de banalização dos nossos originais, em “eventos” de qualidade duvidosa… Às vezes, os argumentos dela convenciam-me; mas na maior parte dos casos fazia impor o que eu entendia mais correcto – e isso, confesso agora, custava-me, porque, embora teimoso, não tinha, nunca tive, certezas absolutas. Seja como for, jamais essas diferenças prejudicaram, minimamente que fosse, a nossa grande amizade, diria mesmo a nossa cumplicidade profissional. Sempre tive na Ana Isabel a colega com maior capacidade de avaliação e aconselhamento estratégico sobre o nosso museu.


E depois, bom, depois, uma vez por mim tomada uma decisão, mesmo que a desagradasse, a lealdade e a escrupulosa execução da mesma deixavam-me totalmente descansado.


São muitos os exemplos que poderia convocar para dar conta da admiração que tenho pelos conservadores/as de museu (não pelas “primas-donas dos museus”) a partir das situações que vivi com a Ana Isabel. O quanto nos entusiasmávamos quando ela aparecia no meu gabinete a dizer que durante o processo de reacondicionamento da reserva geral do Museu tinham identificado alguma peça que julgávamos perdida ou de que nunca ouvíramos falar… e descíamos logo os dois para a ver, partilhando efusivamente o nosso contentamento com o resto da equipa (tão apegados ao acervo como nós). O quanto aprendíamos quando às vezes íamos os dois a acompanhar peças nossas em exposições no País e no estrangeiro. O quanto gozávamos na escrita a quatro mãos de textos, quaisquer que fossem, desde os “mais apagados”, de todos os dias, para fichas de inventário por exemplo, que nem autoria teriam muito provavelmente (já que a maior parte dos futuros utilizadores não se dariam sequer ao trabalho de pensar que alguém os havia escrito), até aos “mais aureolados”, visíveis publicamente em exposições ou catálogos. O quanto nos comprazíamos em pensar estrategicamente o nosso museu, com admiração cada vez mais acrescida por quem nos antecedeu (mesmo no caso daqueles que em nossa insensata juventude nos atrevêramos a “ostracizar” em nossos ânimos, como foi o caso emblemático de Manuel Heleno). Etc., etc.


Ocorre-me um exemplo, extremo, porém emblemático, do que constitui esta combinatória entre razão e emoção que fazem a boa profissional conservadora de museus e de que tomei conhecimento apenas depois de tudo se ter passado, quando a Ana regressou ao Museu e me reportou o sucedido.


Em 2007, tinha ela ido acompanhar a desmontagem no Rio de Janeiro da exposição LUSA – Matriz Portuguesa, que pela primeira apresentava no Brasil algumas das nossas mais emblemáticas peças, entre as quais diversos “tesouros nacionais” (incluindo aqui tanto a estátua de “guerreiro lusitano” que os portugueses no Brasil tanto queriam ver como um esqueleto de caçador-recolector mesolítico que causou profundo impacte junto dos brasileiros, por lhes revelar um tempo que em grande parte desconheciam, um tempo em que os portugueses/europeus também eram “selvagens”…). Um tal acervo obrigou a mil cuidados, no acondicionamento, no transporte transatlântico (em voos separados), na segurança física e remota, nas montagens e desmontagens. No Brasil a exposição inaugurou primeiro no Rio de Janeiro, onde fui. Aquando da passagem para S. Paulo, foi a Ana Isabel assegurar sozinha todo o processo, incluindo o serviço de courier entre ambas as cidades, situadas como se sabe a mais de 500 quilómetros uma da outra. Tinha ela a responsabilidade das nossas colecções e das de outros museus portugueses, que no-las confiaram. Havia seguros, claro. Mas a existência de tão grande número de “tesouros”, tão publicitados nos dias e semanas anteriores (a exposição tivera mais de 750 mil visitantes!!!), levou à tomada de medidas de segurança especiais: dois camiões, um deles apenas de segurança e despiste, escolta privada armada em viaturas próprias, etc. A Ana quis seguir mesmo no camião com as colecções, ao lado do motorista, e não na viatura da escolta armada. Os contactos entre todos eram permanentes… Até que, já tarde na noite, em zona inóspita e sem cobertura celular, o camião onde ela seguia se imobilizou, aparentemente avariado. O outro camião, que ia algo afastado, seguiu viagem, desaparecendo. A escolta armada saltou para o mato em redor e desapareceu também. Havia um histórico de assaltos na zona e parecia estar eminente mais um. Que fazer? Bom, a Ana Isabel recusou-se abandonar o lugar onde ia e ficou a aguardar o pior com o motorista, que vendo a determinação dela, também se manteve no camião. Esperaram… mas nada. O motorista lembrou-se então que tinham passado alguns quilómetros atrás uma bomba de gasolina e que aí haveria com certeza telefone. E lá foi ele. Feito o alarme geral, acabou por chegar a polícia, o outro camião e os seguranças armados regressaram do mato… Fez-se a transferência da carga e continuou a viagem, agora com polícia verdadeira, até S. Paulo… e sem mais percalços.


