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Conjunto de Obras Arquitectónicas de Álvaro Siza


Álvaro Siza tinha apenas 21 anos quando foi contratado por Manuel Neto para projectar uma habitação para si e para os seus familiares. Corria o ano de 1954 e o jovem tinha ainda o curso de arquitectura incompleto e nenhuma experiência.

As quatro moradias de Matosinhos, terminadas em 1957, foram então apelidadas de “casinhotos” num texto publicado no jornal Comércio do Porto, que salientava o desfile que se fazia em Matosinhos para ver as novas habitações da Avenida D. Afonso Henriques. O jornalista questionava “terá desaparecido o bom senso de gente que tem o dever de velar pela estética da vila e evitar atentados arquitectónicos como esse”.

4 Casas em Matosinhos

O projecto seguinte, uma casa para um tio da sua mãe, foi apelidada de “vacaria”, e a meio da sua obra para o Centro Paroquial de Matosinhos foi despedido por não concordância com uma modificação de programa.

Hoje considerado um dos principais arquitectos da actualidade, agraciado com prémios e distinções que culminaram com o Pritzker Architecture Prize em 1992, os “casinhotos” e a “vacaria” tornaram-se ponto de visita obrigatório para estudantes e entusiastas de arquitectura de todo o mundo, que chegam à região do Porto à procura de contacto com as suas obras.

Álvaro Siza Vieira nasceu a 25 de Junho de 1933 em Matosinhos e estudou na Escola Superior de Belas-Artes do Porto entre 1949 e 1955, onde ingressou em arquitectura. Foi contrariado que o fez, mas motivado pelo interesse que tinha em desenho, e pelo gosto por pintura e escultura, interesses desenvolvidos nas viagens em família, porém, opções profissionais mal vistas pelo seu pai. Na verdade, desde muito cedo que fazia desenhos ao colo de um tio, e este interesse vai-se manter enquanto uma constante em toda a sua obra “Desenho é projecto, desejo, libertação, registo e forma de comunicar, dúvida e descoberta, reflexo e criação, gesto contido e utopia.”

A entrada em Belas-Artes trazia agregada a ideia de uma posterior mudança para o curso de escultura, no entanto apanhou um período de renovação na faculdade, onde o director Carlos Relvas criava uma nova equipa na qual integrava arquitectos novos e com grande interesse pela modernidade, entre os quais Fernando Távora, membro do CIAM (Congresso Internacional de Arquitectura Moderna), seu professor e mestre, e com quem viria a colaborar após terminar o curso. Uma dessas colaborações resultou na icónica obra da Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, o restaurante construído ao pé da praia, sobre as rochas, com o mar em fundo "A formação rochosa da primeira permitiu a Siza potenciar o alcance marítimo e desobstruir as visões que contemplam o horizonte do mesmo."

Casa de Chá da Boa Nova em Leça da Palmeira

O projecto para as piscinas de Leça da Palmeira segue-se imediatamente à Casa de Chá da Boa Nova. As Piscinas das Marés são um conjunto de piscinas de água salgada e constituem mais um exemplo de sua cuidadosa reconciliação entre a natureza e o design, preservando e integrando uma grande parte das formações rochosas existentes. Localizadas entre o Oceano Atlântico e a estrada litoral, mas posicionadas quase completamente fora da vista, Siza afunda a infraestrutura atrás da estrada, promovendo uma desconexão entre as piscinas e a cidade.

Piscina das Marés em Leça da Palmeira

Ligado ao Grupo da Escola do Porto, com quem cooperou entre 1955 e 1958, e de quem nunca se viria a desvincular totalmente, Siza foi ainda Professor Assistente de "Construção" de 1966 a 1969, trabalhando activamente no fomento da práticas criativas na cidade Invicta.

