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Considerações sobre Ciência e Património


Tendo em consideração a crise financeira e económica mundial que o mundo está enfrentando, a protecção e valorização do Património Cultural aparece como baixa prioridade na lista do investimento publico nacional e transnacional. No entanto, desde a Declaração de Helsínquia, em 1996, tornou-se bem compreendida a dimensão política e social da conservação e investigação patrimonial e do papel do património cultural no desenvolvimento sustentável, nomeadamente no que diz respeito ao seu acesso, autenticidade e diversidade.

A importância do Património Cultural é maior quando a estrutura industrial e económica é fraca, o que é o caso de várias regiões periféricas ou rurais da União Europeia, incluindo uma grande área de Portugal. Paradoxalmente, a falta de recursos financeiros para a sua modernização foi um factor de protecção que permitiu a preservação e a autenticidade de expressões únicas de património cultural material e imaterial que podem ser recursos fundamentais de enorme interesse e potencial no âmbito de novas políticas de desenvolvimento. É fundamental preservar e valorizar esse legado, sublinhando o seu papel na identidade cultural da Europa e, como base para actividades económicas e inovadoras. Neste sentido, é de extrema importância o reforço do potencial científico e tecnológico no domínio do património cultural e do desenvolvimento e implementação de estratégias integradas para a valorização e promoção deste património.

Além disso, a valorização e preservação do património cultural é igualmente uma questão de investigação científica. Neste sentido, a proposta de decisão do Conselho Europeu (COM (2001) 94 - C5-0087/2001 - 2001/0053 (COD)) argumenta que o princípio do desenvolvimento sustentável exige a concepção, desenvolvimento e revitalização da investigação e divulgação de tecnologias que garantam a conservação e uso mais racional dos recursos naturais e do património histórico e cultural, enquanto recursos não renováveis. Nas duas últimas décadas, vários projectos e redes financiados pela União Europeia através dos sucessivos Programas-Quadro (Climate for Culture; IMPACT; ENVIART; Memori, MIMIC; SMooHS; Eu-Artech; CHARISMA, etc) foram desenvolvidos em torno da relação entre os bens patrimoniais e os factores climáticos e factores ambientais de risco na busca de novas tecnologias para a sua conservação e monitorização. Não surpreende portanto, ver a criação de novas ferramentas de diagnóstico e monitorização, utilizando novas tecnologias de prospecção remota ou instrumentos não-invasivos de análise físico-química, o que incentivou o desenvolvimento de novas abordagens integradas para o estudo de materiais e dos seus fenómenos de degradação. Estas abordagens têm permitido compreender melhor a história desses objectos, mas também uma escolha racional dos melhores tratamentos de conservação e restauro ou de medidas preventivas para a criação de condições adequadas para a sua preservação.

Estas avançadas tecnologias exigem um elevado investimento em instrumentação, investigadores especializados, intenso trabalho de campo e laboratorial e tempo de processamento e interpretação de dados. Todas essas condições tornam difícil para as instituições públicas ou empresas privadas de reunir os recursos necessários para o fazer individualmente. As actuais restrições orçamentais impostas e a falta de renovação de quadros em instituições do Estado implicam que se pense numa lógica de processo cooperativo de acção na área das Ciências do Património, que contemple: - a criação de uma rede científica ou “cluster” do património cultural que congregue várias instituições que desenvolvem investigação e actividade nesta área permitindo a partilha de recursos humanos e analíticos, a partilha de conhecimento e experiência e com capacidade para participar em programas e desenvolver projectos em rede internacionais, designadamente no âmbito do próximo Programa-Quadro HORIZON 2020. - a continuidade e reforço do apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia através do alargamento do protocolo estabelecido com o Instituto dos Museus e da Conservação para a actual estrutura e realidade da Direcção Geral do Património Cultural e o apoio do “cluster” do Património Cultural; - uma maior ligação entre os centros de investigação e as entidades detentoras ou gestoras do património com vista ao desenvolvimento de projectos de investigação que permitam dar resposta às necessidades reais do sector.

Análise in-situ de um vidro arqueológico romano por micro-PIXE

Análise in-situ por espectrometria de fluorescência de raios X (EDXRF) de uma pintura mural

Análise microestrutural num microscópio electrónico de varrimento

Análise colorimétrica de uma caiação tradicional

#CIÊNCIA #CONSERVAÇÃOERESTAURO #PATRIMÓNIO

BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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