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Museus – qual o lugar da educação?

O que nos contam as obras de arte? De Turner à crise do Mediterrâneo.

A educação está no coração dos museus.

David Fleming, 2016


O que vemos quando chegamos ao pé de uma obra de arte na galeria de um museu e a observamos com um olhar atento? Que histórias nos conta?


E quando olhamos para esta obra de arte em específico, Naufrágio de um Cargueiro, de Turner? O que vemos? Que relações estabelece ela connosco e com o que somos? Com quem somos? Que relações estabelecemos através dela com a contemporaneidade?

E de que forma se pode trabalhar, no contexto da educação museal, estas e outras questões?


Ao vermos uma obra de arte acionamos os nossos processos de interpretação, relacionando-a com o que conhecemos, com o que somos, ativando a nossa matriz de relação e compreensão do mundo. Vemos para compreender, para produzir sentido, de forma a encaixar mais uma peça nas nossas experiências e conhecimento de acordo com os nossos interesses, motivações pessoais (Falk & Dierking, 2000), com os nossos conhecimentos prévios e em interação social (Simon, 2016), nas visitas aos museus, nas conversas estabelecidas com o mediador(a), com os amigos, colegas de turma e professores, família. Todos elementos que funcionam como motores de aprendizagem, construção e consolidação de conhecimentos partilhados.


Este espaço de diálogo, que se gera no museu, onde se podem contruir conversas contínuas, coletivas e participadas (Carbonell, 2016) estimula o pensamento critico e criativo sobre a obra de arte que estamos a ver, sobre o tempo em que vivemos, ativando os temas que nos tocam, portas de entrada para uma visão sobre o mundo e o lugar que nele ocupamos ou queremos ocupar. Consideradas assim como espaços de diálogo aberto, são momentos que contribuem para a compreensão de si do próprio sujeito, conduzindo à introspeção, mas também ao relacionamento com as culturas de vários tempos e lugares (Csikszentmihalyi, 1990).


Joseph Mallord William Turner: "Naufrágio de um cargueiro", c.1810. Óleo sobre tela, 173 x 245cm.

Na obra de Turner, Naufrágio de um Cargueiro, o que vemos então?


Vemos o que Turner viu? Vemos as suas ideias e intenções? Ou o que viram os seus contemporâneos? Vemos as vagas? A força da Natureza? Os ideias do Romantismo, corrente estética em que a obra se insere? Vemos a pequenez humana face à força e grandiosidade da Natureza? Vemos o Belo ou o Sublime – conceitos dos livros de história da arte? Vemos a excelência da técnica do artista? Vemos a sua modernidade face à época? O que vê cada um de nós?


Se vemos de acordo com o que somos, e se somos um resultado das nossas experiências (Hein, 1998), então veremos coisas diferentes uns dos outros na mesma obra de arte. E se queremos descobrir realmente o que é visto e as histórias que estas podem contar, então será necessário ouvir o que veem estes outros olhos e ver com eles.


Esta experiência de ouvir e ver em conjunto possibilita o desenho de outras experiências educativas que estabelecem novas formas de abordar as obras de arte, que não se baseia apenas numa comunicação unilateral de conhecimentos académicos, históricos, biográfico ou técnicos, mas que promove o pensamento conjunto sobre o que é visto pelos participantes, envolvendo-os e ouvindo as novas histórias que as obras de arte têm para contar e partindo delas para a construção conjunta de sentidos.


Apostando numa metodologia integradora, inclusiva e participativa (Matarasso, 2019) que transforma o visitante em intérprete e performer de práticas de construção de significados (Hooper-Greenhill, 2007) temos encontrado um caminho para o espaço do debate, em substituição do da visita e descoberto no fazer com as pessoas, em vez do fazer para as pessoas, um novo caminho cheio de surpresas sobre obras que achávamos que conhecíamos em profundidade.