A Revolução de 1974 viria abrir novas possibilidades criativas e hipóteses construtivas, marcando uma nova fase de revitalização arquitectónica e espacial na cidade do Porto. Em 1977 surge o convite da Câmara Municipal de Évora para uma série de construções habitacionais na zona rural cidade, e que se incluiu no plano SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local). Neste, foram erigidas mais de mil casas, todas elas com pátios e desenvolvidas com custos baixos, rentabilizando ao máximo as potencialidades dos espaços nacionais.

As suas obras em Portugal incluem a Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP, 1986 -1993); a Escola Superior de Educação de Setúbal (1986 – 1994); a Igreja de Santa Maria, em Marco de Canaveses (1990-1996); o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto (1997); as instalações da Expo’98, em Lisboa, projectadas em parceria com Souto de Moura; Estação do metro Baixa/Chiado, Lisboa (1992 – 1998); a Requalificação do Vidago Palace Hotel, Chaves (2012); o Atelier-Museu Júlio Pomar, Lisboa (2013); ou os Terraços do Carmo, Lisboa (2015).

Museu de Arte Contemporânea de Serralves no Porto

Igreja de Santa Maria em Marco de Canaveses

Álvaro Siza Vieira trilhou um caminho único e identitário nas lides da concepção e da construção, assumindo uma perspectiva modernista e vanguardista, constatável nas suas formas e sentidos arquitectónicos, nas quais não descurava as tradições portuguesas. O seu registo tornou-se conhecido como “modernismo poético”, colaborando em ensaios onde exprimiu essa ideologia muito própria, e onde frisou também a influência do mexicano Luis Barragán naquilo que é o virtuosismo conceptual e formal deste.

O seu impressionante currículo leva-o a participar em inúmeros seminários e conferências, assumindo funções de docente na University of Pennsylvania, em Harvard; na Universad de Los Andes, na Colômbia; ou ainda na Université de Lausanne, na Suíça.

Em termos honoríficos, e para além do Prémio Pritzker que recebeu em 1992 pelas obras de reconstrução do Chiado, foi homenageado na Harvard Graduate School of Design, pelo arquitecto espanhol Rafael Moneo, recebeu o inaugural Mies van der Rohe Award for European Architecture, a Alvar Aalto Medal (ambos em 1988), o Prémio Nacional de Arquitectura (1993), o Wolf Prize in Arts (2001), um Leão de Ouro na Bienal de Arquitectura em Veneza (2002), um outro leão, relativo à sua carreira, no ano de 2013, a Royal Gold Medal (2009), e a UIA Gold Medal (2011, atribuída trianualmente, por parte da International Union of Architects).

Convidado para inúmeros seminários e conferências pelo globo, tornou-se também Doutor Honoris Causa numa série de instituições académicas, incluindo as Universidades de Palermo, de Coimbra, de Nápoles, de Paraíba, de Pavia, e as politécnicas de Valencia e de Lausanne. Para além destas honras, tornou-se membro de várias agregações formais de artistas, como a American Academy of Arts and Sciences, a American Institute of Architects, a Royal Institute of British Architects, ou a European Academy of Sciences and Arts. Recebeu ainda o Colar da Ordem Militar de Sant’Iago de Espada (1992), e da Ordem do Infante D. Henrique (1999) – prevendo-se a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública para este ano – , destinados a condecorar méritos culturais e a expansão cultural do país dentro e fora do país.

Em entrevista ao Expresso, Siza definia assim arquitectura “Há muitas arquitecturas. A primeira coisa é que arquitectura é o que não é só construção. Há uma resposta material que pode ser eficaz desse ponto de vista, mas a arquitectura na minha perspetiva vai para lá do material. Há uma parte espiritual, se quiser, que não se satisfaz só com a construção. Nas cidades, construção vê-se muita. Arquitectura, não se vê tanta. Depende também da época. A arquitetura ultrapassa a simples resposta em termos materiais e de conforto material. E, sobretudo, cumpre a sua função maior quando não é uma actividade individual.”

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BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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