BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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A actualidade do património cultural em Portugal

Um projecto

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In Utero

Atualizado: 6 de Set de 2019


«É a hora!». Pessoa fechava assim a Mensagem e nós já não éramos nada daquilo. Claro que Pessoa o sabia: o Mundo e a Literatura não são irmãos e a promiscuidade engagé do Roman à thèse, salvo reluzentes excepções, mata a cria in utero. Não éramos aquilo. Éramos já os parentes pobres de brasileiros tios, primas espanholas e quejandas madrinhas que cheiravam muito melhor do que nós e não tinham que usar cotoveleiras a esconder as puídas sarjas dos casacos de domingo. Em 1934 Pessoa fuzilava a cria sem dolo, já que qualquer via colectiva para o Quinto Império se lançara ao Tejo em 1799 e se fora afogando entre 1807 e 1810. Portugal enquanto média potência internacional com balança comercial positiva, uma frota naval digna e firmeza de voz no Mundo tinha esvaziado os bolsos durante essa década que nos empurrou para a contemporaneidade. Até hoje.

«Temos muitos dos nossos entre os maiores», diria alguém. É bem verdade: Paula Rego, pintora inglesa, Vieira da Silva, francesa, e o nobel da literatura espanhol Saramago. Também não será menos verdade que se Amadeu, Almada ou mesmo Pessoa tivessem nascido em Badajoz seriam por certo figuras universais. Não o são. Como Picasso, Dali ou Lorca não o são. São portugueses. E os portugueses cumprimentam envergonhados as suas madrinhas com os chapéus sobraçados contra o estômago a compor a vénia.

Na generalidade dos países civilizados (refiro-me ao nosso padrão eurocêntrico) a Cultura é um bem precioso, objecto de investimentos públicos e privados, apoio e exportação. Toda a gente, mesmo que o não saiba, conhece Guernica, Bovary ou O Acossado. Se num aeroporto estrangeiro perguntarmos pela Mãe por A Cidade e as Serras ou pelo Belarmino talvez só algum bibliotecário de Bellevue Hospital em trânsito nos sorria.

Na verdade, este pessimismo é do tamanho do que vejo. Porém apaziguado pelo brilho de toda a arte com que a Mátria nos consola. É numa jangada à vista da praia que acenamos, voltando à Mensagem de Pessoa: «A Europa jaz, posta nos cotovelos (…) O rosto com que fita é Portugal». É mentira.