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Remapear e reparar a cidade para fazer parte


Marta Lança *



Conhecer os contributos na construção, manutenção e usufruto da cidade, atribuir contextos a lugares fixados, localizar e escolher outros a memorializar, selecionar episódios e representações para identificar ausências e pensar entre aquilo que existe e o que podia ser diferente. Valorizar a presença africana e afrodiaspórica de ontem e de hoje. A ideia é sobretudo integrar Lisboa no debate internacional sobre as cidades e as suas marcas de colonialidade, problematizar a disputa de memória (material e imaterial) no tecido urbano no sentido de maior inclusividade.


O projeto ReMapping Memories Lisboa e Hamburgo, Lugares de Memória (Pós)Coloniais compõe-se sobretudo por um trabalho de pesquisa, mapeamento e análise de lugares em Lisboa e Hamburgo, materializado em eventos e, sobretudo, num site que recolhe e faz as ligações entre esses lugares. O site contem artigos sobre lugares de memória, entrevistas, intervenções e projetos artísticos e várias abordagens ao legado colonial e defendem uma cidade antirracista. Através do conhecimento, subjetividades e análise crítica de quem colabora, pretende-se fazer emergir uma cidade polifónica e plural, contribuir para o não apagamento da violência imperial e de exclusão no acesso à cidade, que reverbera nos nossos dias. Nesse sentido, o projeto parte da vontade de chamar a atenção que Lisboa é ainda segregada em termos geográficos, de vivência e representações. Temos ainda um longo caminho de autorreflexão, reconfigurações que vão do âmbito mais simbólico às políticas afirmativas pela igualdade de cidadania.


Trata-se de um projeto promovido pelo Goethe-Institut Portugal, de modo bilateral com a Alemanha, focado nas cidades portuárias de Lisboa e Hamburgo, com afinidades em algumas tipologias de lugares e questões de memória. E porquê Hamburgo? Susanne Sporrer, diretora do Goethe-Institut, responde: “Foi a primeira cidade na Alemanha a criar um conselho consultivo, formado por membros da sociedade civil, cuja missão consiste em desenvolver para Hamburgo um conceito de descolonialização da memória que deverá envolver praticamente todas as áreas da vida pública. Começou cedo, e de forma bastante abrangente e autocrítica, a reavaliar a sua história colonial.”


Primeiro encontro de debates públicos


Antes de mais, é preciso ouvir o que já se anda a pensar sobre o assunto. Sendo responsável pela coordenação da parte de Lisboa, para a abertura pública deste projeto programei o ciclo “Memorializar e descolonizar a cidade (pós)colonial”, cujos encontros online decorreram de 5 a 7 de maio e podem ser visitados aqui. E seguir-se-á a conferência internacional de 30 de junho e 1 de julho, que se intitula "Como descolonizar as nossas cidades?", no qual se pensa as cidades anti-coloniais do futuro, programada pela coordenadora da parte de Hamburgo, Christine Auer.


Nesses encontros de maio, mais focados em Lisboa, contámos com a participação da historiadora de África, Isabel Castro Henriques, “Percursos históricos dos Africanos em Lisboa (séculos XV-XX)”, dos investigadores Mamadou Ba e António Brito Guterres, que abordaram “A geografia racial estrutura a relação entre estar na cidade e ser da cidade” e "A forma (pós)colonial da Metrópole”; a atriz Nádia Yracema, “Artista mo(nu)mento”, o músico e escritor Kalaf Epalanga “A importância de criar um Museu da Kizomba”, e o ativista José Baessa de Pina (Sinho) “Como construir comunidade nos subúrbios de Lisboa”. Os antropólogos Miguel Vale de Almeida e Maria Paula Meneses propuseram várias linhas de reflexão para os debates sobre descolonizar a cidade: “Como abanar estátuas?” e "Lisboa: histórias ocultas e linhas contínuas”. A investigadora Noa K. Ha trouxe exemplos da Alemanha sobre o “Desafio da memória pós-colonial. Legados de colonialidade na cidade”.


