OPINIÃO | "Museu sementeira: uma reflexão sobre plantar sonhos" Andreia Dias
- patrimoniopt
- há 1 dia
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Andreia Dias
mediadora cultural
Museu sementeira: uma reflexão sobre plantar sonhos

LUGAR Semente, CAM – Centro de Arte Moderna 2024-25
Ⓒ Maria Abranches
O Lugar nasceu há quatro anos, do desejo de encontrar um território comum entre o Museu e a Escola, e da vontade de trazer a arte não só para a vida das crianças, mas também para a dos professores. Como pode a arte ser semente de uma forma de pensar a educação?
O conceito de LUGAR, que dá nome ao projeto, faz parte de um processo de aproximação do CAM Gulbenkian ao seu território de vizinhança potenciando relações significativas e duradouras com as instituições escolares vizinhas e vai prototipando a cada ano diferentes formas de pensar a educação em relação com o mundo.
Trata-se de um projeto colaborativo e participativo de educação e criação artística da Educação, Mediação e Participação do CAM, que incide na área da cidadania, direitos humanos e justiça social. A cada edição, trabalhamos uma temática diferente, ao longo de nove meses e em sessões quinzenais com cada turma, num verdadeiro processo de cocriação entre as mediadoras artísticas e culturais do CAM e as(os) artistas convidadas(os) que vai incorporando o que estudantes e professoras(es) vão partilhando e sugerindo na sua estrutura.
É um projeto com o final em aberto que se vai construindo a cada encontro e que parte de uma visão de museu em relação: dinâmica, aberta, disponível e acolhedora. Um museu que se possa tornar um lugar-comum para todos e incluir a arte como vivência habitual do quotidiano – o museu como casa.
Nestes quatro anos temos composto e experimentado diferentes processos educativos, criativos e artísticos que contêm em si possibilidades quase infinitas de se replicarem e ecoarem em transformações dos lugares museu e escola e do que definimos hoje como educação. Foram-se testando e propondo diferentes formas de como esta pode ser vivida no presente e de como a podemos sonhar num futuro em devir2 - uma criação contínua do que ainda não existe e que acontece num fluxo ininterrupto.
Falamos de educação artística, que nasce da combinação museu-escola-artista, mas que incorpora nela múltiplas formas de pensar educação e que conjuga biologia, história, cidadania, sociologia e outras, com diversas disciplinas artísticas – desenho, dança, pintura, escultura, performance, entre outras, partindo da arte como forma de pensar o mundo e acreditando “na profundidade de transformação latente na junção da arte à educação, ou na arte como forma de propor educação.” 3
Nas suas duas primeiras edições trabalhámos com turmas de 3º e 4º anos, várias escolas do mesmo agrupamento4. Na sua terceira edição, ano letivo de 2024/25, decidimos experimentar como envolver uma escola básica5, com todas as suas turmas do 1º ao 4 ano, 10 turmas, com 227 estudantes, 8 professoras e 2 professores.
Juntos - mediadoras, professoras(es), estudantes e artista - propusemo-nos pensar sobre os direitos de todos os seres, questionando os relacionamentos entre espécies e o legado do Antropoceno, cartografando território desconhecido e investigando como podemos construir um mundo onde todos somos só um, um só corpo, um só respirar, um só pulsar.
Sempre com a interrogação do que queremos ser enquanto coletivo expressivo de uma sociedade, ousámos propor mundos fabulados alternativos, mais equilibrados, justos e saudáveis.
Usámos linguagem metafórica, metodologias poéticas, pequenos gestos-rituais e o cantar para criar uma vivência ligada à imaginação e à criatividade que nos foram transformando a todos em sementes de sonhos e de transformações, fazendo-nos acreditar em nós próprios como agentes ativos de mudança, propositores do mundo em que gostaríamos de habitar.
Um dos primeiros desafios, a que nos propusemos, foi o de sermos todos e cada um de nós, uma semente de sonho: se fossemos uma pequena semente debaixo da terra, prestes a nascer que sonho ou transformação positiva do mundo poderíamos ser?
Partimos do filme artístico O Bosque6, da nossa coleção para pensarmos e dançarmos juntos. Esta ideia de ser semente foi acompanhando todo o projeto e criando diferentes metodologias poéticas: sermos borrifados com água para a nossa semente se expandir e crescer mais forte, explorar biologia ou emoções, pensando sobre o que é preciso para uma semente crescer ou sermos borrifados para saírem as palavras de resumo da sessão (ritual de fecho de cada encontro) ou nos concentramos para desenhar ou modelar. Estes pequenos gestos implicam a criação de um paralelo entre a semente e eles próprios a partir do uso de metáforas – que são “um paradigma do uso criativo da imaginação” 7, e produzem pensamento em ação enquanto matriz de interpretação e relação com o mundo. Ser semente acabou por ser o mote do projeto acompanhando-o do início ao fim, transportando esta ideia consigo para o futuro, ecoando no ano seguinte, e quem sabe nos que se vão seguir.
Cada artista convidada(o) traz consigo as suas técnicas, formas de fazer e formas de pensar e estas são o fio condutor do projeto, são a inspiração que vai acionando o que se vai criando e propondo para cada sessão.
A artista convidada, Maja Escher8, trouxe consigo o experimentar primeiro para depois pensar, a experimentação sensorial e sensitiva como proposta que foi urdindo um fio de trama na qual o barro e a modelação foram protagonistas das explorações criativas. Partilhou o sermos todos irmãos: o pinheiro, o pintassilgo, o caracol, o humano; o sermos natureza e a importância da participação cívica e do protesto, a celebração da união e o cantar em coletivo. Propôs uma forma de fazer artístico pensado de forma orgânica, sustentável e ecológica, num respeito pelo equilíbrio natural de todos os seres e o uso de materiais pensados com cuidado e todos biodegradáveis, reabsorvíveis.

