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Qual o valor do património arquitectónico?


Existem temas recorrentes, embora nem sempre assumam a visibilidade que lhes é devida. Estes assuntos fazem geralmente percursos não lineares e, a certo ponto, acabam por emergir porque são incontornáveis na forma como condicionam determinada reflexão ou determinada actividade.

A cada momento que surgem, são frequentemente causa de incerteza, discussão e, por vezes, polémica. O valor do património arquitectónico é um destes temas. Desde logo porque sob uma expressão – valor – se alude a diversos conceitos, alguns inconciliáveis. As dificuldades inerentes a olhares diferenciados sobre um mesmo assunto são frequentes, em inúmeras áreas de actividade, e o património não é excepção. Deparei-me já com desafios muito estimulantes neste contexto. Não se pretende, aqui, discutir o significado de “valor” do património arquitectónico. O conceito é naturalmente múltiplo o que, aliás, o torna muito interessante. Há que reconhecer a sua multiplicidade e saber aplicar a ponderação relativa entre os diferentes valores que mais se adeque a cada caso como forma de garantir uma tomada de decisão potencialmente ajustada. Esta tarefa é complexa e exige actores que conheçam o guião (incompleto por definição) e que saibam como se preenchem os espaços em branco. O tema adquire agora uma pertinência acrescida e, creio, será crucial no futuro sob pena de serem perdidas excelentes oportunidades de intervir no património de forma responsável e de serem destruídos valores culturais insubstituíveis. Tudo indica que as intervenções em edifícios existentes, sobretudo em meio urbano, serão uma parte muito significativa da actividade relacionada com a arquitectura quando o mercado encontrar condições para a sua reanimação. Parece também razoável reconhecer (assumo grande esperança neste aspecto) que o ressurgimento de uma actividade consistente no mercado da edificação seja acompanhado de um paradigma renovado. Um paradigma em que a cadeia de responsabilidade profissional seja menos persecutória, mais sensata e mais sólida. Um paradigma em que o talento seja acompanhado de conhecimento efectivo, do conhecimento que seja de facto o necessário para cada objecto arquitectónico a reabilitar. Creio ainda que este futuro será também condicionado por três outros aspectos principais que o tornarão muito diferente daquilo que conhecemos até há pouco tempo. Por um lado, serão utilizadas de forma generalizada ferramentas de projecto hoje emergentes que permitirão um controlo da relação forma-desempenho até aqui inimaginável. Por outro, os requisitos funcionais terão plenamente assumido como prioridade inquestionável preocupações que, agora, ainda são frequentemente relegadas, como é o caso da forma como se utilizam os recursos naturais e se produzem resíduos na actividade humana. Finalmente, o quadro de gestão financeira será mais restrito e portanto mais exigente do ponto de vista das soluções de projecto. Não é excessiva, pois, uma preocupação crescente, partilhada ainda por demasiado poucas pessoas, no centro da qual se encontra a defesa dos valores patrimoniais da arquitectura. Perante um determinado cenário de reabilitação, qual o lugar que ocupa aquela ponderação de valores? Que sensibilidade haverá, por parte de todos os intervenientes, para a protecção de valores intangíveis ou de elementos arquitectónicos que, numa aparência apenas epidérmica e não iniciada, possam ser por alguns considerados como desprovidos de qualquer interesse? Como ponderar, mencionando apenas alguns, a eficácia financeira, a História, a segurança estrutural, a protecção contra incêndio, o conforto, a utilização de energia renovável, um novo programa funcional, uma pintura mural com dois séculos, a contemporaneidade da intervenção, a intangibilidade de uma memória única na teoria da arquitectura? No âmbito da reabilitação de arquitectura, a tarefa de coordenação do arquitecto implicará, para ser eficaz, uma sensibilidade própria que, em princípio, existe por defeito uma vez que pode ser encarada como parte integrante do talento inerente à profissão. Mas será também imprescindível conhecimento específico relativo à disciplina de conservação e restauro. Este não é frequente, embora existam claros sinais, ainda que frugais, indicando a tendência para uma tomada de consciência progressiva da necessidade de recurso a este corpo disciplinar. É importante clarificar que, quando refiro “conservação e restauro” enquanto disciplina, não me limito a objectos artísticos ou a arte integrada. Está em causa um corpo teórico e prático com pelo menos duzentos anos (não é objectivo entrar aqui na discussão acerca da sua origem cronológica). Trata-se de uma doutrina que pode hoje ser considerada coerente e consolidada, embora em permanente evolução porque tem beneficiado, por um lado, de muita investigação fundamental e aplicada de grande qualidade e, por outro, de algumas intervenções realizadas de forma irrepreensível. É uma disciplina que engloba a arquitectura. Algumas opções a tomar num projecto de reabilitação arquitectónica devem portanto ser enquadradas e, consequentemente, condicionadas no âmbito específico da disciplina de conservação e restauro. Não podem, deste modo, ser apenas fruto do talento, ou de um intenso conhecimento da teoria e da história da arquitectura, ou resultar de uma certa discricionariedade. Não é uma questão de opinião. Em Portugal, a abordagem actual ainda predominante no processo de projecto arquitectónico é uma sequela do movimento moderno. Tem particularidades que, em determinadas ocasiões, não encontram uma relação directa com a doutrina de intervenção em património. Esta incompatibilidade, aparente, resulta precisamente do facto de existir, em conservação e restauro, um corpo teórico próprio. Para lá da aparência existe um promissor potencial de trabalho conjunto, em equipas que concentrem as competências relevantes em cada situação. Diferentes competências não significam forçosamente diferentes pessoas, significam a existência do conjunto pertinente de capacidades de análise e de decisão. A reabilitação, a conservação e o restauro de arquitectura, nunca é demais afirmar, é uma actividade cultural para a qual contribuem inúmeras áreas do conhecimento, necessita com frequência de apoio científico sofisticado, na qual o todo é maior do que a soma das partes. Abordagens parcelares, incompletas, redutoras, conduzem a resultados que implicam perdas. São perdas, quase sempre irreversíveis, de valores culturais comuns. A responsabilidade é enorme. Mas nunca existiram as condições que teremos à disposição neste futuro próximo. Conhecimento, sensibilidade, tecnologia, experiência, pessoas qualificadas. Assim saibamos qual é o valor do património arquitectónico. Uma nota final de felicitação e agradecimento aos promotores do PATRIMÓNIO.PT.

Identificação de superfície decorativa num edifício antigo situado em meio urbano. A participação de conservadores-restauradores em fases iniciais de projecto permite a programação de acções que se destinam a identificar elementos de grande valor. É deste modo possível integrar este património no projecto a desenvolver. Para além do valor patrimonial, a conservação e restauro destas superfícies contribuirá para um aumento do valor comercial do próprio edificio. Crédito: Nova Conservação, Lda.

Sondagem para identificação e análise de diversos programas decorativos aplicados sobre a mesma superfície arquitectónica. As metodologias da conservação e restauro são essenciais na compreensão do valor global da arquitectura. Crédito: Nova Conservação, Lda.

Preparação de amostras para selecção de alternativas para aplicação num edifício onde, por ausência de competência específica relacionada com a conservação de edifícios no início do projeto, foram demolidos elementos em madeira em bom estado de conservação. Crédito: Nova Conservação, Lda.

#CONSERVAÇÃOERESTAURO

BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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