Afrolisboa é Lisboa


Numa cidade onde transitam, trabalham e moram tantos africanos e afrodescendentes, na qual a presença negra é substancialmente antiga, numa cidade construída com riquezas do antigo império e pelo suor de trabalhadores negros, é gritante como ainda lhe atravessa a lógica de um “nós” e um “eles”. As pessoas racializadas são material e simbolicamente excluídas da cidade, vivem em zonas periféricas e precárias, sempre sob maior suspeita policial, naturalizadas nas representações mediáticas como marginais. Tendo em conta os baixos horizontes de expectativas e as barreiras com que se deparam para a ascensão social, a ínfima participação como agentes de opinião e de comunicação pública, nas universidades, nas lideranças ou no governo, Lisboa é parte deste problema de desigualdade. No entanto, o discurso oficial elogia a diversidade e multiculturalidade da nossa sociedade e cidade, agita o mito lusotropicalista de uma mestiçagem luso-perfilhada, desvalorizando o racismo, relativizando e, inclusive negando as consequências e continuidades da ampla e violenta história colonial e imperial portuguesa.


Porém, o momento é de confronto e de afirmação. As pessoas racializadas e africanas sempre cá estiveram, construíram e fazem a cidade acontecer e o ativismo negro tem ganho espaço mediático, assim como grupos de acção e discussão, novos léxicos, exigências concretas como rever a lei da nacionalidade, os programas escolares, a recolha de dados étnico-raciais, a expressão de feminismo negro e interseccional e toda uma luta travada contra o racismo estrutural tão imbuído e ativado na mentalidade portuguesa.


A afroLisboa é Lisboa, porque esta não existiria sem os africanos e África, para além de que as cidades sempre produziram comunidades de diáspora que pertencem à sua história. A sua vivência, a criatividade cultural e artística, os modos urbanos, os regimes de culto, a música, a literatura, as artes performativas ativam a Lisboa diversa e de igualdade que ambicionamos. Pensámos como o corpo negro se insere na cidade, como a Kizomba desafia a lógica do espaço e a intimidade que cada indivíduo se permite experienciar em público, como as comunidades nos subúrbios foram se fomentando pela falta de apoio e abandono do Estado. E, como postou Mamadou Ba, histórico ativista do movimento anti-racista em Portugal: “Temos um presente a construir e um futuro a conquistar coletivamente. A esperança é que a nossa cor de pele sirva apenas e tão só, para sermos vistas, reconhecidas, representadas e respeitadas enquanto pessoas, cuja humanidade jamais será diminuída, ofendida e violentada por causa da cor de pele.”



Os lugares de memória


A cultura visual influencia a nossa perceção. Memoriais, museus, as práticas artísticas e documentais, publicidades, vidas que passam sem registo mas que constantemente atualizam a cidade, tudo é matéria para a formação de memória. A memória é uma ação que se dá no presente e se articula com as políticas da atualidade. Só podemos olhar para o passado como os olhos de hoje.


Susanne Sporrer explica: “As memórias coloniais. Estas estão materializadas em estátuas, monumentos, em nomes de ruas, edifícios, inscrições... Esses testemunhos representam a nossa história, mas trata-se de uma história também violenta, que faz parte de uma grandiosa encenação do poder. E, apesar de as nossas democracias se basearem em valores bastante diferentes – nomeadamente a igualdade, o antirracismo, a integração e os direitos humanos –, esses testemunhos continuam até hoje a deixar uma marca nas nossas sociedades. Continua por resolver a questão de como lidar com este legado. Também por resolver está a questão de como lidar com o legado invisível do colonialismo, com os bairros ou zonas das cidades que desapareceram, com todas aquelas pessoas a quem ninguém ergueu um monumento. Como podemos recordar estas histórias esquecidas e como podem elas tornar-se parte integrante de uma nova cultura de memória das cidades? São estes os temas e questões que abordamos no nosso projeto. A descolonialização das cidades europeias encontra-se ainda numa fase inicial e através do nosso projeto queremos contribuir nesse sentido.”




A Europa pós-colonial que realmente ambicionamos tem de conviver e remexer com os seus legados coloniais. Isso implica uma discussão transversal em que todos são sujeitos ativos na construção da cidade contemporânea, a apresentar modos de intervenção, provocar indignações e inscrever as ausências e rever símbolos imperiais. No atual contexto de globalização e aumento das desigualdades socio-espaciais, é urgente que as cidades inclusivas deixem de ser um slogan para ser uma prioridade de todos.


