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OPINIÃO | "(des)RESPEITO INTERGERACIONAL" Lino Tavares Dias


Lino Tavares Dias

arqueólogo

 

No início de junho de 2026 tive a oportunidade de rever alguns sítios de referência patrimonial na Polónia. Mas, numa “visita” aos campos de Auschwitz e Birkenau, onde, por opção, nunca tinha ido, fui surpreendido por uma colega que nos acompanhava. Nesse dia vestiu-se de preto e, apesar de coordenar a visita, não entrou em alguns espaços dos edifícios e dos barracões. Explicou-nos que ali, no pavilhão 11, tinha estado preso o seu bisavô, polaco, funcionário dos correios em Cracóvia, que os alemães nazis não toleraram nos anos 40 do século XX. Percebemos a sensibilidade e o notório respeito intergeracional.


Esta mulher, polaca, cracoviana, com 37 anos, que há alguns anos estudou em Portugal, também salientou o facto de ter nascido poucos meses depois da Polónia estar livre da ocupação russa, no final dos anos 80 do século XX.


No mesmo momento, ao mesmo tempo que olhávamos os “incompreensíveis vestígios destes campos”, dezenas de jovens militares israelitas, fardados, percorriam os mesmos espaços e ouviam atentamente os discursos dos oficiais que os enquadravam.


Também vi grupos escolares de jovens polacos, silenciosos, até circunspectos, respeitadores do “cemitério” que visitavam com os seus professores.


Em poucos minutos, diversas formas de refletir sobre as diferentes gerações ali recordadas e, também, sobre o respeito intergeracional que merecem, independentemente da dimensão dos valores intangíveis reconhecidos. Eventualmente, destas reflexões, podem ocorrer diferentes entendimentos sobre a forma de respeitar a memória e, consequentemente, diversos modos de a praticar nos tempos que atravessamos e, principalmente, sobre o modo de a valorizar no futuro que, parece pressentir-se, está a aproximar-se precipitadamente.


Percebemos, ali, naquele sítio e naquele dia de junho de 2026, que refletir sobre o respeito intergeracional da memória deve ser uma preocupação a ter ainda anterior da tomada de consciência do valor patrimonial do edificado.


Assim, quando abordamos a especificidade do património e da paisagem cultural, a decisão de refletir sobre o respeito intergeracional é, julgo e defendo, uma obrigação de cidadania, metodicamente exigida antes dos tempos de planeamento, muito antes do projeto e da ação que até pode ser delicada, cuidada, desenvolvida com minuciosa atenção, e até com esmero. De facto, temos demasiados exemplos de “coisas” tecnicamente bem construídas, mas que são exemplos de (des)respeito intergeracional.


Poderíamos refletir sobre exemplos nos mais diversos pontos do globo, mas julgo que vale a pena fazê-lo sobre alguns exemplos no Porto:


Exemplo 1 - nesta cidade, foi inaugurado, em 1865, o Palácio de Cristal, construído com predomínio do ferro e do vidro, vocacionado para a realização de eventos públicos, que ali tiveram lugar durante mais de 80 anos. Este monumental edifício estava cuidadosamente integrado num grande parque ajardinado.

Cerca de 86 anos depois, em 1951, o Palácio de Cristal foi demolido por decisão camarária. No mesmo sítio foi construído outro edifício que poderia ter sido edificado noutro lugar da cidade. Tal opção, tinha permitido que as sucessivas gerações tivessem diferentes evidências monumentais, dois bons exemplos de diferente arquitetura destinada à realização de eventos públicos.

Curiosamente, nessa altura, na década de 50, poucos anos depois de ter terminado a Segunda Guerra, cidades como Varsóvia e Londres estavam a reconstruir os seus edifícios destruídos pelos bombardeamentos.

Curiosamente, em Portugal, nesse tempo, também estava a ser terminada a construção da estratégica barragem do Castelo do Bode, assim como a primeira ponte sobre o rio Tejo, situada em Vila Franca de Xira.


Imagem 1 - exterior do Palácio de Cristal em 1911. Inaugurado em1865 e demolido em 1951.


Exemplo 2 - O Hospital de Santo António é um edifício monumental, neoclássico, marcante no Porto. Começou a ser construído em 1770 e foi inaugurado em 1824. Desde então sempre funcionou como hospital fundamental para a cidade e para a região. Em 1910, edifícios e espaços exteriores foram classificados como monumento nacional.

Com naturalidade, as exigências de crescimento e de modernização obrigaram a que fossem redimensionadas soluções para este hospital. Apesar de existirem muitos terrenos livres na envolvência, maioritariamente desativados de usos militares, foi decidido em 1992 construir uma grande ampliação que ocupou os espaços exteriores, e que foi inaugurada em 1998. A desarmonia do conjunto arquitetónico é evidente.

