Entrevista ao Atelier Samthiago (Prémio Patrimonio.pt 2021)



Na 1ª edição dos prémios, em 2021, o vencedor da categoria "Prémio Patrimonio.pt" foi o Atelier Samthiago, com o projecto "De Geração em Geração, Património e Formação: Plano de sensibilização, formação e estágios para jovens". Com esta premiação, foi dada a oportunidade ao vencedor de estar presente numa das feiras internacionais da rede Herifairs. O Atelier Samthiago escolheu marcar presença no SALONE DELL'ARTE E DEL RESTAURO DI FIRENZE, entre os dias 16 e 18 de Maio, e a Patrimonio.pt foi ao seu encontro para entrevistar noticiar esta participação.


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Patrimonio.pt: Carlos, gostaria de começar pelo início: perceber as origens do Atelier e quais as suas áreas de actuação?


Atelier Samthiago (Carlos Costa): O Atelier nasceu de forma natural, não foi uma coisa pensada. Comecei a trabalhar em 2002 e 2003 de forma independentemente com outras empresas e depois o volume de trabalho em carteira começou a aumentar, o que me levou à necessidade de criar uma sociedade por motivos fiscais e, em 2005, acabei por abrir a empresa. É uma empresa familiar, os sócios sou eu e a minha esposa, Fernanda Araújo, cuja formação não é em Restauro, mas sim em Direito, acabando por dar bastante apoio à empresa. Foi uma evolução natural do crescimento de trabalho que eu tinha, enquanto profissional da área. O nome de Atelier Samthiago vem dos primeiros trabalhos que fiz: o meu primeiro grande projecto foi numa capela dedicada a Santiago e tive também uma exposição, da minha autoria, em Belas-Artes, numa galeria com o nome Santiago e onde vendi todos os meus trabalhos. O nome Samthiago surgiu assim de uma forma natural, embora tenha tentado depois dar um pouco de marketing ao nome para o tornar mais impactante. No que toca às áreas de actuação, nós trabalhamos em conservação e restauro de património artístico nas mais variadas áreas como azulejo, talha, pintura mural, de cavalete, mobiliário, escultura – no fundo, tudo o que esteja relacionado com património artístico móvel, imóvel ou integrado. Acabamos por fazer também algum trabalho de reabilitação de imóveis classificados porque é uma área paralela e que temos que conjugar, embora não seja esse o nosso mercado principal que é, efetivamente, a conservação e restauro. Sou formado pela Universidade Nova de Lisboa, embora nos últimos anos já faça pouca conservação e mais gestão – é a consequência do desenvolvimento normal da empresa.


Atelier ©Atelier SAMTHIAGO


Patrimonio.pt: O que entende ser os maiores desafios da Conservação e Restauro em Portugal?


Atelier Samthiago (Carlos Costa): Neste momento, em termos de trabalho de conservação e restauro, nenhum técnico nem nenhuma empresa se pode queixar porque felizmente existem vários fundos comunitários para recuperar património. A recuperação do património desenvolve-se em torno de um setor que é o turismo, com muito dinheiro em torno sendo que, felizmente, há muitas verbas para a conservação e restauro. Penso que o principal problema estará relacionado com a precariedade, não só dos trabalhadores como também das empresas: normalmente são contractos com prazos curtos, mesmo os públicos, e nos trabalhos de conservação e restauro não são muitos os técnicos que podem estar a trabalhar em permanência nas suas cidades ou ateliers, pela obrigatoriedade de mobilidade característica do trabalho em património cultural. Se no início da profissão isso até pode ser um desafio ou factor motivante, com o tempo e os novos projectos de vida, pode ser um factor que dificulta o trabalho do profissional. Isto não será uma coisa que vá mudar, portanto não podemos dizer que seja um problema que se vai ultrapassar, mas eu noto que há muitos colegas que acabam por deixar a profissão por este motivo. No Atelier Samthiago ainda temos algum fluxo de trabalho em atelier, mas a maioria do trabalho é fora e os técnicos têm de se adaptar a essa circunstância.


Catedral da Guarda ©Atelier SAMTHIAGO

Patrimonio.pt: Quais foram os projectos mais impactantes e que trouxeram mais reconhecimento ou desafios ao Atelier Samthiago?

