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Desafiar Caminhos!...



Célia Sousa *


O ponto de partida


A comunicação é um processo de interação no qual partilhamos mensagens, ideias, sentimentos e emoções, podendo influenciar o comportamento das pessoas que, por sua vez, reagirão a partir das suas crenças, valores, história de vida e cultura.


De um modo geral, podemos entender comunicação como uma “espécie” de troca (verbal ou não) entre um interlocutor que produz um enunciado destinado a outro interlocutor, de quem ele solicita a escuta e/ou uma resposta implícita ou explícita.


Sendo assim, podemos também dizer que a comunicação é um processo com o objetivo de influenciar os outros, tal como defendia Aristóteles, ao sustentar que o objetivo principal da comunicação é a persuasão, isto é, a tentativa de o orador fazer com que as outras pessoas tenham o mesmo ponto de vista que o seu. Desta forma, a comunicação apenas é considerada como um poder, uma arma do falante para garantir o consenso de ideias. Mas a comunicação pode, igualmente, ser vista como um fator de desenvolvimento individual, por traduzir a experiência do indivíduo também enquanto ser social e sociável em interação constante com os outros comunicadores.


A nível antropológico, a comunicação é um instrumento de formação da cultura do sujeito e da cultura do seu semelhante. É pela comunicação que uma pessoa dá a conhecer a sua cultura e conhece a cultura de outra pessoa.


Uma das mais importantes necessidades do ser humano é o seu relacionamento com os outros. Para expressão das suas necessidades, da sua vontade, para troca de pontos de vista, para um aumento do conhecimento mútuo, para fazer amigos, para a sua realização profissional, a comunicação é fator essencial.


O ato de comunicar faz parte da natureza humana e conforme Manzini e Deliberato (2006) [1], não se constitui apenas na fala, é muito mais abrangente, visto que há recursos verbais e não verbais que se complementam nas interações e que integram todo o corpo. A maioria das pessoas recorre a diferentes tipos de linguagens e símbolos para comunicar.


Segundo Tetzchner & Martinsen (2000:16) [2], os estudos apontam que 10% da humanidade apresenta um qualquer tipo de incapacidade. Desse grupo, cerca de 0,5% é afetada por incapacidades ao nível comunicativo. Muitas pessoas não são capazes de comunicar através da fala, o que nos leva necessariamente à questão: Como é que alguém que não fala pode comunicar? Daí a quase obrigação de nos esforçarmos por, empregando todos os meios ao nosso alcance, proporcionarmos àqueles que entre nós têm problemas de comunicação, as condições para se poderem expressar e fazer compreender pelos que os rodeiam.


Neste sentido surge o mote para o desenvolvimento de diferentes projetos na área da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) em diferentes contextos culturais da Região de Leiria.


Desenvolvimento


Vivemos atualmente numa Sociedade em constante adaptação, mutação e evolução, onde a importância das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), em particular o uso da Internet, é cada vez mais evidente. Em Portugal tem-se constatado que ainda existe um grande número de cidadãos com baixo nível de literacia informática, em especial oriundos de grupos desfavorecidos ou de baixos rendimentos, idosos e pessoas com deficiência que não se enquadram nos padrões formatados e estandardizados.


Numa época caracterizada pela crescente digitalização da informação e pela ligação dos serviços em rede (sobretudo através da Internet), é fundamental criar condições para que todos, sem exceção, possam aceder a essa mesma informação.


Neste âmbito, vamos apresentar o modo como o Centro de Recursos para a Inclusão Digital (CRID®), tem vindo ser o motor de desenvolvimento da acessibilidade cultural na Região de Leiria, tendo por base a transferência de conhecimento para a sociedade.


Como agente socialmente responsável, o Politécnico de Leiria tem um conjunto de serviços e meios, dinamizando múltiplas iniciativas que privilegiam o respeito pelos direitos humanos, o investimento na valorização pessoal, o apoio a causas de cariz social e o respeito pelos valores e princípios éticos da sociedade em que se insere, dos quais se destaca o CRID® situado na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS).


