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Miúdos no Património, já.

Atualizado: 13 de Set de 2019


Em 2007, propositadamente, criámos a Spira no Dia da Criança: trabalhando nós somente com património, pareceu-nos evidente que o futuro estava nelas, na nossa capacidade de as maravilhar, de as convencer “que o património é fixe, bolas!”, na capacidade de gerarmos “fãs”, no prazer de virmos a ter crianças desejando trabalhar nesta área como tantas desejam hoje ser futebolistas, totalmente satisfeitas com o retorno que esta actividade lhes pudesse trazer, totalmente empenhadas na preservação, valorização e disponibilização de uma herança que pertence a todos e que deveria unir, pelos menos, todos os portugueses.

Estes 8 anos da Spira celebrados no Dia da Criança são assim o nosso pretexto para a partilha de uma visão sobre o potencial e a imperativa necessidade de um “simpaticamente revolucionário” programa de educação patrimonial em Portugal: a forma como as crianças e os jovens percepcionam o património é absolutamente decisiva na sua formação de interesses pela área patrimonial e cultural na idade adulta, e na sua predisposição e aptência para investir, de diferentes formas, nesta que é uma fileira com um elevado potencial sócio-económico ainda por explorar no nosso país.

De facto, existem jovens cidadãos do nosso país que, por privilégio social, económico ou educacional, vivem a dimensão da Cultura como se fôra parte integrante da sua existência: desconhecem o que é não ler um pouco todos os dias, seguir as dinâmicas criativas do local onde vivem, questionar o mundo em redor, imaginar o futuro.

Para esses, a Escola é um complemento que pode reforçar esse estímulo familiar ou deixá-lo adormecer à medida que a imensa plêiade de outros interesses e atracções surge durante o processo de crescimento de cada uma destas crianças.

Significa isto que, mesmo para os privilegiados, a Escola desempenha um papel fundamental na consolidação destes interesses culturais. Imagine-se assim o poder desta instituição para aquela que é a imensa maioria de jovens vivendo totalmente alheada deste mundo dito “daquilo que não é essencial”, mas que contribui afinal para uma existência tão mais plena e harmoniosa, tanto individual como colectivamente.

É neste campo da Cultura a do seu directo contributo para uma cidadania mais completa que a educação patrimonial se situa. Entendemos a dimensão patrimonial num sentido amplo: tudo aquilo que marca a nossa identidade enquanto país, enquanto cultura diferenciada, seja património edificado, gastronómico ou imaterial. Sublinhe-se ainda que não valorizamos somente os recursos, as matérias físicas propriamente ditas: interessa-nos igualmente o seu conceito, a sua razão de ser, a sua problematizacão.

Importa de facto, em matéria de Educação Patrimonial, instigar as crianças a “perguntar”. A “questionar-se”. A descobrir o que é a “diversidade”, tanto nas coisas como nas pessoas, compreendendo consequentemente o conceito de “pertença” ou, num discurso de matriz mais filosófica, de “Humanidade”: as criancas e os jovens pertencem de facto a um legado comum que é peca-chave na garantia da construcão de um futuro melhor. A Educação Patrimonial é a crença que é́ possível transmitir às crianças e aos jovens a dimensão profundamente instrutiva associada ao património, seja ele edificado, imaterial, natural, científico, artístico ou literário... No fundo, a tudo aquilo que caracteriza a identidade de um país e, consequentemente, o diferencia dos outros.

A Educação Patrimonialtem assim por objectivo estabelecer uma ponte sólida entre as criancas, os jovens e o património cultural herdado. O adjectivo “sólido” reporta não somente à construcão desta relacão mas, também, à sua sustentabilidade futura: importa que perdure, que seja regular, que seja partilhada, que cresca com disponibilidade para novos usufrutos, roupagens e utilizadores – “On ne connait que les choses que l’on apprivoise” nas palavras do Petit Prince de Saint-Exupéry.

Para uma vivência democrática desta herança comum, é forçoso que a Escola assuma este papel como sendo seu – já que é o único espaço e ferramenta de obtenção de mais conhecimento, garantida e obrigatoriamente transversal a todos os jovens cidadãos.

É exactamente esta interiorização da importância do contexto escolar para a difusão de práticas de cultura directamente conducentes a uma cidadania com mais qualidade que países europeus como a Franca ou a Espanha consideram já a Educação Patrimonial um elemento fundamental na formacão artística e cultural dos alunos.

No caso francês, uma integracão tutelada com base numa parceria entre o Ministério de Educacão Nacional e o Ministério da Cultura e da Comunicacão, alia a Educacão para o Património ao ensino da Arte e à exploracão da História como áreas de referência. Já em Espanha, foi desenhado um Plano Nacional de Educação Patrimonial pelo Ministério da Educação, da Cultura e do Desporto originando inclusivé a criação de um Observatório da Educação Patrimonial naquele país. Outros países não europeus, sobretudo o Brasil, desenvolvem trabalho neste domínio há largos anos, procurando através de projectos de baixo custo de investimento, obter forte retorno tanto na qualidade da vivência em comunidade, como na melhor preservação dos recursos herdados.

Tendo presente as características de Portugal em matéria de quantidade e qualidade dos recursos patrimoniais herdados, as imensas necessidades de construção de estratégias de preservação deste legado da forma mais sustentável possível, reforçando o quanto uma identidade forte, orgulhosa, crítica é contributo directo para um desenvolvimento mais sólido tanto a nível social, como económico de uma comunidade, importa apenas perguntar: porque não tem Portugal um Plano de Educação Patrimonial?

Catarina Valença Gonçalves

BIBLIOGRAFIA

BORGES, Simone Pereira Taguchi et al, “Educação Patrimonial como forma de Educação Informal: Uma reflexão” in Revista Práxis, Ano I, no 2, Agosto 2009.

Currículo Nacional do Ensino Básico. Competências Específicas. História, Direccão Geral de Inovacão e Desenvolvimento Curricular, Ministério da Educacão.

Currículo Nacional do Ensino Básico – Competências Essenciais, Direccão Geral de Inovacão e Desenvolvimento Curricular, Ministério da Educacão.

Manual Diretrizes para a Educacão Patrimonial, Instituto Estadual do Património Histórico e Artístico de Minas Gerais, Governo de Minas Gerais e Secretaria de Estado de Cultura, 2009.

“Mise en œuvre du plan pour l'éducation artistisque et l'action culturelle à l'école. Chartes pour une éducation au patrimoine. Adopter son patrimoine", Bulletin Oficciel du Ministère de l’Éducation Nacionale, n° 18 du 2 mai 2002.

Plan Nacional de Educación y Patrimonio, Ministerio de Educación, Cultura y Deporte, a través del Instituto del Patrimonio Cultural de España, 2010.

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