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A torneira fechou. O mundo parou?


Durante anos e anos, o Estado foi política, financeira e logisticamente responsável pela conservação, recuperação e animação do património nacional.

Criou estruturas, formou e contratou pessoal para o fazer. E agora, que a convenção do dinheiro nos tirou o tapete, que podem fazer? Pouco, ou nada. Mínimos vitais. Apenas existir. Sem meios para prosseguir a acção para que em primeiro lugar foram chamados a existir.

E todos os outros, nós, as pessoas, as empresas, os negócios, que alimentam e se alimentam do património, criado e por criar, o que podemos fazer?

Com o investimento público estagnado, com o poder de compra dos cidadãos abatido, como vamos sobreviver? Como vamos encontrar os meios para promover, animar, construir o património português?

Porque o Godot não vai chegar, e entre o atordoamento, desnorte e descrença reinantes, vamos ter que o fazer. Só não estamos bem a ver como.

Para onde deveremos direccionar o nosso esforço, energia, conhecimento, convicção, procurando a fortuna de que tanto precisamos?

Procurar os nichos de mercado que funcionam, apurar a segmentação dos públicos? Certo. Mas não só na sua captação como espectadores, ou consumidores. Antes como participantes. Procurando um espaço comum, entre as leis de mercado, as regras do Estado e as relações sociais. Um espaço em que a(s) comunidade(s) se apropriem do seu património, criando em conjunto novos projectos, que façam sentido para si, no caso concreto. Que aí sim, cuidem, transformem, criem a nossa história comum.

Procurar novos mercados? Claro.

Património também viaja. O que temos nós que nos diferencie em qualquer outro ponto do mundo? Pessoa, Saramago, Siza, Souto Moura, Sarmento, Cabrita, Camané, Dead Combo, Arraiolos, Azulejo, Calçada, podia fazer aqui páginas de exercício.

Que podemos exportar que seja universal e português ao mesmo tempo? Num mundo tão grande, cada vez mais pequeno, como podemos ser pertinentes, interessantes? E como nos propomos?

O Estado parou. Nós não podemos. Viramos caixeiros-viajantes, integramos redes, procuramos comunidades.

280 milhões de falantes de português. Entre a familiaridade, a curiosidade e a estranheza. Muito diferentes entre si. 4 a 5 milhões de emigrantes, saudosos e ávidos. Vamos ter com eles. Vai demorar a dar frutos. Mas por isso mesmo tem que começar já.

E não estou a falar de emigrar, proposta que encolhe os ombros aos problemas que temos. Falo de internacionalizar projectos, negócios, parcerias. Sair da casca, que o mercado global não é cliché.

Novos mercados cá dentro? 14 milhões de turistas no ano passado. Estamos a conseguir proporcionar-lhes a melhor visita possível? A criar experiências memoráveis? A ensinar na diversão? A sermos totalmente genuínos e originais nas nossas propostas?

Enfim, caminhos que a todos nos ocorrem. Nada refiro que não seja óbvio. Mas é na acção que se determinará se estes são rumos a seguir ou não. E corrigi-los, afiná-los. De nada valem estas ideias ou outras se não forem seguidas de passos concretos.

Os tempos exigem-nos criatividade, coragem, perseverança. Já.

Casa das Histórias Paula Rego, Museu projectado por Eduardo Souto Moura, vencedor da mais recente distinção do Prémio Wolf (Imagem retirada de http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Casa_das_Historias_Souto_Moura_1.jpg)

Dead Combo, banda constituída por Tó Trips e Pedro Gonçalves, com influencias do Fado ao Rock. Imagem do álbum Lisboa Mulata, de 2011

José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998 (Imagem retirada de http://cduarouca.wordpress.com/2010/06/18/sobre-o-falecimento-de-jose-saramago/)

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OPINIÃO

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