OPINIÃO | "A paisagem, o tempo e a memória" Miguel Rego
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Atualizado: há 11 minutos

Miguel Rego
arqueólogo
A paisagem, o tempo e a memória
A transformação sôfrega que a paisagem do Alentejo regista nas últimas duas para três dezenas de anos, ultrapassa de forma grosseira qualquer perspectiva mais disruptiva que se pudesse ter sobre a evolução a que assistimos nos campos do Alentejo com a introdução em larga escala do regadio de Alqueva e a massificação da “monocultura” agrícola intensiva.
A frase “construam-me porra”, que hoje pouco mais é do que o resquício frágil da memória política de um tempo, e que marcou simbolicamente o processo de reivindicação para a construção da Barragem de Alqueva, no distante ano de 1994, é no dia a dia sufocada num registo cheio de contradições que a poucos interessa olhar.
O projecto de Alqueva, idealizado como um dos elementos âncora de um Alentejo “proletário”, construtor de riqueza e celeiro da nação, foi nas aragens dos novos ventos da economia global diluído e sufocado por uma “agricultura” que, acima de tudo, veio mudar, irreversivelmente, a paisagem física, cultural, humana, social e antropológica da região, em troca, sabe-se lá do quê.
Do tão propalado “celeiro da nação”, só ficou a memória de um tempo e de uma região de múltiplas fracturas, que mostra hoje outras nuances no tecido socio-económico, mas que, genericamente, não mudou nada. A paisagem monocromática da “agricultura industrial”, vai apagando um património cultural identitário de um estar e um ser que construía, como poucas realidades culturais, na paisagem e na especificidade climática a sua linha dorsal.
A Arqueologia tem ganho, no território de Alqueva e com o projecto de Alqueva, uma dinâmica e um acumular de conhecimento extraordinário, como é, a título de exemplo, o caso dos “povoados de fossos”, ou o das lógicas de povoamento na Antiguidade Tardia da região de Beja; ou ainda, apesar de forma indirecta, o processo de classificação do “megalitismo alentejano” ou as medidas de salvaguarda e de minimização de impactos associadas aos licenciamentos agrícolas que com a utilização dos novos métodos de mobilização de solos e a generalização de redes de rega, têm afectado um património arqueológico desconhecido e que importa inventariar e salvaguardar.
Mas no mosaico cultural que complementa a histórica paisagem alentejana, há um vazio social e cultural que, paralelamente à radical alteração do uso da paisagem, está a destruir um extraordinário elemento do património histórico-arquitectónico da região: as ermidas e as pequenas igrejas rurais que foram marcos de uma organização e pensamento humanos que importa conhecer e salvaguardar.
Esvaziados de gentes e de funções os pequenos aglomerados das herdades e os “montes”, os espaços religiosos de devoção vão naturalmente caindo no esquecimento, perdendo telhados, surripiados de elementos arquitectónicos de valor simbólico e cultual, os frágeis frescos que representavam oragos e referências de devoção comunitária vão sendo objecto de destruição.
À insensibilidade dos novos donos, representados por “capatazes”, a maioria locais, que deveriam ter uma sensibilidade maior para o seu património, aqueles espaços servem, muitas das vezes, para guardar tubagens, arrumar mangas plásticas e rolos infindáveis de tubos. Outros, vão albergar ovelhas, cabras, fardos de palha.
As memórias de romagens, romarias ou pequenas festas em honra do padroeiro, esfumaram-se com os últimos ganhões ou almocreves que ali descansavam suores nos dias de calmaria. Lá mais para trás no tempo, alguns destes pequenos templos foram espaço para baptizados e casamentos, missas em honra dos defuntos, arcas de eternas memórias.
A salvaguarda destes espaços é urgente, assim como a sua valorização e dignificação. O seu desaparecimento, a sua destruição, é não apenas a perda de um bem cultural de valor indiscritível, que contribui objectivamente para um melhor entendimento do processo evolutivo da região e do conhecimento da especificidade paisagística do território onde se integra, mas igualmente como uma fórmula para o reforço da identidade e da própria sustentabilidade do território na actualidade.
Todos os dias, elementos estruturantes do Património Cultural do Alentejo se perdem na voracidade das novas opções agrícolas. Admitamos que muitas outras se salvaram. Não apenas se vem perdendo irreversivelmente o património histórico-arqueológico, mas igualmente o etnográfico, o antropológico, o social, o religioso.
A velocidade que leva ao desaparecimento impiedoso destes espaços, impõe um olhar distinto para o património rural religioso. A interacção entre proprietários, municípios, dioceses e entidades tutelares do património impõe-se! Para que se possa intervir e, sobretudo, para provocar um olhar mais activo para o património rural de um mundo em extinção, numa perspectiva responsável de valorização da memória, do reforço da sustentabilidade do mundo rural e da dignificação da paisagem, como símbolo da promoção de um mundo sustentável que se quer, ao menos, no interior.

Igreja de Santo Estevão. Fundada em meados do século XVII, foi sede de Paróquia, pelo menos entre 1631 e 1892. A Igreja terá sido construída a partir de templo pré-existente. Localizada a meio caminho entre Serpa e Vale de Vargo.
Miguel Rego
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Agosto 2026









