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346+11= Gestão do Património Cultural


*Ana Martins

 

Era uma vez um país do sudoeste europeu, com um vasto Património Cultural que muitos desconhecem, outros não o veem e outros tropeçam nele. Os poucos que se interessam tentam fazer “reparações” para determinar quem exerce mais pressão sobre a responsabilidade social. E depois chamam a polícia e os políticos e no fim fica tudo na mesma, porque tarda o pluralismo da cidadania cultural. Mas… os loucos andam aí.


Em 2020, o restauro da réplica de um original do escultor Henrique Moreira, levada a cabo pela Universidade Portucalense, suscitou um novo estudo académico em torno do escultor avintense. O resultado reflete uma trama de argumentos qualitativos e quantitativos, que contribuem economicamente e socialmente para a valorização do património que lhe é intrínseco[1].             


“A última palavra sobre Henrique Moreira ainda não foi escrita”; um nome que comporta a evolução estilística da escultura nacional e cuja visão artística contribuiu para o desenho urbano do Porto, conferindo-lhe sua atual beleza ornamental. Apesar destes factos, o estudo identificou uma ausência de disseminação artística e histórica sobre o escultor, acarretando o desincentivo ao conhecimento público e científico do património inerente e consequentemente à sua subvalorização.


Os atuais dados de inventário do universo público e privado das obras do escultor, identificam nas cidades do Porto e Gaia, 346 e 11 obras respetivamente. As suas obras estão presentes em pontos turísticos, culturais e históricos de elevada importância patrimonial portuense, reforçando o seu título de “escultor do Porto”: o Teatro Municipal Rivoli, a Câmara Municipal do Porto, a Águia do McDonalds dos Aliados contribuindo para a sua referência mundial de um dos mais bonitos da cadeia de fast-food, o Teatro Nacional São João, a Avenida dos Aliados ou até o altar-mor da Igreja da Trindade.


Henrique Moreira elegeu a Casa do Ascensor dos Guindais para seu atelier, onde protegido pela Muralha Fernandina, aproximou-se categoricamente da consciência cultural e social portuense. Em 1977 a pretensão municipal de criar uma casa-museu em reconhecimento ao “seu” escultor já era uma realidade. Entretanto, na Assembleia da República, em fevereiro de 1982, 3 anos após o falecimento do escultor, ainda se discutiam os motivos pelos quais o projeto não havia sido concretizado.


Com a sua morte e considerando que a morada do atelier dependia de um arrendatário, tudo o que até então o ocupava e não fora salvo pela aturada postura familiar, foi alvo de um despojado descontrolo. A partir deste facto potencializou-se uma incalculável perda patrimonial material e imaterial, gerada pela inexistência de políticas de gestão e de combate à potencialidade do desaparecimento do património cultural. Face às novas políticas recentemente apresentadas pelo Ministro da Cultura, será este um dos “erros do passado”? Quanto mais valor económico e social será perdido até que iniciem a reparação da democratização da cultura e da democracia cultural?

 

[1] “A obra de Henrique Moreira no Porto e em Gaia: proposta de uma metodologia de valorização para a conservação”.


_______________________________________________________________________________ *Licenciada em Economia e durante 16 anos profissionalmente dividida entre a banca, gestão comercial, financeira, logistica e operativa. Desde 2022 mestre em Património Artístico Conservação e Restauro pela Universidade Portucalense e com forte convicção de que o próximo passo será o Doutoramento.

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