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Fortalezas Abaluartadas da Raia Luso-Espanhola


As Fortalezas Abaluartadas da Raia Luso-Espanhola, mais concretamente as dos municípios de Almeida, Marvão e Valença, às quais posteriormente se associou Elvas, integram actualmente a Lista Indicativa de Portugal enquanto candidatas à classificação como Património Mundial da UNESCO.

As fotografias destas fortificações despertam, de forma inegável, a nossa atenção, pela introdução de um efeito diferenciador na paisagem, distinto dos comuns castelos e fortalezas medievais, marcadas agora pela geometria das construções, muitas em formato de estrela, cuja beleza não passa despercebida. A beleza estava, no entanto, longe de ser o intuito destas construções militares "Se porventura acreditastes que os fazem assim para parecer mais belo, estais enganados porque, onde é necessária a robustez, não se liga à beleza" defendia já Maquiavel no seu livro A Arte de Fortificar. De facto, estas construções pretendiam sim ser eficazes na defesa contra os ataques externos que de estes locais eram alvo, procurando-se robustez e refúgio contra o inimigo, e ainda capacidade para o combater.

Foi durante o período moderno que este tipo de fortificação de defesa abaluartada, ou seja, dotadas de baluarte, se estabeleceu na Europa, como resposta ao desenvolvimento das técnicas militares e da artilharia móvel, que tornou ineficaz o sistema tradicional de defesa então utilizado, caracterizado por muralhas altas, quase perpendiculares ao solo e relativamente pouco espessas, e obrigou à sua transformação e a novas respostas bélicas.

Também denominada de traçado italiano, fortificação em estrela ou fortificação à moderna, estas novas estruturas passam então a ser mais baixas, havendo um aumento na espessura das muralhas e uma substituição das torres de planta quadrada ou com ângulos facilmente danificáveis por torres redondas, criando-se terraplenos exteriores às muralhas.

Fortaleza de Valença

Estas novas necessidades militares impulsionaram o desenvolvimento de estratégias arquitectónicas diferenciadas, seguindo uma geometria rígida, com os projectos e a sua construção no terreno a obrigarem a uma máxima precisão. Surgiram então personalidades que começaram a teorizar e a conceber novos tipos de fortificações, dispondo engenhosamente os panos de muralha e os baluartes da fortificação, com base numa geometria intricada, raramente aplicada a outras formas de desenho arquitectónico e desenvolveram-se consequentemente Tratados sobre a arte de fortificar, com destaque para as Escolas italiana, francesa e holandesa.

Importa destacar estudiosos como Vauban ou Leonardo Da Vinci, cujos desenhos assentavam na trigonometria dinâmica, maximizando as linhas de fogo a partir dos baluartes e criando ângulos estratégicos. Nesta matéria, também se destacou Filippo Brunelleschi, com o projecto do proto-baluarte da fortaleza de Vicopisano.

A influência da Escola Italiana nas fortificações portuguesas é notória durante todo o século XVI. A Torre de Belém, de Francisco de Arruda, terá sido inspirada em Francesco di Giorgio Martini, cujos escritos e desenhos que circulavam parecem ter influenciado a sua construção. As obras militares da primeira metade daquela centúria – castelo de Evoramonte, de Vila Viçosa e de Évora, revelam igual influência, bem como muitas das fortificações da segunda metade do mesmo século. Essa influência surge do ducado de Urbino, onde trabalharam engenheiros desta Escola, como Garcia de Bolonha, que veio a Portugal em 1528, Martinegro, em 1529, e de portugueses como Duarte Coelho, que esteve muito tempo em Itália. No reinado de D. Filipe I, entre 1580 e 1598, chegaram a Portugal engenheiros italianos, tais como Leonardo Turriano, Giovanni Vicenzo Casale, Alexandre Massai (7), Giovanni Battista Cairate, Giovan Giacomo Palearo Fratino e Tiburzio Spannocchi, que projectaram e trabalharam nas fortificações que o monarca mandou construir perante a ameaça inglesa.

Já durante o século XVII, com a Guerra da Restauração (1640-1668) houve um esforço significativo da Coroa portuguesa na modernização das fortificações raianas já existentes, na designada fronteira seca, dado que com o seu número e extensão, a sua substituição completa teria sido muito custosa, num processo onde estiveram envolvidos muitos mestres e engenheiros militares estrangeiros. Assim, neste período, as fronteiras portuguesas terrestres portuguesas encheram-se de fortificações deste tipo, de Castro Marim a Valença do Minho, de Arronches ou Monforte a Almeida e a Chaves.

Fortaleza de Almeida

O Alentejo beneficiou particularmente da influência de engenheiros militares estrangeiros, nomeadamente de nacionalidade holandesa e francesa, com o intuito de defender uma das mais importantes entradas naturais em território nacional. O complexo sistema fortificado de Almeida constitui, juntamente com Elvas e Valença, um dos mais impressionantes sistemas defensivos da fronteira terrestre, tendo sido fundamentais para o processo de recuperação da autonomia portuguesa.

