Aceder ao passado colonial de um jardim botânico: as limitações do dualismo natureza/cultura


Sofia Lovegrove *


Debates acerca da forma como países europeus recordam (ou não) os seus passados coloniais, e iniciativas que procuram desafiar e mudar narrativas dominantes acerca destas histórias, têm aumentado significativamente nos últimos anos. Importante neste sentido é a realização crescente - desde há várias décadas impulsionada por ativistas - de que o colonialismo não faz inteiramente parte do passado, pois os seus efeitos ainda se fazem sentir no presente de muitas formas diferentes, por exemplo através do seu contributo para a atual crise climática e do racismo institucional.


Neste contexto, os museus têm estado sob cada vez mais pressão para examinar as suas ligações a estes passados, as narrativas das suas exposições, e as comunidades que estes alegam representar. Um desenvolvimento crucial tem sido um foco crescente na área de teoria da cultura em questões ligadas à representação. Isto é, na forma como determinadas significações são criadas, impostas e transmitidas no ato de exibição, e na perceção de que o conhecimento (a sua produção e disseminação) não é neutral, mas sim sempre situado (Macdonald 2006: 3).


Isto é particularmente saliente em museus de etnografia e antropologia criados em tempos coloniais, onde as histórias e práticas de aquisição, coleção e exposição de objetos estão hoje, em muitos contextos, a ser examinadas tendo em conta as ideias que estas procuravam transmitir acerca da suposta superioridade do Ocidente (a sua cultura, ciência e civilização), e tendo em conta o seu papel na produção e propagação da ideia de alteridade (Hicks 2020: 182). A investigação que tenho desenvolvido acerca de jardins botânicos insere-se nestes desenvolvimentos no campo da museologia. Este pequeno artigo partilha algumas das ideias que serão publicadas em breve de forma mais extensa.



Entender jardins botânicos como espaços museológicos tem sido útil na sua análise enquanto locais de produção e disseminação de narrativas e conhecimento. Através da minha investigação e de visitas a vários jardins botânicos - como o Jardim Botânico Tropical em Lisboa, o Kew Gardens em Londres ou o Hortus Botanicus em Amesterdão -, tenho verificado que estes são geralmente interpretados e apresentados aos visitantes como sendo atemporais, descontextualizados de processos históricos, em que os espécimes são descritos como fazendo parte do mundo natural, a partir da lente supostamente objetiva e universal da ciência. Talvez por essa razão, os jardins botânicos, assim como os jardins zoológicos e os museus de história natural, continuam frequentemente a escapar ao escrutínio pós-colonial ou decolonial (Gramlich & Kray 2020). No entanto, estes espaços - as suas histórias e a produção de conhecimento sobre o mundo natural - estão firmemente enraizados no passado colonial e na colonialidade do poder (Drieënhuizen & Borren 2022).



O caso do Jardim Botânico Tropical em Belém


Na minha investigação acerca do Jardim Botânico Tropical (JBT) da Universidade de Lisboa, procurei analisar que tipos de narrativas são produzidas neste espaço, tendo em conta a sua forte ligação ao passado colonial. Para tal, levei a cabo um estudo das múltiplas histórias deste jardim (sobretudo aquelas ligadas ao século XX), bem como uma análise das narrativas produzidas no presente, o que implicou examinar o espaço e as coleções do JBT, e o tipo de significados que lhes são atribuídas. No caso deste jardim, estes significados são atribuídos acima de tudo através de textos apresentados em placas informativas in situ e incluídos na aplicação móvel chamada JBT.


O JBT está localizado em Belém, num espaço que sofreu várias transformações ao longo do tempo. No século XVII, esta zona incluía quintas e palácios de membros da corte portuguesa. No início do século XVIII, D. João V comprou várias propriedades, incluindo o Palácio da Calheta e os terrenos que hoje correspondem ao JBT, onde criou o seu Hortus Regius Suburbanus. Estes permaneceram propriedade real até serem transferidos para o Ministério das Colónias, após o fim da monarquia em 1910 (Cardoso, 2012: 39-41).