LUGAR Semente, CAM – Centro de Arte Moderna 2024-25
Ⓒ Maria Abranches
Uma das bases do projeto é o desenvolvimento do pensamento crítico, criativo e artístico, este esteve em permanente atividade nas investigações visuais, formais e compositivas que foram lentamente e ao longo de 15 sessões com cada turma moldando a obra de arte participativa – Lugar Semente que a artista foi imaginando e compondo com as ideias e produções de todos.
Cada sessão foi cuidadosamente planeada pela equipa de medição e artista e cada uma tem um nome e identidade própria, que resume os conteúdos e os eixos de abordagem trabalhados operando dentro de uma perspetiva de construção ativa dos saberes a partir da agência de todos os envolvidos e de um modelo questionador como metodologia base e processos colaborativos, reconhecendo e validando a importância de todos os elementos na construção de sentido e de conhecimento.9
Lugar Semente – onde tudo começou e fomos sementes de sonhos juntos pela primeira vez; Lugar Terra – onde conheceram a artista e trabalharam do fazer para o pensar, criando com barro e vendados, as suas formas semente; Lugar Viajar na ponta de uma linha – exercícios de desenho e apropriação da forma semente; Lugar artista – onde conversaram com a artista e a ficaram a conhecer melhor e à sua forma de pensar e criar; Lugar árvore-sonho – visita à coleção do CAM e exploração plástica em torno da ideia de arvore-sonho; Lugar árvore – criação de árvores em barro, a partir da exploração de diferentes referentes visuais e criando uma forma pessoal e que tem a ver com a sua identidade; Lugar mala das ideias – avaliação intermédia; Lugar Raízes – o que são as nossas raízes – genealógicas, culturais, sociais a partir de diferentes artistas da coleção; Lugar Viagem – porque viajamos e o que precisamos para voltar a ter raízes nos novos lugares em que ficamos; Lugar Direitos dos seres – criar 5 direitos que sejam comuns a vegetais, animais e humanos; Lugar cartazes para manifestar – introdução ao conceito de manifestar e protesto cívico; Lugar árvores e canções – pintura das arvores de barro previamente cozidas e ensaio de canções aprendidas ao longo do ano; Lugar bandeiras – criação de bandeiras. em tecido tingido com barro, com os direitos de todos os seres e ensaio de manifestação; Lugar bandeiras e manifestar – continuação de criação de bandeiras e seres híbridos, ensaios das músicas e preparação da apresentação pública do projeto e obra de arte Lugar Semente; Lugar mala das ideias – avaliação final. Juntas materializam um fio-condutor de pensamento que vai afirmando os objetivos do projeto.
Pensarmos juntos sobre a carta dos direitos humanos e de como ela surge, questionar se os outros seres também têm direitos e que direitos são estes, se são verdadeiros direitos ou direitos para servir os humanos. Foi estruturante e deu origem às bandeiras de todos os seres e ao manifestar como expressão, onde se foram incorporando marchas para os direitos de todos os seres que criámos.

LUGAR Semente, CAM – Centro de Arte Moderna 2024-25
Ⓒ Maria Abranches
Construído fortemente enraizado nas noções de ecologia, imaginação e futuros férteis, assentes na interdependência entre espécies, foi provocando uma reflexão sobre o que significa ser parte de um todo maior e criando um vocabulário visual, formal e imaginário que foi trazendo à tona a reflexão sobre a transformação de uma sociedade que anseia ser mais conectada, comunal e solidária.
Recorremos à imaginação e ao fazer artístico procurando os fios que nos unem entre humanos, animais, vegetais e minerais, regando esta união com uma observação profunda e uma atenção cuidada a nós próprios, aos outros e ao todo.