O CRID® desenvolve a sua atividade no âmbito da avaliação e diagnóstico de pessoas com deficiência, tendo como missão facilitar a participação dos cidadãos com necessidades específicas na sociedade da informação e conhecimento através de um conjunto de iniciativas e projetos de cariz social.


A região de Leiria, com uma abrangência geográfica significativa, tem vindo a adaptar-se às exigências da sociedade de informação, apoiando iniciativas relacionadas com as novas tecnologias e ajustando as boas práticas que são executadas a nível nacional.


A região de Leiria tem vindo a demonstrar ao longo da última década uma preocupação em disponibilizar modos alternativos de comunicação nos diferentes espaços culturais, contribuindo assim para uma acessibilidade plena de todos os cidadãos, colocando a região na vanguarda da inclusão, abordando a comunicação acessível através de vários olhares e em vários contextos, para que se atinja uma perspetiva holística do fenómeno.


Sendo o acesso à cultura um direito de todos os cidadãos, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência refere no seu art.º 30 que os estados signatários devem assegurar o acesso das pessoas com deficiência na participação cultural, recreativa, lazer e desporto, o que nos transporta para a questão: será que todos podem fruir da cultura?


Após a análise dos diferentes tipos de barreiras, constatamos que as barreiras intelectuais, são o principal obstáculo no acesso às diferentes ofertas culturais por pessoas que: têm baixa literacia, não possuem conhecimento técnico e/ou científico especializado, têm deficiências ou limitações sensoriais como, cegos, surdos, com défice de atenção, com deficiência intelectual, com perturbações do espectro de autismo, ou cuja primeira língua não é o português.


Tendo por base a CAA que resulta da utilização coordenada da escrita simples com um sistema de símbolos, segundo Manzini e Deliberato (2006) e Chun (2009) [3], a CAA constitui-se como uma área de caráter multidisciplinar, envolvendo profissionais de diferentes campos de conhecimento, que viabilizam um conjunto de procedimentos técnicos e metodológicos direcionados às formas de comunicar.


No contexto cultural, a CAA complementa-se através da utilização da escrita simples, uma vez que pressupõe a escrita ou reescrita do texto expositivo ou informativo de modo claro e da escrita pictográfica.


A escrita simples consiste na reescrita do texto, mantendo o rigor do original, mas simplificando o vocabulário e a sintaxe (EKARV, 1994; 1999) [4], o que para Martins (2014) [5], consiste em utilizar palavras simples, entendidas pela maioria das pessoas, partindo de conceitos familiares, respeitando o conhecimento que a maioria tem dos diferentes contextos.


A escrita pictográfica tem por base a utilização de símbolos pictográficos ou imagens, para representar objetos, ações, conceitos e emoções, podendo incluir desenhos, fotografias, objetos, expressões faciais, gestos, símbolos auditivos (palavras faladas), ou ortográficos (símbolos baseados no alfabeto). Nesse contexto o CRID®, desenvolveu um conjunto de projetos que tem como objetivo a participação de todos na sociedade em que se encontram inseridos, os quais passamos a apresentar:


O projeto “Leiria de Todos + Acessível” tem como principal objetivo contribuir para uma acessibilidade plena de todos os cidadãos, colocando assim a região de Leiria na vanguarda da inclusão, abordando a comunicação acessível através de vários olhares e em vários contextos. Foram desenvolvidos em Braille e em linguagem pictográfica os folhetos do Castelo de Leiria, Moinho do Papel, Museu da Imagem em Movimento (M|I|MO), Museu de Leiria, Centro de interpretação Abrigo do Lagar Velho, Agromuseu Municipal Dona Julinha, Castelo de Pombal, Castelo de Porto de Mós, Mosteiro da Batalha, Museu de Arte Popular de Pombal e Grutas da Moeda, permitindo o acesso à informação por públicos diferentes.


