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Os Museus da Crise


Para quem segue política cultural em Portugal, a notícia que se segue tem algo de repetitivo. Um município vai reabilitar um edifício antigo, adaptando-o a um museu dedicado a um aspecto particular da sua identidade local. O projecto será financiado por fundos europeus, e espera-se que este espaço venha a dinamizar as artes locais, supõe-se que através da venda de produtos em loja e de direitos de admissão.

Nos tempos que correm, este é o tipo de anúncio que suscita reacções que vão da incredulidade – mas afinal ainda há fundos para estes projectos?! – até à ofensa pessoal – como se pode pensar em “gastar” dinheiro nestes luxos quando a crise está a deixar famílias portuguesas na penúria por todo o país?! Antecipam-se crises, lembram-se os falhanços colossais de recentes empreendimentos museológicos e vaticina-se o pior. Estes são os museus da crise, condenados à nascença, e cuja sobrevivência vai depender da capacidade de estratégia e inovação dos seus mentores. Desta vez, cabe à Câmara Municipal de Peniche a reabilitação de uma igreja, adaptando-a no futuro Museu da Renda de Bilros que, presume-se, oferecerá uma experiência diferente do Museu da Renda de Bilros de Vila do Conde. Segundo o Público (16.10.2012), este será um investimento camarário e associativo de 2,9 milhões de euros, a que acrescem 5,2 milhões atribuídos pelo programa Polis XXI. A novidade desta notícia reside no principal objectivo do museu. O projecto surge como parte de um conjunto de iniciativas que pretendem tornar a renda de bilros num “nicho de mercado com futuro rentável” para as cerca de 300 rendilheiras do concelho. A ideia de que um museu pode servir tanto de repositório de memórias como de catalisador para as indústrias criativas de um determinado território não é nova. É-o a sua aplicação em Portugal, e seguiremos com interesse esta experiência em Peniche. À partida, um museu como este enfrenta vários obstáculos para o seu sucesso, sendo que os principais são a sua temática e o seu principal objectivo. A renda de bilros não goza, ainda, de uma popularidade que atraia visitantes nacionais e estrangeiros a Peniche, e que, portanto, garanta a geração de rendimentos a que o museu se propõe. Caberá ao pessoal do museu pensar e inovar o conceito expositivo, a programação e a imagem do museu, mantendo a sua linguagem e o seu tom firmemente ancorados no século XXI, não obstante o carácter artesanal daquilo que expõe. Conseguirá o museu trocar uma abordagem nostálgica de uma arte em declínio por uma mensagem energética, moderna, e que reflecte uma arte em diálogo com os tempos em que se insere? Outros museus e instituições de pequena escala têm seguido essa via – veja-se o NAVIGO, na Bélgica; ou pela multi-premiada iniciativa Na Mo Chuid Aodaich (Nas nossas próprias roupas), criada por, com e para as comunidades gaélicas escocesas pela Proiseact Nan Ealan. O principal objectivo do museu – promover a viabilidade económica das rendilheiras de Peniche – coloca sérias questões de exequibilidade. Com efeito, como se propõe o museu realizar este objectivo? Quais são os patamares financeiros que se propõe atingir, e em que prazos? E, eticamente falando, caberá à instituição “museu” – com as conotações universalistas e humanistas de aprendizagem e educação que lhe são próprias - ter como principal objectivo o financiamento de uma actividade económica, por mais meritória que seja? Se sim, que papel deverão ter os principais beneficiários dessa actividade na fundação e gestão do museu? Para responder a estas questões, o museu vai precisar de uma equipa qualificada, familiarizada com o modo de funcionamento e comunicação de um museu no século XXI. Ou seja, de pessoal especializado em públicos e aprendizagens, programação cultural, marketing e comunicação, fundraising – precisamente as áreas que os museus em Portugal, e sobretudo os museus sob a alçada directa do estado, não tem por prática contemplar. Talvez práticas de sucesso como as da Cooperativa Árvore sejam um exemplo a seguir. O obstáculo de que ninguém gosta de falar, vai ser o orçamento operacional do museu. Não basta gastar os tais milhões europeus. Um museu de pequena dimensão facilmente atinge custos operacionais anuais de oitenta a cem mil euros, excluindo salários e programação. Durante quanto tempo estará o município disponível para sustentar este tipo de despesa antes de começar com os inevitáveis cortes – no pessoal, no horário de abertura, na programação, na manutenção do edifício, na limpeza e segurança do espaço, na divulgação? Os desafios são muitos, as dificuldades maiores. E o sucesso deste museu vai depender da visão dos seus promotores, e na capacidade de inspirar aqueles que quotidianamente dão as boas-vindas aos visitantes. Ao Museu de Rendas de Bilros de Peniche, e aos museus que vão abrir nos próximos anos, em circunstâncias mais do que adversas, deseja-se o melhor. Deseja-se que contem com uma missão definida, e estratégias de desenvolvimento implementáveis. Deseja-se que beneficiem de quadros de pessoal qualificado e a quem as tutelas reconheçam a necessária autoridade e autonomia para programar, operar, agir em tempo real. Tanto por força das circunstâncias que rodeiam a sua criação, como pelos objectivos a que se propõem, estes museus da crise têm o potencial de se tornarem nos novos modelos a seguir, e em fontes de inspiração para as instituições já afirmadas. Para o museu, toda a sorte, e trabalho do mundo.

Pensar a exposição para o visitante. Ulster Museum, Belfast.

Os museus são (também) as pessoas. Farol Museu de Santa Marta, Cascais

Temas-tabú atraem visitantes. Sala Living and Dying. British Museum, Londres

#MUSEUS

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OPINIÃO

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