Em 1906, foi estabelecida a criação de um Jardim Colonial através de um decreto régio, que visava reorganizar os serviços agrícolas coloniais. Este jardim tinha como objetivo permitir e sustentar o ensino, a investigação e a experimentação da agricultura tropical em contextos coloniais, e sobretudo nos domínios portugueses em África. De acordo com este decreto, ao desenvolver conhecimento sobre as “condições de explorabilidade das colónias”, seria possível estimular a produção agrícola nestes territórios, o que representava uma prioridade do governo colonial (MNMU 1906: 72). Inicialmente estabelecido noutra zona de Lisboa, o Jardim Colonial foi transferido em 1912 para Belém e inaugurado em 1914, no mesmo ano em que a estufa principal foi concluída (Gouveia 2021) (veja-se a segunda fotografia acima).



Até à data, e com algumas exceções (Gouveia 2021, Freire 2019 e Cardoso 2012) são poucos os trabalhos disponíveis acerca da história do Jardim Colonial. Mais conhecida é a história deste jardim durante a Exposição do Mundo Português em 1940, sobretudo através dos trabalhos de Patrícia Ferraz de Matos (2012 e 2014) e Cláudia Castelo (2021). Nesta altura, o jardim foi usado para a Secção Colonial desta Exposição do regime ditatorial de Salazar e incluiu, entre vários espaços expositivos sobre diferentes assuntos ligados às colónias, reproduções de “aldeias indígenas” (os chamados “zoos humanos”), onde homens, mulheres e crianças das então colónias portuguesas foram exibidas durante vários meses.


Depois do fim da ditadura em 1974, o JBT integrou o Instituto de Investigação Científica e Tropical (IICT) e, aquando da extinção desta instituição em 2015, passou para a Universidade de Lisboa. Entre alguns elementos mais antigos (como o Palácio da Calheta), o que se pode ver hoje no JBT são principalmente os seus elementos do século XX, como as plantas tropicais adicionadas sobretudo desde 1912, as estruturas de apoio ao ensino e estudo da flora de contextos tropicais (como as estufas), bem como edifícios, estátuas e outros elementos derivados da Exposição do Mundo Português. Foi sobretudo por esta razão, mas também por ser durante este século que o jardim e as políticas coloniais portuguesas se cruzaram de forma mais intensiva, que a minha análise se focou neste período da sua história e nos respetivos elementos que hoje fazem parte da sua coleção de elementos vivos e não-vivos.



Em 2019, a Universidade de Lisboa iniciou um grande projeto de reabilitação, devido em grande parte ao mau estado de conservação do JBT. Até então, nenhuma informação podia ser encontrada no jardim acerca das suas histórias. Talvez por essa razão, um dos objetivos deste projeto foi “implementar um sistema de sinalética que permita a clara identificação dos exemplares botânicos existentes e que forneça informação geral sobre o JBT e sua história”. Esta sinalética incluiu novas placas no JBT (como aquelas mostradas na fotografia acima) bem como a aplicação móvel já mencionada. Depois de vários meses de trabalho, o JBT reabriu ao público em 2020. Que histórias passaram a ser contadas desde então? E de que forma?


A minha investigação mostrou que as narrativas oficiais são caracterizadas por uma abordagem contrastante: enquanto que estátuas ou edifícios são integrados no novo Circuito Histórico e informação é partilhada - pela primeira vez - acerca das suas proveniências e usos, as plantas tropicais fazem parte do Circuito Botânico, cuja informação deriva acima de tudo das ciências naturais e dos princípios da nomenclatura botânica. Enquanto que nenhuma informação é apresentada acerca da história e das atividades do Jardim Colonial, as histórias ligadas à Exposição do Mundo Português, pelo contrário, passaram a ser contadas através de vários objetos como os bustos criados para esta exposição para retratar diversos “tipos” de pessoas das antigas colónias (veja-se a terceira fotografia acima), ou através de uma nova placa colocada numa ilha artificial do jardim (perto da entrada), onde esteve localizada uma das “aldeias indígenas” (ver fotografia abaixo).