Atelier Samthiago (Carlos Costa): Talvez o nosso primeiro contracto público seja o trabalho que alavancou a empresa. Foi um trabalho para a Universidade de Coimbra, quando ainda estavam a preparar a candidatura a Património Mundial da UNESCO, e interviemos no Laboratório Chimico. Os trabalhos que fizemos para a Presidência da República, em particular, no Palácio de Belém, realizados aquando das férias do Presidente da República, na altura o Professor Aníbal Cavaco Silva, com cerca de vinte a trinta dias para a totalidade da intervenção já que a Sala dos Embaixadores já tinha agendada uma recepção a uma embaixada. Foi um projeto desafiante, tínhamos de cumprir prazos extraordinários, o trabalho tinha de ficar bem feito e o cliente era a entidade máxima nacional. Nada podia falhar e o que é facto é que nada falhou. Foi um trabalho que nos marcou e que veio provar a nossa capacidade.


Mais recentemente, tivemos o trabalho da Catedral do Funchal que foi o maior contracto público de prestação de serviços de conservação e restauro alguma fez realizado em Portugal, sendo assim uma obra que marca naturalmente a empresa.


Desde 2010 que temos procurado entrar no mercado de proximidade, em Espanha, pois nós exportamos serviços e não material, e não podemos exportar serviço daqui para China - ou poderíamos, mas ficariam tão caros que não seria viável: de facto, o mais fácil seria começar pelo mercado de proximidade em Espanha. Fizemos o nosso primeiro trabalho em 2015 numa igreja em Valdeiglesias, em Madrid, através de um parceiro, assinalando o início do nosso processo de internacionalização. Mais recentemente, em 2020/2021, levámos a cabo um trabalho na catedral de Santigo de Compostela – claramente, o nosso trabalho mais relevante em Espanha e que alavancou a nossa presença lá. Neste momento, temos mais obras em Espanha do que em Portugal: nunca procurei e não tenho como pretensão que o mercado de Espanha represente a maior parte da faturação ou volume de trabalho, mas simplesmente têm surgido diversas oportunidades, mesmo entidades publicas que nos procuram pelos nossos serviços, o que é sinal que estamos a trabalhar bem.


Catedral de Santiago de Compostela ©Atelier SAMTHIAGO


Patrimonio.pt: Quais são as maiores diferenças que identifica entre o mercado espanhol e o mercado português?


Atelier Samthiago (Carlos Costa): O mercado espanhol é muito heterogéneo. Nós temos desde clientes que nos têm de acompanhar todos os dias ao pormenor, até clientes que confiam no nosso trabalho e adjudicam os serviços e que nos dão mais liberdade. O mercado espanhol também está muito mais saturado que o nosso, é um mercado mais complicado de entrar porque eles têm uma escola superior de restauro em cada região e, mesmo apesar de Espanha ser um mercado maior, não é assim tão maior que possibilite a empregabilidade de tantos técnicos. O que acontece é que acabam por vir muitos profissionais trabalhar para Portugal. Nós neste momento já contamos com 30% de técnico espanhóis e sei que outras empresas têm o mesmo cenário. Normalmente quem vem são pessoas motivadas, sem desprimor para os nossos técnicos, mas quem vem de fora e está disposto a sair do seu país é porque quer trabalhar na área, vem entusiasmado e com gosto para desafios. Contudo, eu acho que não há falta de trabalho em Portugal: quem vai desistindo será pela instabilidade associada à precariedade dos contratos, porque trabalho, na minha óptica, há bastante, desde colegas independentes até técnicos de artes e ofícios ou artes decorativas que têm o trabalho que querem e conseguem fazer dinheiro.


Palácio Nacional de Belém ©Atelier SAMTHIAGO


Patrimonio.pt: Como surgiu o projecto "De Geração em Geração, Património e Formação " e o que vos levou a candidatá-lo aos Prémios Patrimonio.pt, em 2021?