Pergunto-me se haveria algum “estudioso” ou “amante” de museus, algum “curador” ou “museólogo” daqueles que se entretêm a dizer o que os museus devem ser, sem nunca neles terem trabalhado, que tivesse desenvolvido na vida responsabilidade profissional (e amor) tão profundo à colecção que lhe era dada guardar para que assim procedesse. Duvido. Duvido bastante: só mesmo um/a excelente conservador de museu o faria.


E, finalmente, há algo que na profissão de conservador de museu umas vezes existe e outras não (como em todas as outras), mas faz imensa falta. Algo que a Ana Isabel tem em superlativo, porventura até em excesso: um sentido profundo de contenção, de discrição até, de se sentir bem longe de palcos e focos luminosos. São assim os verdadeiros conservadores: dá-lhes mais prazer passar dias e dias em reservas, quem sabe se a “limpar o pó” (que quer dizer, a abrir caixas, ver outra vez e descobrir sempre algo mais)… do que a perorar em público, sem grande coisa para dizer, amiúde. Sei bem o quanto hesitou, mesmo agora já reformada, em prestar o testemunho que prestou, que apenas depois de insistência nesse sentido e pensando que assim faria bem ao Museu.


Também por aqui, pela discrição e pelo tempo e pelo gosto de ocupar dias em reservas, passa o imenso oceano que distinguir um conservador de um “curador” ou outro qualquer paraquedista dos museus. A Ana Isabel sugeriu-me e participou num sem número de discussões criativas sobre novas exposições, imaginou novos ângulos de observação de peças ou colecções… e no entanto, do ponto de vista formal, poucas vezes integrou os respectivos comissariados. Disse-lhe repetidas vezes que tinha de se expor publicamente; que o mundo se orienta cada vez mais pelo show-off e não tanto pela substância; que novos equilíbrios entre ambos eram necessários; que a “invisibilidade da gente da casa” poderia ser entendida pelos de fora (e, no futuro, quem sabe se mesmo pelos de dentro) como equivalente de menoridade; que a infeliz tradição portuguesa (será só portuguesa?) é a de dar atenção aos de fora e depreciar os de dentro; que a falta de pessoal e o recurso cada vez mais avassalador a colaborações externas poderia irremediavelmente fazer alastrar o modelo do museu como supermercado onde parasitas do trabalho alheio (que nos casos mais benignos podemos admitir nem perceberem existir) vão buscar “coisas giras” para “animar a malta”… e produzir “eventos”, como preferem dizer. Mas não, preferia sempre ficar na sombra. Confesso que, havendo defeitos, como sempre há em todos, os da Ana isabel seriam dois: ser às vezes demasiado rígida, quando entendia que estava em causa a defesa das colecções; e, escrevendo embora tão bem (que o digam os belos textos que escrevemos a meias para exposições do Museu; e bem assim o belo roteiro sobre os Monumentos Megalíticos do Alto Alentejo que eu quase a obriguei a fazer e nos levou a andar semanas a fio no campo a fotografar antas), não se entusiasmar demasiado pela escrita, preferindo sempre e sempre o mergulho em colecções.


Será isto defeito, porém, num conservador/a de museu? Ou será a sua maior virtude? Talvez seja virtude, porque o sucesso não se mede aqui pelo currículo pessoal que se obteve; mede-se pelo estado em que ficaram as colecções depois de atingida a reforma, comparando como estavam antes. E, no caso vertente, ficaram muito melhor.


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