Guião do Mosteiro da Batalha em pictogramas | Fonte: Acervo do CRID®



“Itinerário Jubilar”


O projeto “Itinerário Jubilar” teve como objetivo o desenvolvimento de um guião/folheto multiformato, com duas versões – Braille com imagens em relevo, que pode ser lido por pessoas cegas, e em sistema pictográfico para a comunicação (pictogramas), para pessoas com incapacidade intelectual e baixa literacia.


O projeto recebeu uma carta de Agradecimento de Sua Santidade o Papa Francisco.


Itinerário Jubilar em Braille e pictogramas | Fonte: Acervo do CRID®


“Comunicação inclusiva no espaço litúrgico: identificação dos espaços”


O projeto “Comunicação inclusiva no espaço litúrgico: identificação dos espaços” pretende identificar os diferentes espaços litúrgicos através de um guião multiformato impresso que permitirá a todos os públicos “lerem” em diferentes versões: Braille com imagens em relevo, em escrita aumentada e em sistema pictográfico para a comunicação, podendo ser lidos por pessoas cegas, surdas e com incapacidade intelectual.


Guião "Comunicação inclusiva no espaço litúrgico: identificação dos espaços" | Fonte: Acervo do CRID®


Os projetos aqui apresentados tiveram na sua génese a importância da comunicação como uma das mais significativas necessidades do ser humano em sociedade em diferentes contextos.


A divulgação dos projetos desenvolvidos ao nível da comunicação social, permitiu “contagiar” outras regiões de Portugal de forma positiva, levando as entidades competentes a repensar a comunicação e acessibilidade cultural.


A acessibilidade cultural é pois, um caminho para uma sociedade mais inclusiva e equitativa.


Considerações finais


Nos diferentes contextos culturais, os respetivos profissionais devem estar preparados para compreender e acolher todos os públicos. E, com um público cada vez mais diverso, é importante respeitar a diversidade humana, independentemente de sua condição educacional, social ou cultural.


A comunicação aumentativa permite não só a comunicação básica do indivíduo, como também a interação com outras pessoas em condições de igualdade, segundo as capacidades de cada um. Assim, os diferentes modos de comunicação promovem a inclusão de pessoas com deficiência ou com dificuldades de comunicação oral, ao possibilitarem a compreensão e livre expressão, mas beneficiam igualmente outros públicos, como idosos ou estrangeiros, constituindo-se como um recurso de comunicação para todos.



[1] MANZINI, E. J.; DELIBERATO, D. Portal de ajudas técnicas para educação: equipamento e material pedagógico especial para educação, capacitação e recreação da pessoa com deficiência física: recursos para comunicação alternativa. 2. ed. Brasília: MEC/SEESP, 2006.


[2] VON TETZCHNER, S.; MARTINSEN, H. Introdução à comunicação aumentativa e alternativa. Portugal: Porto Editora, 2000.


[3] CHUN, R. Y. S. Comunicação suplementar e/ou alternativa: abrangência e peculiaridades dos termos e conceitos em uso no Brasil. Pró-Fono Revista de Atualização Científica, Barueri, 2009. v. 21, n. 1, p. 69-74.

[4] EKARV, M. Combating redundancy: writing texts for exhibitions. In: GREENHILL, Eilean Hooper (Ed.). The Educational Role of the Museum. London: Routledge, 1994/1999. p. 201-204.

[5] MARTINS, H. M. L. E. P. O Museu Nacional de Arte Antiga, o edifício e a sua história: contributos para um projeto de comunicação. Ano. 153 f. Dissertação (Mestrado em Museologia) – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2014.


Célia Sousa é Coordenadora do Centro de Recursos para Inclusão Digital (CRID) da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, Docente e investigadora do Politécnico de Leiria e Investigadora Integrada do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Polo do IPLeiria (CIS.NOVA. IPLeiria). Doutora em Ciências da Educação na Área da Comunicação.


A autora utiliza o Acordo Ortográfico.


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