Atelier Samthiago (Carlos Costa): Desde 2005 que fazemos actividades viradas para os estudantes mas, em 2019, quisemos evoluir e assim surgiu o projecto "De Geração em Geração, Património e Formação”. Sempre mostrámos disponibilidade para celebrar protocolos com entidades e receber jovens estudantes. Todos nós fizemos os nossos estágios e eu sei que muitas empresas não têm essa disponibilidade porque é preciso ter um tutor, entre outras questões: nós, sempre que podemos, temos alunos a estagiar na nossa empresa. Procuramos que essa formação para as artes e conservação restauro seja feita praticamente desde o primeiro ciclo. Na próxima semana, por exemplo, irei a um infantário, por ser Dia Nacional do Azulejo, para fazer uma atividade em que vou mostrar azulejos, explicar para que servem e depois eles vão pintar um azulejo no fim. Esta sensibilização é feita quase desde bebés. Não quer dizer obviamente que todas estas crianças estarão ligadas ao património no futuro, mas ficam sensibilizadas para a temática e vão dar mais valor. Quanto aos Prémios Patrimonio.pt, eu não estava minimamente à espera que o projecto fosse reconhecido, mas nós escolhemos candidatarmo-nos para mostrar o trabalho que temos vindo a realizar e que é possível fazê-lo, desprovido de qualquer interesse comercial - simplesmente porque temos gosto que a temática do património seja abordada nas escolas. Faz parte da nossa obrigação e de quem está no sector, sejam empresas ou sector publico, fazer formação no sector do patrimonio e da conservação. No Atelier Samthiago tentamos fazê-lo de forma regular, sendo que este ano já é a nossa quarta iniciativa. Faz parte do ADN da empresa esta postura perante a formação.



Prémios Patrimonio.pt 2021 (Bienal AR&PA) ©Spira - revitalização patrimonial


Patrimonio.pt: Para além do reconhecimento dos Prémios Patrimonio.pt, receberam também a oportunidade de participar no SALONE DELL'ARTE E DEL RESTAURO DI FIRENZE, neste mês de Maio. Quais são as expectativas do Atelier Samthiago para esta participação?


Atelier Samthiago (Carlos Costa): Quando concorremos, eu não sabia qual era o prémio! Recebemos com agrado, pois já nos tínhamos inscrito para feira de 2020, mas foi o ano em que começou a pandemia e o evento acabou por ser virtual. No fundo, acabou-se por conjugar tudo e a nossa participação física será este ano, com o apoio da Patrimonio.pt e da Spira. As expectativas com este Salone são chegar a um novo mercado. Temos tentado fazer aproximações de mercado com Itália e fomos reconhecidos, há quatro anos, como uma entidade fornecedora do Vaticano. Fizemos a nossa candidatura, cumprimos os requisitos e fomos aceites com este estatuto, e, embora ainda não tenhamos trabalhado lá, o primeiro passo foi dado. A nossa presença nesta feira e com este stand vai ser uma importante aproximação ao mercado italiano. Nós vamos para conquistar esse mercado.


SALONE DELL'ARTE E DEL RESTAURO DI FIRENZE ©Atelier SAMTHIAGO


As coisas vão surgindo naturalmente e nós começámos o primeiro contacto com este mercado em 2014, mas é algo que nunca pressionamos muito, pois nunca será o mercado de eleição, embora gostaríamos de abraçar alguns projectos em Florença, Roma ou no Vaticano, trazendo esse prestígio para a empresa. Eu costumo dizer que o meu objectivo profissional é restaurar uma “Mona Lisa”, ou seja, um bem de renome internacional, e o Vaticano enquadra-se, sem dúvida, nestes parâmetros.


Patrimonio.pt: Por fim, quais são as suas perspectivas para sector da Conservação e Restauro nos próximos 5 a 10 anos, e como pretende posicionar o Atelier Samthiago neste sector?


Atelier Samthiago (Carlos Costa): Como já referi, há trabalho e vai continuar a haver. Na famosa “bazuca” não havia verbas canalizadas para o restauro do património mas, entretanto, houve um acerto e alguns projectos de turismo começaram a canalizar verbas nesse sentido e nós já começámos a ter algum feedback das entidades nacionais para iniciar processos. E ainda existem os financiamentos da União Europeia, pelo que haverá muitas oportunidades. Infelizmente o dinheiro não vem por causa do património, vem para o turismo e para o desenvolvimento local, e o património tem de se adaptar e aproveitar as oportunidades para preservar o que temos. Depois de 2030 não sei. O mercado português funciona muito com o financiamento europeu e eu penso que neste momento não terei nenhuma obra sem ser financiada pela União Europeia, por isso, acabando esse financiamento, não sei como se comportará o mercado - vamos ter fé de que existirão verbas a longo prazo para preservar o nosso património.


Catedral do Funchal ©Atelier SAMTHIAGO


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