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A propósito de secretárias e máquinas de escrever


A recente renúncia do Estado Português em adquirir por 80 mil Euros a secretária e a máquina de escrever de Fernando Pessoa que se apresentaram no passado dia 22 de Maio a leilão, foi uma notícia melancólica mas não surpreendente.De facto, de alguns anos a esta parte assiste-se a uma fuga do Estado em fazer o que lhe compete: adquirir peças que pela sua qualidade e raridade dignificam as colecções públicas de Portugal.

Talvez valha a pena recordar que a figura de Fernando Pessoa constitui não só, um dos maiores escritores e poetas portugueses do século XX como seguramente deste planeta. Compreendo preocupações igualitárias mas subsistem hierarquias de qualidade mesmo quando responsáveis eleitos as ignoram. Calculo que a Casa Fernando Pessoa tenha alertado as tutelas que decidem estas matérias para a importância em adquirir uma bonita secretária de cilindro, e uma máquina de escrever com a marca assumida de “Royal” e que, a resposta tenha sido “não há verba”.

No entanto, creio puder afirmar que, se para as peças de Pessoa não há verba para as múltiplas viaturas ministeriais acaba sempre por haver dinheiro. A secretária e a máquina de escrever que Pessoa usou quando trabalhou na Sociedade Portuguesa de Explosivos valem bem mais que um Mercedes, mesmo com um Secretário de Estado lá dentro, idealmente a ler a Mensagem no trânsito. 80 mil euros sendo uma quantia elevada não deixam de fazer justiça ao seu genial utilizador. Fossem as peças de Hemingway imagino o seu valor…

Por outro lado, não quero pensar que se Pessoa escrevesse sem vírgulas e tivesse sido seduzido pelas sereias do marxismo, as verbas para adquirir estas peças se teriam materializado, pela Câmara de Lisboa por exemplo, actualmente tão ocupada a congeminar rotundas.

No entanto os “Happy End” ainda existem, e o vil metal estatal ou camarário foi desnecessário visto que o biógrafo brasileiro de Pessoa, José Paulo Cavalcanti adquiriu as peças e já divulgou que irá doar uma delas à Casa Fernando Pessoa. Estado 0, Filantropo Brasileiro 2.

Guy Magalhães Pereira, Antiquário na zona da Sé de Lisboa desde 2001. Mais jovem membro da Associação Portuguesa de Antiquários.

#PATRIMÓNIODAHUMANIDADE #ANTIGUIDADES

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OPINIÃO

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