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Regresso ao passado?


Não estou entre aqueles que pensam que o papel dos museus e dos espaços culturais deve privilegiar as agendas políticas de contexto. Acredito que um importante antídoto contra as derivas de exclusão, incluindo as totalitárias, é o exercício do conhecimento crítico, o estímulo à reflexão e a capacidade em relativizar os contextos, integrando-os em processos de expressão temporal mais longa. Isso não dispensa a intervenção no quotidiano, face a situações que, cada um de nós, no exercício da sua própria capacidade reflexiva e cidadã, entenda merecerem aplauso, apoio, condenação ou repulsa. Mas o tempo do património é outro, e cumpre a função social de gerir as ansiedades do presente, convidando a sociedade a perceber que a superação dessas ansiedades está na capacidade de investir energias para além do imediato. E nunca vi utilidade em misturar estes dois planos, que são ambos necessários e complementares, precisamente por serem diferentes.


Tal não significa, porém, que o exercício da gestão patrimonial se possa fazer “fora do tempo”. Pelo contrário, ele exige uma capacidade de “recusa de modas” mas uma atenção plena às preocupações, tensões e contradições na sociedade. Se era verdade assim com as coleções de antiguidades, reunidas para deleite e formação das elites de sociedades assumidamente desiguais, é ainda mais verdade quando pensamos o património sob os paradigmas da laicidade e da participação cidadã, ou seja, da construção de espaços de formação universal para as lideranças futuras e não apenas de formação dos herdeiros das lideranças já existentes. Neste sentido, uma gestão patrimonial não orientada para a utopia, no sentido radical da reflexão sobre a possibilidade de “algo distinto nunca antes visto, mas possível”, é algo que me parece frágil, insuficiente, e pouco relevante para as sociedades democráticas.


É neste contexto que sinto uma preocupação crescente com um divórcio que se tem cavado entre a esfera do património e a esfera da cidadania. Uma expressão mais evidente desse divórcio, que tem sido assinalada e criticada por muitos, é a progressiva captura do património pela indústria turística. Não por a relação entre turismo e património não ser muito importante, mas por duas outras ordens de razão: primeiro porque essa relação, útil e positiva, não pode eclipsar outra, mais fundamental, com a educação; em segundo lugar porque a própria prática da gestão turística tem sido uma desastrosa captura do turismo pelo excursionismo de consumo rápido e pouco crítico. O que resta do eucalipto excursionista, quando os seus clientes precisam de, ou preferem, ficar em casa? E para que serve um património que se “reinventou”, sobretudo, como suporte dessa bolha especulativa?


Mas há uma outra dimensão que me preocupa mais, porque vive na “nossa casa”, se manifesta nas nossas práticas e se revela, de forma cruel, nas nossas distrações. Não subjugar a gestão patrimonial às ansiedades do imediato significa estabelecer, em cada momento, uma ponte entre elas (que condicionam a vida dos cidadãos) e esse tempo mais longo, onde os problemas cedem o palco aos grandes dilemas de fundo, que os podem resolver superando as suas causas ou modificando o quadro em que eles operam.


É inegável que a preocupação central das sociedades, em todo o mundo, nos dias que correm, é a pandemia. Apesar das angústias sobre o presente e o futuro da economia, e para além das angústias e hesitações dos diferentes governos, a maioria das pessoas optou por atitudes comportamentais de segurança sanitária, que visam a proteção das vidas de todos e de cada um. Este é, possivelmente, o mais interessante e importante indicador de transforação cultural das últimas décadas, pois a reação de sempre face às epidemias e pandemias foi o de “isolar o problema” (se necessário condenando os infetados) e “prosseguir a vida da sociedade” (protegendo a economia tal como funcionava antes). Pela primeira vez, em todos os continentes e tradições culturais, a atitude é distinta, muitas vezes entrando em contradição com os governos, mas também com as mais distintas e respeitáveis instituições, cuja primeira preocupação é a sua sobrevivência (institucional) e não a das pessoas (individualmente consideradas). Essa discussão está nas ruas, nas casas, e até nos jornais, e consolda uma ultrapassagem do paradigma de proteção provável do indivíduo (através do apoio ao grupo em que se insere) pela proteção possível dos grupos (a partir do apoio a cada pessoa). É uma discussão central, que derramou no espaço público, com todas as consequências, uma antiga reflexão filosófica e jurídica sobre a dignidade da pessoa humana no Estado de Direito. E é uma discussão até certo ponto surpreendente, e que contraria, no plano cívico, os crescentes recuos do Estado de Direito e os atentados à dignidade individual, que se revela de forma crua e insuportavelmente inocente sempre que um boletim médico apresenta o sucesso de só terem morrido duas sou três pessoas. É um debate que exprime uma contradição de fundo, com impacto direto em todas as instituições, mas que não está presente nos espaços patrimoniais (com raras exceções) nem, infelizmente, nas universidades (mas não é sobre estas que hoje aqui escrevo).