A praça forte de Elvas, por exemplo, é composto pelas muralhas e pelos fortes de Santa Luzia e da Graça, que tornam a cidade a maior fortaleza abaluartada terrestre do mundo, e o melhor exemplo da arquitectura militar holandesa, num perímetro fortificado de oito a dez quilómetros. Foi por isso uma das mais importantes linhas de defesa da nação, resistentes às várias investidas exteriores de entrada em território nacional. A arquitectura da muralha permite que não haja nenhum ângulo morto e todo o terreno possa ser varrido pelas bocas de fogo da defesa. Esta é a principal caraterística das muralhas abaluartadas, na qual os atacantes serão sempre postos à prova pelo fogo de artilharia defensivo, onde quer que se encontrem. Por outro lado, o ângulo com que a muralha é construída, atenua o impacto dos projécteis inimigos.

As muralhas de Elvas dominam a paisagem da planície. Durante séculos foi sendo ali construída uma fortaleza inexpugnável, que a defendesse dos ataques fronteiriços dos vizinhos castelhanos e, ao mesmo tempo, garantisse a independência de Portugal.

As primeiras fortificações com alguma projecção e dimensão são do tempo dos romanos. Mais tarde, os muçulmanos edificaram um castelo numa das colinas, que será conquistado em 1226, no reinado de Sancho II, passando Elvas a ser uma vila inteiramente portuguesa.

O castelo foi logo reedificado, as muralhas remodeladas e acrescentadas pelos sucessivos reis: foram abertas portas, levantados torreões, construída uma torre de menagem sem igual. D. Fernando, que se encontrava em constantes guerras com Castela, viu-se obrigado a construir uma terceira cintura defensiva de muralhas. Entre a defesa e o ataque, a vila, elevada a cidade em 1513, ganhava importância estratégica e uma identidade militar. Com a crise de 1580, foi entregue aos espanhóis a troco de dinheiro distribuído por Filipe II. Algumas décadas depois, com obras de melhoramento realizadas entretanto no seu perímetro defensivo, o resgate fez-se pagar com sangue.

O Forte de Santa Luzia foi construído entre 1643 e 1648, no âmbito da guerra da Restauração, com projecto do holandês João Paschasio Cosmander e pelo engenheiro francês Jean Gilot, que depois de vários projectos e de um início de construção conturbado, não seguindo uma escola de fortificação específica, mas introduzindo características inovadoras que o singularizam e que antecipam o sistema definido pelo Conde de Pagan (1645).

Pouco depois acabou por ser redesenhado, com planta em estrela, por Sebastião Frias, e novamente alterado, no ano seguinte, para "forte real", com projecto do engenheiro Jeronymo Rozett. O seu traçado polémico e o desacordo entre os engenheiros, leva o rei, em 1643, a formar uma junta composta por Cosmander, João Ballesteros, Lassart e Rozetti, dando a Cosmander e a Jean Gilot o poder decisório. Estes optam por uma "fortificação externa" ou obra avançada da praça, destinada a defender a sua frente sul, a mais vulnerável a um ataque inimigo. Apesar de a construção decorrer em paralelo com a fortificação da cidade e do envolvimento dos mesmos engenheiros, não se optou pelo Primeiro Método Holandês de Fortificação, abdicando-se de uma possível regularidade geométrica em prol da obtenção de maior poderio e funcionalidade militar, associado à necessidade de rapidez na construção causada pela pressão da guerra. Assim, o Forte de Santa Luzia, com traçado abaluartado, foi construído para melhor defender os lados mais propícios a ataques inimigos, com os ângulos de flanco obtusos e a linha de defesa rasante, fazendo um ângulo de 90º com os flancos dos baluartes e sem flancos secundários, nem canhoneiras nas cortinas.

Assim, as guerras de fronteira que se seguiram à Restauração, em 1640, puseram à prova a resistência raiana, com a muralha da cidade e o forte de Santa Luzia como as principais defesas da cidade, com Badajoz a apenas 8 quilómetros. Foi então que a 14 de janeiro de 1659 se dá aquela que ficou conhecida como a Batalha das Linhas de Elvas. A cidade foi cercada por um exército de 12.000 infantes e 3.500 cavaleiros comandados por D. Luis de Haro. Dentro de muralhas, Elvas era defendida por 20.000 homens e 20 bocas de fogo. Se caísse, ficava aberto o caminho para Lisboa e o sonho de independência morria menos de 20 anos depois da aclamação de D. João IV como rei de Portugal. A história é conhecida. Os portugueses rechaçaram o exército castelhano.

Apenas no século XX, mais concretamente em 1947 é construído o primeiro edifício fora do perímetro fortificado.

Forte de Santa Luzia

As Fortalezas Abaluartadas foram estruturas defensivas de guerra que, nos últimos séculos, se transformaram em monumentos de paz e em espaços únicos de história, de cultura e de relação e vivência humanas. Os seus modelos arquitectónicos reflectem, nos momentos das suas construções, inovação e soluções únicas, adaptadas a estruturas amuralhadas, construídas no decurso do tempo, sobretudo a partir do século XII, e à geomorfologia do terreno de cada sítio.

O sistema Defensivo das Fortalezas Abaluartadas da Raia Luso-Espanhola, a cultura raiana e a sua localização num espaço que confina uma das linhas de fronteira mais antigas do mundo, é único à escala mundial, apresentando com um carácter de excepcionalidade, potenciador da conservação deste legado patrimonial e dinamizador da cultura e do turismo pelo facto de integrar exemplares únicos da arquitectura militar dos séculos XVII e XVIII, a par do valor intangível da paz e do relacionamento entre os povos.

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BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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