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Da necessidade de lançar pedras ao charco: questões de género, identidade, museus e democracia


Estocolmo, Julho de 2009, Moderna Museet.

Surpreendeu-me, assim que entrei, que o lobby do museu fosse ocupado por uma instalação da artista Bárbara Krüger que envolvia todo o espaço de acolhimento, incluindo o balcão da recepção onde se compravam os bilhetes, criando um ambiente que provocava, implicando o observador. Ao lado da recepção e da instalação um texto da directora falava aos visitantes, explicando os seus compromissos enquanto directora recente e as suas linhas orientadoras em termos de exposição e aquisição de peças. A colmatação de lacunas na colecção no sentido de a dotar de uma maior multiplicidade de representações e uma especial atenção às artistas mulheres e às questões de género eram algumas dessas traves mestras anunciadas. A instalação da Barbara Krüger fazia parte dessa vontade de colocar o dedo nalgumas feridas uma vez que o seu trabalho incide assumidamente sobre a cultura visual e a sua construção de estereótipos e reforço de discursos dominantes sobre quem somos, como nos vemos, que papéis desempenhamos.

Fiquei curiosa e agradavelmente surpreendida, não é comum os directores e/ou directoras “conversarem” assim abertamente com os visitantes, logo na zona de acolhimento do museu, clarificando as premissas sobre as quais constroem as narrativas vigentes no espaço expositivo. As salas seguintes foram a confirmação desta boa primeira impressão. A directora voltava a explicar que tinha solicitado aos diferentes curadores que expusessem um núcleo das obras da colecção segundo diferentes discursos, escolhendo uma narrativa que tanto se podia ligar a questões políticas e históricas, como a questões de género ou outras e por isso cada uma das salas seguintes era assinada por um curador diferente que nos explicava que leitura nos propunha com essa escolha.

A consolidar esta proposta os textos de parede explicitavam os critérios deixando evidente que as obras eram uma selecção possível, uma escolha específica, dentro de um discurso concreto – uma proposta de leitura com a qual o visitante se podia relacionar a partir das suas próprias escolhas e convicções e não uma voz universal, omnipotente e omnipresente, supostamente neutral e normativa como frequentemente costuma ser a que se apresenta nos espaços museológicos. Um áudio guia completava este convite reforçando as propostas já feitas na organização das salas, mas facultando também outras menos evidentes.

Centrei-me nas questões de género, em parte porque me era dada essa possibilidade e em parte porque me interessam enquanto profissional, enquanto visitante, enquanto mulher, enquanto feminista, em suma enquanto pessoa, até que me apercebi de que havia ainda uma outra opção no áudio guia – a visita Queer.

Socorrendo-me das palavras do John Falk “as pessoas visitam e dão sentido aos museus a partir de experiências museais assentes na capacidade que estas instituições têm de preencher e cumprir objectivos e interesses relacionados com as suas próprias identidades”, e eu não sou diferente. As teorias Queer não me eram familiares, as minhas lutas eram feministas, as minhas leituras também, a minha escolha de linha de análise e desconstrução crítica dos discursos museológicos tendia sempre a ser “enviesada” por este meu posicionamento identitário. Construímo-nos como pessoas numa permanente negociação entre os discursos identitários existentes, entre as representações disponíveis, por identificação ou por recusa, por reforço ou por crítica, apenas sentindo necessidade de criar novas representações quando, por alguma razão as que existem não nos incluem, não nos reflectem, não nos representam.

Na relação com os espaços, as colecções, os objectos e os discursos museológicos estamos atentos ao que faz parte do mapa de sentidos que partilhamos com as várias comunidades com que nos identificamos, aquelas que Eileen Hooper Greenhill designa como comunidades de interpretação e que nos ajudam a criar os critérios para lermos o mundo e desenhar as redes partilhadas de sentido que nos permitem comunicar uns com os outros e sentir que pertencemos. A noção de pertença e de identificação é reforçada diariamente nas práticas sociais, na performatividade dos papéis que desempenhamos e da forma como nos vemos. A identidade de género é isso mesmo, uma complexa teia de construção social, de performatividade e de percepção de si na relação com os modelos vigentes, que quando coincide com os modelos disponíveis floresce e ganha força, muitas das vezes tornando-nos inconscientes dos muitos outros modelos em falta.