O facto de que alguma informação - mesmo que limitada - seja agora apresentada acerca deste evento violento, representa uma mudança de narrativa em relação à situação antes de 2020, e mostra um esforço por parte daqueles responsáveis pelo JBT para abordar algumas das histórias coloniais deste espaço. Contudo, aquilo que a narrativa do Circuito Botânico dá a entender é que os elementos botânicos do jardim não são vistos como fazendo parte de determinados processos e desenvolvimentos históricos ligados a atividades humanas, e muito menos às políticas coloniais portuguesas.


Até certo ponto, este contraste pode ser explicado pelo facto de que o JBT, as suas histórias e coleções são interpretadas e apresentadas ao público seguindo uma lógica dualista - característica da tradição epistémica ocidental - que mantém uma separação entre a natureza e a cultura (ou humanidade). Ao inserir as plantas tropicais no Circuito Botânico, as histórias das atividades do Jardim Colonial mantêm-se inacessíveis. Mas estas são histórias muito importantes, não podendo ser dissociadas da questão da (sobre)exploração e extração de recursos naturais (bem como de património cultural), da desapropriação de terras e da imposição do trabalho forçado, que caracterizou muita da presença colonial em África (e outros contextos), portuguesa e não só. Estas histórias são também extremamente relevantes e atuais, não apenas por causa dos seus efeitos no passado, mas também por causa dos seus efeitos duradouros e nefastos no presente, como a atual crise climática. Uma melhor compreensão das complexas condições do presente requerem, por isso, acesso ao tipo de histórias contidas em espaços como o JBT. __________________________________________________________________________________________________



Referências


Cardoso, C. (2012). O Jardim Botânico Tropical / IICT e Seus Espaços Construídos: Uma Proposta de Reprogramação Funcional e Museológica Integrada. Tese de mestrado, Universidade de Lisboa.


Castelo, C. (2021). Simulação e Dissimulação do Império Colonial Português em Belém, Lisboa (1940/2020): a Secção Colonial e o Jardim Botânico Tropical. Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, 54.


Drieënhuizen C. & Borren, M. (2022). The Coloniality of Natural History Collections, Locus.


Freire, V. (2019). A Estufa Principal do Jardim Botânico Tropical História, Evolução e Importância da Estufa. Tese de Mestrado, Universidade de Lisboa.


Gouveia, A. G. (2021). Jardim Botânico Tropical. Re-Mapping Memories.


Gramlich, N. & Kray, K (2020). (Post-)Colonialism and the Botanical Gardens at Potsdam. Poco.lit.

Hicks, D. (2020). The Brutish Museums, Londres: Pluto Press.

Macdonald, S. (2006). Expanding Museum Studies: An Introduction, in: Macdonald, S. (ed.), A Companion to Museum Studies. Massachusetts, Oxford & Victoria: Blackwell.


Matos, P. F. de (2014). Power and Identity: the Exhibition of Human Beings in the Portuguese Great Exhibitions. Identities: Global Studies in Culture and Power, 21: 2.


Matos, P. F. de (2012). As “Côres” do Império: Representações Raciais no Império Colonial Português. Estudos e Investigações series, 41. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.


MNMU - Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar, Decreto de 25 de Janeiro de 1906 approvando a organização dos serviços agrícolas coloniaes constante das bases anexas ao mesmo decreto. Diário do Governo, 21 (27 Janeiro 1906).


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* Sofia Lovegrove é Programme Officer International Heritage Cooperation e Policy Officer Polyphony [SLP1] na Agência do Património Cultural dos Países Baixos. Como investigadora independente especializada em estudos críticos de património e memória cultural, a sua investigação foca-se no passado colonial e as suas durabilidades no presente, particularmente em relação à sua representação em museus, discursos de património, identidade e memória.


A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


Nota em relação às imagens:


Todas as fotografias à excepção da última foram tiradas pela autora em 2019 e 2020. A última fotografia é da autoria de Ana Godinho (2020).


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