Quando presentemente perguntamos o que estão a ver nesta obra, e em especial se o grupo for jovem e em idade escolar, as respostas remetem em grande número para o momento ainda atual da crise do mediterrâneo, visível nas notícias e redes sociais desde 2015. Estas pessoas que surgem na pintura a lutar pelas suas vidas e sobrevivência ressoam e fazem ligação com as pessoas que fogem dos seus países em busca de uma vida melhor, “refugiados” – que na tela se debatem com a tempestade, com a fragilidade humana, com o medo e a esperança, o desespero e entreajuda. 1


https://veja.abril.com.br/mundo/marinha-da-italia-registra-momento-em-que-barco-com-mais-de-500-refugiados-naufraga/

2016, https://veja.abril.com.br/mundo/marinha-da-italia-registra-momento-em-que-barco-com-mais-de-500-refugiados-naufraga/


A atualidade invade a pintura. O mundo em que vivemos transfere-se para a tela. As pinceladas acordam as imagens que nos marcam e as questões com que lidamos no aqui e agora. E é aqui que o museu se torna num espaço seguro para debater a inquietude, um espaço de conforto para debater o desconforto, um espaço para abordar estes e outros temas contemporâneos que integram a disciplina escolar da cidadania, uma área onde a programação educativa incide cada vez mais, consciente da sua importância enquanto espaço de construção de democracia e diversidade.


Acreditamos no papel ativo e cívico dos museus na atualidade, como espaços de educação participativa, em articulação com a escola e com o mundo. Neste sentido, criámos os Debates no museu: pensar em conjunto que aborda quatro áreas de pensamento – interculturalidade, direitos humanos, igualdade de género e sustentabilidade. Com as condicionantes da pandemia em que vivemos nos últimos dois anos adaptámos estas propostas para atividades que vão à escola ou são realizadas em plataforma digital online, em direto – Olhos nos olhos: cidadania em ação, que aborda essencialmente os direitos humanos, na sua amplitude. Estas propostas potenciam uma educação que envolve e produz agentes ativos, produtores culturais e não apenas recetores passivos ou consumidores culturais (Acaso, 2017). Acreditamos que o trabalho a partir da arte é um modo de moldar as nossas vidas, de expandir a nossa consciência, de dar forma às nossas disposições e de satisfazer a nossa procura de significado, estabelecendo contato com outras pessoas e compartilhando cultura(s) (Eisner,2002).


Uma obra de arte contém em si diferentes camadas de significados e interpretações, cada um de nós contém em si diferentes formas de se relacionar com a obra e de estabelecer interpretações, então cada obra conta não uma, mas sim várias e diferentes possíveis histórias.


A Humanidade conta histórias desde sempre, aprende com as histórias, transforma-se com a história, mas quando queremos contar sempre a “nossa” história deixamos de fora outras perspetivas e olhares tão relevantes ou importantes como os nossos. É urgente deixarmos entrar novas histórias nas nossas vidas e nos nossos museus, porque não existem histórias únicas, mas múltiplas e diversificadas como nós. E as histórias, velhas e novas, postas em conjunto fazem-nos transformar, recriar e reimaginar a arte, o mundo e a nós próprios.


Pierre Delavie: “A balsa de Lampedusa”, no Rio Sena, em Paris, 2017.

Pierre Delavie: “A balsa de Lampedusa”, Rio Sena, Paris, 2017.


1 “Refugiado é toda pessoa que, em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer regressar ao mesmo, devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar o seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outros países.” (Wikipédia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Refugiado, 2021)

ACASO, M, & MEGÍAS, C. (2017).Art Thinking: como el arte puede transformar la education. Grupo Planeta

CARBONELL, J. (2016). Pedagogias do século XXI. 3.ª ed. Penso.


CSIKSZENTMIHÁLYI, M.& ROBINSON, R. (1990), The Art of seeing. An interpretation of aesthetic encounter. J.Paul Getty Museum and the Getty Center for Education in the Arts.


EICHENBERG, F.(24/01/2017) “A balsa de Lampedusa” e o drama dos refugiados.

https://fernandoeichenberg.com/a-balsa-de-lampedusa-e-o-drama-dos-refugiados/


EISNER, E. (2002) The arts and the creation of mind. Yale University Press


FALK, J. H. & DIERKING, L. D. (2000). Learning from Museums, Visitor Experiences and the Making of Meaning. AltaMira Press.

HEIN, George E. (1998). Learning in the museum, Routledge, London and New York.


HOOPER-GREENHILL, E. (2007). Museums and Education, Purpose, Pedagogy, Performance. Routledge.


Marinha da Itália regista momento em que barco com mais de 500 refugiados naufraga. https://veja.abril.com.br/galeria-fotos/marinha-italiana-resgata-refugiados-no-mar/


MATARASSO, F. (2019). Uma Arte Irrequieta: Reflexões sobre o triunfo e importância da prática participativa. Fundação Calouste Gulbenkian.

A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


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