Curiosamente, neste ano de 1998 deu-se a inauguração da desafiadora ponte Vasco da Gama em Lisboa e realizou-se a Expo em terrenos recuperados junto do Tejo, desde logo com o intuito de valorizar aquele “novo espaço” com projetos estratégicos.


Imagem 2 - frontaria do Hospital de Santo António, em 1911. Este edifício com planta em U e jardim central, começou a ser construído em 1770 e foi inaugurado em 1824.


Exemplo 3 - No Porto, só o Museu Soares dos Reis merece a referência de “museu nacional”. Está instalado no Palácio dos Carrancas que começou a ser construído em 1795 para servir como residência familiar. Em 1861, foi adquirido pelo rei D. Pedro V para passar a residência oficial da família real nas suas visitas ao Norte do País e, para isso, foi remodelado.

Foi doado, em 1915, à Misericórdia, através do testamento de D. Manuel II. Mais tarde, o Estado comprou o palácio para ali instalar o Museu Nacional de Soares dos Reis. O Palácio foi alvo de remodelações para a sua nova função e em 1940 foi aqui inaugurado, assumido como o mais antigo museu público de arte em Portugal. Entre 1992 e 2001 o edifício foi remodelado com projeto do arquiteto Fernando Távora. Com a fachada principal servida pela rua D. Manuel II, em tempos uma alameda arborizada, este museu merecia, no século XXI, que a acessibilidade de públicos fosse tratada com especial minucia e delicadeza.

Mas, em 2006, junto da fachada e da porta principal do museu, foi construída, pelo município, a saída de um túnel rodoviário. Respeito intergeracional aconselharia que fosse pensado um projeto inteligente que viabilizasse o túnel e também valorizasse o uso pedonal da rua, não na mera memória de alameda arborizada, embora já então intensamente usada, mas agora inteligentemente, com um plano e um projeto escrupuloso e cuidadoso, adequado às exigências da mobilidade contemporânea numa urbe e, simultaneamente, respeitador de um museu nacional instalado num palácio implantado naquele espaço há mais de 200 anos.

Outros exemplos poderiam ser apresentados, até porque continuam a ocorrer, em 2026, no Porto e noutros sítios, casos de manifesta falta de “reflexão prévia” sobre a minimização de impactos sobre a memória, o que seria sinónimo de respeito intergeracional.

Reconhece-se que o património arquitetónico pode representar legitimamente, e rentavelmente, uma identidade ou uma memória comum. Reconhece-se que há sempre quem o queira destruir e outros que o querem preservar, por vezes há outros que o querem restaurar, mas também há quem queira prolongar o seu uso com formas criativas.

Jacques Le Goff, no final do século XX, chamava a atenção para o facto de duas noções, lentamente elaboradas durante longos períodos de tempo, quer separadamente, quer em simbiose, estarem então a convergir. Eram as noções de património e de identidade[1].

Reconhece-se que a dimensão cultural de uma cidade, de uma região, de uma nação está muito conformada pela antiguidade, mas também se reconhece que essa dimensão é valorizada pela modernidade. Habituamo-nos a ser confrontados com projetos de autores galardoados e com soluções audaciosas, até porque, habituamo-nos a ouvir, que a “engenharia resolve tudo…”. 

Mas, em contrapartida, recordo as palavras de Flórido de Vasconcelos quando, em 1981, alertava para a maneira quase pungente como mutilamos a cidade, a desfiguramos, a abastardamos, como a empobrecemos cuidando engrandecê-la e, por isso, propunha, a todos nós, uma reflexão serena e sincera[2].


Imagem 3 - alameda e exterior do Palácio dos Carrancas, construído em 1795. Em 1940 foi aqui instalado o Museu Nacional de Soares dos Reis.

 

Antes de nos preocuparmos com os espaços, sítios e monumentos beneficiados por qualquer proteção legal, antes de nos preocuparmos espontaneamente com o que consideramos como necessidade pública, antes de nos preocuparmos com o utilitário, e ainda antes de reconhecermos a identidade patrimonial, julgo que seria interessante que os decisores, antes de fazerem a primeira abordagem política e técnica a qualquer intervenção, sempre antes da decisão, se preocupassem com a dimensão do (des)respeito intergeracional que tal pode gerar.

Afinal, é apenas um pedido, um apelo de cidadania. Mas, no Porto, servindo de exemplo, receio que continue a ser um apelo redundante…


[1] LE GOFF, Jacques (1997) Entretiens du Patrimoine, Patrimoine et Passions Identitaires, ed. Fayard, Paris, pp. 9-13

[2] VASCONCELOS, Flórido (1981) Memória de uma cidade, Porto Esquinas do Tempo, Grupo IF, Porto, pp. 32-35


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17 Junho 2026


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