Casas-Museu, habitação de todos, para todos



Cápsulas do tempo (e do espaço), templos de certas musas, máquinas de viagens ao passado, espaços de fruição (também investigação, preservação, interpretação, exposição) de ambientes, de múltiplos objectos artísticos, de coleções, que possibilitam conhecer melhor certas personalidades, seus hábitos, formas de ser, estar, pensar, agir, histórias da História, momentos da História, aspectos que caracterizam determinada(s) época(s), criam conexões com a contemporaneidade, promovem diálogos, participação, inclusão, enfim, um sem número de possibilidades e potencialidades que estão longe de se esgotar nesta enumeração.


Falo de casas-museu. Tipologia específica de museu, nem sempre bem identificada pela generalidade das pessoas, gerando algumas interpretações imprecisas, designando de casa-museu alguns outros museus ou espaços culturais, que em bom rigor não o são. Dito isto, são sim muito apreciadas pelos públicos, mesmo por alguns que não são visitantes regulares de museus de outras tipologias. Num espaço como uma casa-museu, mesmo correndo o risco, que procuro evitar, de cair numa generalização abusiva, sentem-se entusiasmados, dá-se uma certa identificação ou proximidade quase que imediata, assim como uma eventual vontade de regressar.


Existem já em Portugal, felizmente, estudos de natureza académica e científica que são excelentes contributos para uma compreensão mais aprofundada desta realidade que se reveste de especificidades muito próprias. Destaco, sem ser exaustivo, as investigações de Maria de Jesus Monge, no campo das casas históricas e em concreto dos palácios reais em República, com um trabalho de investigação pioneiro, a sua dissertação de mestrado em museologia da Universidade de Évora, “Museu-Biblioteca da Casa de Bragança: de Paço a Museu”, de 2003, e ainda o seu projeto de doutoramento “Os Palácios e as Coleções Reais Portuguesas (1910-1960): A Memória da Monarquia em Tempo de República”. Da autoria de António Ponte, a dissertação de mestrado em museologia, Casas-Museu em Portugal. Teorias e Práticas, apresentada à Universidade do Porto, em 2007.


Nas áreas do património cultural e da museologia há diversas realidades que podem originar interpretações erróneas ou pouco precisas, conforme mencionei, e da mesma forma que nem todas as casas antigas têm condições nem são potenciais espaços museológicos, ainda menos devem ser designadas de casas-museu espaços que não reúnem as características próprias para o efeito. Por uma questão de rigor e de clarificação junto dos públicos e da comunidade em geral, da mesma forma que é preciso uma utilização criteriosa do termo museu, também se exige o mesmo para o de casa-museu. Por vezes, por muita importância que tenha (ou deva ter) um museu no seio da comunidade, preservar e salvaguardar património nem sempre passa pela sua musealização, nem criação de novas unidades museológicas. Noutras situações, será o inverso, ou seja, a salvaguarda e valorização patrimoniais são exponenciadas pela concepção e abertura de um novo museu. Mas regressemos às casas-museu.


Vamos a exemplos. O Museu Nacional de Arte Antiga (http://www.museudearteantiga.pt) está instalado (em parte) no antigo palácio dos Condes de Alvor, não é naturalmente uma casa-museu. O Museu de Artes Decorativas Portuguesas da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva (https://www.fress.pt/museu/um-projeto-original/), cujo acervo é composto essencialmente por colecções de arte e artes decorativas reunidas pelo colecionador que deu o nome à fundação, instalado no Palácio Azurara, no qual são recriados vários ambientes de época não é uma casa-museu. A Casa Fernando Pessoa (https://www.casafernandopessoa.pt/pt/cfp), que inclui uma das casas onde morou o poeta, objectos que a este pertenceram, evoca a sua memória e a sua obra literária e ainda assim não se trata de uma casa-museu. Nem pretende ser uma. É antes um museu de literatura. Neste caso será compreensível, em grande medida, a confusão, para o público em geral e até para um público mais conhecedor.


