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A iluminação dos Monumentos e a Valorização dos Centros Históricos


Considerando que o paradigma do urbanismo contemporâneo se centra na conservação da cidade antiga e das infra-estruturas existentes, bem como, no alcance permanente de uma maior sustentabilidade ambiental e na redução da pegada ecológica dos sistemas urbanos, afigura-se legitima a reflexão em torno de uma questão inúmeras vezes descurada pelas autarquias e entidades da administração directa do estado, que se prende com a necessidade de melhoria da iluminação dos monumentos e dos centros históricos das cidades Portuguesas.

É hoje mais que consensual, o papel do património histórico e cultural na fixação da memória colectiva, e a importância da manutenção dos vestígios do passado, para a afirmação da identidade nacional e para a configuração da imagem das cidades no imaginário dos cidadãos.

O património cultural consubstancia-se ao nível do urbanismo pelo traçado da cidade antiga, pelo seu valor unitário e de conjunto, pela escala da sua arquitectura, bem como através da presença de monumentos que definem espaços de individualidade urbana, cujo carácter centrípeto e polarizador, gera espaços de sociabilização, tais como os largos e as praças para onde confluem os principais arruamentos do centro histórico da cidade.

A imagem da cidade é definida pela clareza de percepção dos elementos marcantes da paisagem urbana, dos quais se destacam os monumentos arquitectónicos, elementos primários da génese urbana e da arquitectura da cidade, que umas vezes submetem e outras se submetem ao tecido urbano, monumentos entendidos enquanto edifícios históricos que pelo carácter da sua arquitectura, reflectem valores de memória, antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade, tal como consagrado nas normativas internacionais e no direito português.

Ora tal percepção, é potenciada pela facilidade com que os monumentos possam ser reconhecidos e organizadas numa estrutura coerente de símbolos e sinais facilmente identificáveis e passíveis de agrupamento na estrutura global da cidade.

A leitura e a legibilidade visual dos monumentos é proporcionada pelos cromatismo, texturas e limpidez das fachadas, a qual é obtida através de uma pratica de conservação proactiva dos imóveis, bem como pela iluminação que os faz emergir no contexto urbano da sua inserção.

Os monumentos constituem os espaços de encontro com a história e a memória, geram espaços de descompressão das cidades, definem a identidade do concelho, e ilustram a memória histórica dos concelhos, sendo um motivo de visita e uma atracção turística que deve ser potenciada e valorizada, dentro das possibilidades financeiras de cada Autarquia.

A concertada iluminação dos monumentos, constitui por si só, um acto de preservação e valorização do património, no sentido em que esta beneficia a leitura da imagem arquitectónica do imóvel, permitindo o seu destaque sobre a paisagem urbana do Município, e quando efectuada através do recurso a tecnologias e iluminação energeticamente mais eficientes, esta permitirá ainda a diminuição da pegada ecológica e a redução das facturas energéticas dos municípios.

Das tecnologias de iluminação actualmente existentes, salientam-se os sistemas de iluminação LED (Light Emission Diode, ou em português, Diodo Emissor de Luz) que permitem atingir reduções dos consumos de energia na ordem dos 60%, e os quais apresentam resultados bastante promissores ao nível da restituição cromática das superfícies iluminadas por tecnologia.

A iluminação dos arruamentos dos centros históricos e dos monumentos, deve garantir o respeito pelo carácter, pela morfologia e personalidade do tecido de cada aglomerado, tanto de dia quanto de noite. As temperaturas de cor utilizadas não podem ameaçar a leitura dos cromatismos das fachadas, e o desenho cuidado da rede de distribuição das luminárias tem de obedecer a três critérios fundamentais, designadamente, a unidade de escala do aglomerado, a unidade cinética isto é, à qualidade estática e dinâmica da forma urbana, e por fim, ao rigor na distribuição das mesmas sobre o espaço público. Estes três princípios foram apontados pelos estudos percursores da década de 60 do séc. XX de Kevin Lynch em torno da "Imagem da Cidade", e de Gorden Cullen a propósito da concepção da "Paisagem Urbana".

Deve sempre permanecer o princípio que qualquer intervenção sobre a rede e os pontos de iluminação dos monumentos e dos centros históricos, proporcione a valorização sem nunca descaracterizar o ambiente que é próprio aos centros históricos, sob pena da introdução de elevados níveis de iluminação entrar em conflito com o espírito do lugar, gerando a poluição visual do conjunto urbano. A usufruição da iluminação monumental poderá ainda realçar, as qualidades cénicas subjacentes ao património urbano e monumental, proporcionando no limite, a experiência do belo e a aproximação ao sublime.

A iluminação dos monumentos históricos, constitui um acto de modelação e valorização do espaço público e das envolvências espaciais dos monumentos (que no caso de edifícios classificados coincide com a Zona Especial de Protecção), consubstancia uma acção de reabilitação urbana com elevadas potencialidades de gerar um efeito multiplicador para a requalificação dos imóveis envolventes ao monumento pelos dos proprietários, e pode gerar no limite uma maior atractividade da área histórica consolidada, ao investimento privado, dinamizando-se por fim a actividade económica das cidades e das regiões.

Museu da Inconfidência, Ouro Preto, Brasil

João Filipe Braga, Arquitecto

Para saber mais sobre este assunto informamos que vai acontecer, no próximo dia 26 de Outubro, o Encontro Internacional "Iluminação em Monumentos e Zonas Históricas", no Mosteiro de Alcobaça. Mais informações aqui.

Referências: AGUIAR, José; Cor e cidade histórica, FAUP, 2002 ANTERO FERREIRA, Carlos; Valorizar e desenvolver as áreas de património classificado, IPPAR, 1992 AA.VV; Guidance on urban rehabilitation, Council of Europe , 2005

AA.VV; International charters for conservation and restoration (2nd Edition), ICOMOS, 2004 BANDARIM; Francesco; The Historical Urban landscape: Managing Heritage in an Urban Century, Wiley Blackwell, 2012 BOYER, M. Christine; The city of collective memory - Its Historical Imagery and Architectural Entertainment, MIT Press, 1996 CHOAY, Françoise; L'allégorie du Patrimoine, Ed. Seuil, 1992 CULLEN, Gordon; The Concise Townscape, The Architectural Press (Butterworth-Heinemann), 1971

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NOTA CURRICULAR João Filipe Braga é licenciado em Arquitectura, na vertente de reabilitação urbana e arquitectónica, pela Universidade Lusíada de Lisboa, tendo efectuado um estágio profissional para efeitos de adesão à Ordem dos Arquitectos na antiga Direcção Geral dos Monumentos Nacionais (DGEMN). Frequentou de 2008 a 2009 o Mestrado em Património Urbano da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e encontra-se de momento a concluir uma dissertação no âmbito do Mestrado em Gestão e Valorização do Património Histórico e Cultural da Universidade de Évora. Exerce funções na S.energia - Agência Regional de Energia para os Concelhos do Barreiro, Moita, Montijo e Alcochete desde 2008, e desenvolve em regime de actividade liberal, projectos de reabilitação e conservação do património arquitectónico. Membro da Ordem dos Arquitectos e do ICOMOS, é também gestor da página do Facebook dedicada ao Património de Origem Portuguesa no Mundo.

#MONUMENTOS #HISTÓRIA

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OPINIÃO

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