LUGAR Semente, CAM – Centro de Arte Moderna 2024-25
Ⓒ Maria Abranches
Como um dos resultado e expressão do projeto nasceu a obra participativa Lugar Semente10 - expressão desta jornada coletiva, a obra fala-nos de mundos fabulados alternativos, onde minerais, vegetais, animais e humanos estão interligados numa rede de interdependência.
Esta «floresta-pensamento» foi pensada para o espaço do Jardim do CAM, um tríptico que floresceu das sementes das possíveis relações entre as diferentes formas de vida, encaixando-se no jardim já existente e propondo uma coabitação temporária entre floresta viva e floresta sonhada.
Acreditando que “a arte tem em si um enorme poder transformador, contém multiplicidades de interpretações, traz dúvidas e questões, irradia sonhos, pensamentos e inquietações e acorda em nós outros tantos11 e que “proporciona uma variedade de respostas diferentes ao mesmo problema, convidando-nos a pensar, a agir e a criar”11 procuramos com este tipo de projetos uma educação inclusiva, que trabalha um currículo de justiça social e promove valores como empatia, pluralidade e equidade a partir do trabalho consistente e articulado entre a criação e experimentação, a mediação cultural12 e a educação artística.”13
Lugar Semente14, que dá nome ao projeto e à obra, abraçou os objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)15 e diretrizes da OCDE16 de forma criativa e questionadora pensando os museus nesta aceção de sementeira, de lugar de plantio para sementes de sonhos.

LUGAR Semente, CAM – Centro de Arte Moderna 2024-25
Ⓒ Ricardo Lopes
Na sua relação de estreitamento entre escola-museu, que introduz a educação artística na sala de aula a partir do museu, que promove a saída da escola para fora dos seus muros e a deslocação do museu para fora dos seus limites, que traz artistas e práticas artísticas para a escola, LUGAR promove o alargamento das aprendizagens e elasticidade do campo da educação.
Incluindo a arte como parte da vivência quotidiana, estamos a “desenvolver, ao nível do indivíduo, a criatividade, a imaginação, a sensibilidade e, ao nível da sociedade, a não passividade, a participação”17 e a sublinhar a expressão da liberdade.
Trabalhando nesta educação dilatada e híbrida entre museu e escola, onde arte e cidadania se aliam, podemos sonhar a hipótese de um mundo melhor.
Porque se sonharmos juntos, a realidade aprende.
Andreia Dias
1 MÃE, V.H. (2015). O filho de mil homens. Porto Editora. p.23
2DELEUZE, G. & GUATTARI, F. (2011). Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Editora 34.
3 DIAS, A. & MARTINS, P. (2024). Lugares de começos – Guardiões de memórias. Onde se começaram a desenhar formas de pensar e fazer educação, mediação e participação. Pedagogia cultural, museologias críticas e educação artística - Dossiê. v. 20 n. 2. p.49
4 EB1 Mestre Arnaldo Louro de Almeida, EB1 Mestre Querubim Lapa, EB1 S. Sebastião, Agrupamento Marquesa de Alorna, e EB! Castelo, Agrupamento Gil Vicente, Lisboa
5 EB1 Mestre Querubim Lapa, Agrupamento Marquesa de Alorna, Lisboa
6 O Bosque. Uma aventura vegetal. (2022). Fernando Mota, Margarida Botelho e Mário Rainha Campos. CAM, centro de Arte Moderna, Gulbenkian. https://gulbenkian.pt/agenda/filme-e-conversa-para-familias-o-bosque-uma-aventura-vegetal/
7 GAUT, B. (2003). Creativity and Imagination. In B. Gaut, & P. Livingston (Eds.), The Creation of Art: New Essays in Philosophical Aesthetics. Cambridge University Press.p.287
8 Maja Escher será a artista residente do projeto Lugar 2024/2025. https://gulbenkian.pt/cam/noticias/maja-escher-sera-a-artista-residente-do-projeto-lugar-2024-2025/
9 HEIN, George E. (1998). Learning in the museum. Routledge.p.34
10 Lugar Semente. Uma obra coletiva de Maja Escher e estudantes do primeiro ciclo. 18 jun – 07 jul 2025. Jardim Sul. Gulbenkian
11 DIAS, A. (2025) Praticar o Espanto: O poder da arte. Gazeta.Valsassina.junho 2025.n89.p.5
12 BURNHAM R.& KAI-KEE E. (2011). Teaching in the art museum: Interpretation as experience. Getty Publications. P.94
13 DIAS, A, & GOMES DA SILVA, S. (2024). Outro(s) Lugar(es). BOLETIM ICOM PORTUGAL, 21, 81-85: 81-93.icom-portugal.org/2024/04/01/boletim-icom-portugal-serie-iiino-21-janeiro-2024/.p82
14 Lugar Semente https://gulbenkian.pt/cam/read-watch-listen/lugar-semente/
15 Objetivos de Desenvolvimento Sutentável. https://ods.pt/
16 OECD (2022) Education and Skills today. https://oecdedutoday.com/portugal-inclusive-education/
17 PERDIGÃO, M. (2023). Vamos Correr Riscos: Textos escolhidos de Madalena Azeredo de Perdigão. Tinta da China.p.156
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Julho 2026