Uma casa-museu deve funcionar, basicamente, em torno de um triângulo: local/espaço arquitectónico; acervo/colecções; proprietário/personalidade. Numa primeira leitura a Casa Fernando Pessoa (CFP) reúne estes três vértices, preenchendo (aparentemente) as características para ser designada de casa-museu. Contudo, o espaço museológico da Rua Coelho da Rocha, no bairro lisboeta de Campo de Ourique, abrange mais do que o apartamento onde morou o escritor nos últimos quinze anos de vida, apresenta alguns objetos pessoais que lhe pertenceram, a sua memória e a sua obra são constantemente evocadas, mas não pretende ser uma casa-museu. Não apresenta, nem é esse o projeto cultural e museológico da instituição, no triângulo mencionado uma unidade dos três vértices através de critérios históricos de musealização do espaço, recriando com rigor historiográfico a habitação onde Fernando Pessoa viveu a sua última fase de vida. Pretende ser um museu de literatura, também um espaço de memória do escritor se quisermos, mas não necessariamente uma casa-museu. Como assume a própria CFP “uma exposição em três pisos, sobre a vida e obra do poeta e uma biblioteca especializada em poesia mundial. É um lugar de literatura que cruza memória, criação literária e leitura”. Uma eventual Casa-Museu Fernando Pessoa seria um outro projecto, para o qual não estão reunidas as condições que mencionei.


Da mesma forma que a Casa dos Bicos, na zona do Campo das Cebolas (também em Lisboa, perdoem-me por recorrer exclusivamente a exemplos lisboetas, realidade que me é mais próxima e familiar), no seu piso térreo apresenta um dos núcleos (arqueológico) do Museu de Lisboa (https://www.museudelisboa.pt/pt/nucleos/casa-dos-bicos) e no piso superior está instalada a Fundação José Saramago (https://www.josesaramago.org/) -escritor cujo centenário do nascimento, como é conhecido, se celebra este ano- não se reveste da denominação de Casa-Museu Saramago, e bem, por maioria de razão.


Em Lisboa, para não me desviar deste universo, temos casas-museu com as características adequadas para o ser, com propriedade e em rigor, sem querer ao fazer esta referência esquecer constrangimentos e limitações que, porventura, terão. Por exemplo, a Casa-Museu Amália Rodrigues (https://amaliarodrigues.pt/pt/casa-museu/) na Rua de São Bento, a Casa-Museu Anastácio Gonçalves (https://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/museus-e-monumentos/rede-portuguesa/m/casa-museu-dr-anastacio-goncalves/) na zona de Picoas, e outras que não o são na designação, mas acabam por sê-lo na essência e no conceito como o Palácio Nacional da Ajuda (https://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/museus-e-monumentos/dgpc/m/palacio-nacional-da-ajuda/), na sua ala museológica da antiga residência real e o Museu Medeiros e Almeida (https://www.museumedeirosealmeida.pt/museu/) na Rua Rosa Araújo.


É tempo de, com mais foco e uma determinação acrescida, pensarmos a Casa-Museu, as Casas-Museu, o seu papel na comunidade, as suas funções culturais e sociais, as suas potencialidades a vários níveis, o seu enquadramento no modelo de desenvolvimento sustentável que devemos ambicionar. Também promover-se projectos e viabilizar espaços que reúnam as características e possuam as potencialidades para o ser. É da construção da Memória e reforço de Identidade que estamos a falar.


Equacionar-se ainda as mais-valias do trabalho em rede, em múltiplas dimensões. Já aqui tenho chamado a atenção para a necessidade de uma revitalização da Rede Portuguesa de Museus, no último encontro (VI) de Museus de Países e Comunidades de Língua Portuguesa, em 2011 no Museu do Oriente em Lisboa, apresentei a proposta, sob a forma de poster e artigo para as actas, de “Rede museológica de Casas Históricas da CPLP” e agora, a vontade e o desejo de uma rede de casas-museu em Lisboa, articulando tutelas, missões, meios, recursos e atividades.


Aproveito para desejar à Associação Portuguesa de Casas-Museu os maiores sucessos na sua atividade, em particular no próximo encontro, nos dias 12 e 13 de dezembro, na Chamusca, sob o mote “Pensar as Casas-Museu”, com coordenação de Luísa Garcia Fernandes e do Nuno Prates.


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