Alguns dos Lugares de Memória que vão ser trabalhados com reportagens no site do ReMapping Memories Lisboa-Hamburgo são: o Jardim Botânico Tropical, a Casa dos Estudantes do Império, o Padrão dos Descobrimentos, o Largo de São Domingos, o Memorial às Pessoas Escravizadas, as toponímias (em vários bairros), o Bairro do Mocambo, o Museu da Sociedade de Geografia de Lisboa, o Museu de Etnologia de Lisboa, o Arquivo Histórico Ultramarino, as Portas de Benfica e vários bairros da Amadora, como Santa Filomena, o B.Leza e as discotecas africanas, a Expo98/Parque das Nações, etc.


Vozes para uma cidade mais representativa


Entrevistei muitas pessoas que refletem sobre Lisboa, que têm propostas para a cidade e para lugares que identificam a sua história com a colonialidade, a presença africana e a sua vivência. A primeira leva foram Elsa Peralta, Cristina Roldão, Beatriz Gomes Dias, Kiluanji Kia Henda, João Pedro George, Apolo de Carvalho, António Brito Guterres, Mamadou Ba, Nuno Simão Gonçalves, Ariana Furtado, Luzia Gomes, Luzia Moniz, Jean Yves Loude, Eduardo Ascensão, José Eduardo Agualusa. O site do ReMapping Memories tem uma forte componente visual com intervenções do artista Francisco Vidal, que foi criando vários cadernos à medida que se ia debatendo e novas camadas sobre a cidade se desvelavam, e conta ainda com as fotografias e vídeos de Rui Sérgio Afonso, complementadas por imagens de arquivo.


O grupo consultivo é muito estimulante, com o professor António Sousa Ribeiro, diretor do CES da Universidade de Coimbra, especialista em estudos sobre a violência, a memória, o pós-colonialismo e estudos comparativos sobre cultura. A historiadora Isabel Castro Henriques, de quem destaco os livros recentes: Roteiro Histórico de uma Lisboa Africana, Lisboa, 2019; De Escravos a Indígenas. O longo processo de instrumentalização dos Africanos (séculos XV-XX), Lisboa, 2019; A Descolonização da História. Portugal, a África e a Desconstrução de Mitos Historiográficos, Lisboa, 2020; «Os Pretos do Sado»: História e Memória de Uma Comunidade Alentejana de Origem Africana (Séculos XV-XX), Lisboa, 2020; África e o Mundo. Circulação, apropriação e cruzamento de conhecimentos (séculos XV-XX), Lisboa, 2021. A professora de Literaturas Africanas na Faculdade de Letras de Lisboa Inocência Mata e a investigadora e diretora do Departamento de Museologia da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa, Judite Primo.


No caso português, este projeto acrescenta e por vezes contrapõe narrativas fundadoras da cidade de uma certa ideia de Portugal ("Descobrimentos", colonialismo brando, lusofonia) que vêm sendo felizmente debatidas e desconstruídas. Os aspetos trágicos da expansão ultramarina, como a escravatura, a desumanização e a devastação, os danos do colonialismo mais recente e a própria descolonização, têm consequências e continuidades nas nossas cidades, como o racismo que incide sobre a população negra e cigana. Para além dessa denúncia, pretendemos enfatizar os conhecimentos, modos de vida e culturas diversas que moldam a cidade, para lá da memorialística imperial.



Fotografias: Rui Sérgio Afonso

Marta Lança (Lisboa,1976) tem formação em Estudos Portugueses, Literatura Comparada e Edição de Texto e é doutoranda em Estudos Artísticos, na FCSH-UNL. Criou as publicações V-ludo, Dá Fala e é editora do site BUALA (desde 2010). Traduziu alguns livros do francês, nomeadamente de Achille Mbembe. Em Luanda lecionou na Universidade Agostinho Neto e colaborou com a I Trienal de Luanda; em Maputo trabalhou no festival de documentário Dockanema. Entre outros, organizou “Roça Língua, encontro de escritores lusófonos” (São Tomé e Príncipe, 2011); o ciclo Paisagens Efémeras, dedicado a Ruy Duarte de Carvalho (Lisboa, 2015); ‘Vozes do Sul’ (Festival Silêncio, 2017); projeto NAU!, do Teatro Experimental do Porto (2018); Para nós, por nós: produção cultural africana e afrodiaspórica em debate, com Raquel Lima (2018); Sou esparça e a liquidez maciça: gestos de liberdade (maat, 2020); com Rita Natálio, TERRA BATIDA: uma rede de arte e ciência sobre conflitos socioambientais (Festival Alkantara, 2020).


A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


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