Mais preocupante é o que perceciono quando olho para o debate interno, e público, em torno do património. Vi, como todos, a disponibilização gratuita de conteúdos digitais nos dias de maior confinamento, generosas, mas pouco reflexivas sobre a perda de contacto com a materialidade do património (incluindo o intangível). Acompanhei discussões e importantes intervenções sobre os direitos dos profissionais, semelhantes, aliás, à angústia que atravessa a quase totalidade das áreas profissionais que prestam serviços de algum tipo. Acompanhei uma recente importante polémica sobre os eventuais méritos ou deméritos do direito de reserva corporativa de um perfil académico específico para o exercício de funções estratégico-políticas e administrativas em museus (é isso que faz um diretor). Registei os reflexos em Portugal de um debate importante, que há anos se trava, sobre a chamada “repatriação de património” (ainda que permeada, aqui, de alguns insultos que empobrecem o debate).


Debates sem dúvida importantes, e similares a outros que se travam nos diferentes setores profissionais e sociais. Mas … tudo o que o património tem a oferecer a uma sociedade que se repensa é… a afirmação das suas preocupações internas? E a vida agora, e o que ela convoca em termos de reflexão sobre transformações comportamentais e culturais? Museus, monumentos, parques… não têm nada a propor para apoiar, estimular e robustecer esse debate na sociedade? Todos os temas que temos a propor são os que herdamos do passado recente, acompanhados pelas mesmas angústias laborais que a todos afetam? Para além dos clientes passivos que se perderam (aqueles consumidores que são tratados como “público”), a quem se dirige o património? Como se deve reorganizar na articulação com o ensino (e, nessa medida, até que ponto está o setor disponível para perder algumas prerrogativas que advém de viver num ghetto, pobre mas ingenuamente independente)? O que podem fazer os sítios, os monumentos e, sobretudo, os museus, para construir, agora (sem esperar vacinas ou vindas espontâneas de visitantes), para retomar a relação analógica das pessoas com as materialidades patrimoniais? Será possível fazer isso sem as escolas, sem as autarquias, sem as empresas? E se não é, que novos quadros institucionais estamos dispostos a discutir e a propor?


Para que serve o setor do património, se não falar e refletir para além das angústias do momento, ou se não for capaz de propor nada de distinto, apoiado na convicção de que é possível construir o lugar do que ainda não existe, mas pode ser desejado, pensado, detalhado e co-construído?


Estes são os dias em que se anunciam milhões, sem dizer que eles são acompanhados de cortes na ciência, nas humanidades e nas artes (exceto nas vertentes de entretenimento). Estes são os dias em que a grande maioria “deita contas à vida”, já percebeu que o mundo não voltará a ser como era, e procura, atentamente, caminhos alternativos não apenas de sobrevivência, mas de vida e felicidade. Vejo que no campo da saúde, sem abandonar nenhuma causa de dignidade profissional ou institucional, se trava um debate, interno e público, que entende a saúde não como uma engenharia do corpo mas como um cuidado da pessoa humana. Vejo um debate no ensino superior, sobre a necessidade de assegurar a qualidade do ensino sem comprometer a qualidade da vida de estudantes e funcionários, e sem perder de vista que o ensino deve dar o exemplo de solidariedade e cumprimento de normas sanitárias apoiadas na ciência e nos valores humanísticos. São debates que, naturalmente, incorporam diferentes pontos de vista mas se afirmam de forma relevante para as preocupações da maioria da sociedade. Os debates que marcam a agenda mediática do património, cuja relevância é indiscutível, são relevantes para as preocupações da maioria da sociedade? Se são, ótimo. Mas não me parece, e por isso me interrogo sobre se neste campo, tão importante, estamos a corresponder ao que a sociedade pode esperar de nós e, mais importante, ao dever que temos para com os nossos concidadãos. Temo que a gestão patrimonial, a despeito de uma vontade de compromisso social que sei ser maioritária, se esteja mais uma vez a estruturar entre uma atenção às elites financeiras (aquelas que, olhando o mundo que muda com um programa de recuperação do passado, se interessam pelo património mas não o imaginam diferente de “como estava”) e uma angústia pela “perda de públicos” (os mesmos que, muitas vezes, sabemos não serem a força que pode alimentar e renovar o património), caminhando para a desistência de abraçar em pleno a sociedade (retomando a relação com a educação, em primeiro lugar).


Há, felizmente, imensos exemplos positivos. Há escolas articuladas com museus, associações que envolvem comunidades com sítios e monumentos, reservas que acolhem com carinho os investigadores que as enriquecem aumentando o conhecimento sobre elas. Não estamos, de nenhuma forma, numa situação catastrófica. Mas a ausência destas realidades na agenda de debate que se vai travando é preocupante, pois enfraquece a própria sociedade e abre caminho á demagogia dos que não hesitam em minar a sustentabilidade do setor. E esses dias também já chegaram, com os cortes na ciência e conhecimento do próximo quadro comunitário, cujos milhões se orientam para a solução de problemas urgentes e para uma visão de “futuro” que investe na recuperação do passado (esverdeado) e no reforço do esforço securitário e militar.


Já se viram coisas destas na história e o património será ou um campo de debate reflexivo que ajude a derrubar entendimentos monolíticos e ingénuos sobre a realidade (passada, presente e futura), construir futuros mais inclusivos, solidários e humanísticos, ou um campo de disputas sobre falsas aparências.

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O autor utiliza o Acordo Ortográfico.


#LUIZOOSTERBEEK #OPINIÃO #MUSEUS

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