Escutar a proposta Queer da coleção foi, neste sentido, para mim uma pedra no charco. Era a versão de visita audio mais surpreendente e divertida de todas as disponíveis, e este carácter festivo também rompeu só por si muitos dos estereótipos que eu tinha sobre os critérios que validam a cientificidade dos discursos museológicos. Mas para além disso tornou-me mais consciente de uma outra multiplicidade de questões por trás da construção da ideia de género binária em que até então me tinha movido. E fez-me ainda mais consciente dos meus próprios processos de inclusão e exclusão de discursos e leituras. E das fronteiras de visibilidade e invisibilidade que esses processos, tantas vezes inconscientes, desenham e reforçam.

Hoje sei que a narrativa que naquele dia ouvi não era sequer muito crítica das questões de identidade de género que hoje se discutem e do conceito LGBTQ+ com que hoje nos pensamos enquanto sociedade múltipla e democrática, mas valeu pela capacidade que teve de me retirar do meu lugar habitual, consciencializando-me ainda mais da importância de abrir espaços nos discursos dos museus e na cultura material e imaterial que preservam, para que todas as pessoas se possam rever e reconhecer para além dos modelos hegemónicos vigentes. Fez-me ficar mais atenta e profissionalmente mais responsável por promover territórios diversos e democráticos.

E se a teoria Queer se propõe explicitar e analisar os processos de construção de uma identidade de género a partir de uma perspectiva comprometida com as margens, com os socialmente estigmatizados, dando atenção à formação de identidades sociais dominantes e normativas que excluem e invisibilizam as identidades consideradas "desviantes", ela toca em feridas sociais importantes e chama os museus a fazerem o seu papel enquanto estruturas que validam e dão visibilidade a narrativas que representam a sociedade e a forma como ela se conta ao longo dos tempos. Ela não é portanto uma área secundária que os museus podem optar por ignorar, mas uma reflexão dinâmica e questionadora da construção da identidade social que contribui para uma releitura das colecções e seus objectos e para a recuperação de uma história e um património que sempre se “escreveu” por ausência. E de facto, alguns museus têm vindo a fazer este trabalho - Queer Britannia na Tate em 2013; Queering the Collections em 2015; criação do novo museu Queer Britain em 2021, para nomear apenas os mais visíveis.

Os museus são importantes espaços de representação e validação. Têm por isso uma responsabilidade acrescida no desenho de uma plurivocalidade capaz de espelhar a diversidade das sociedades e que deveria estar presente nas colecções que guardam, nas narrativas que com elas constroem e nos programas que propõem com e para os diferentes públicos.

Enquanto responsável de educação entendo que devemos programar de forma a potenciar esta plurivocalidade. As questões de género fazem parte disso, prendem-se com questões de direitos humanos – o direito a sermos quem somos e a contarmos as nossas histórias através do património material que as nossas sociedades preservam, estudam, guardam e expõem.

Vejo a programação educativa como um alargamento de possibilidades de diálogo. É um espaço feito de muitos lugares e olhares, de pessoas para pessoas, onde a democracia se constrói e consolida diariamente. Isso implica que no desenho das propostas de encontro se tenha sempre como eixo orientador a promoção desses muitos lugares de identidade. Lugares dinâmicos, que por vezes implicam reescrever o passado para poder inscrever no presente o direito a existir em igualdade. Lugares de fala e por isso de poder. Lugares que são por vezes desconfortáveis, porque mexem com tabus e interditos, e, por isso mesmo, ainda mais necessários.

Se queremos os museus enquanto espaços vivos, relevantes e significativos numa sociedade temos que os conceber como espaços onde se debate, onde se intervém, onde se promovem mudanças – espaços com responsabilidade social e política.

Por vezes estes lugares são mais evidentes, desenhados a partir de colecções e exposições que trazem em si mesmas uma vontade e uma proposta de reflexão e discussão destas temáticas, como foi o caso da exposição de José Escada Eu não evoluo, viajo que esteve patente na Gulbenkian em 2016, numa curadoria de Rita Fabiana, e que apresentava a obra do artista também numa relação estreita com a sua identidade de género.

Mas por vezes são desenhados a partir de uma vontade de diversificar abordagens e democratizar os espaços de representação construídos em colecções que aparentemente nada têm que ver com identidade de género, como foi o caso das visitas lançadas em 2017 A Colecção sai do Armário Dourado, como resposta ao desafio lançado pelo Dia Internacional dos Museus - Museus e histórias contestadas: Dizendo o indizível nos museus - com que o Museu Gulbenkian ganhou o prémio Arco-Íris – ILGA Portugal Igualdade na Cultura.

Em todo o caso, que preside a qualquer uma destas propostas educativas é uma consciência de que os museus e as suas colecções e exposições são territórios com um imenso poder validador, e que esse poder implica uma grande responsabilidade num sistema democrático e plural. Assumir que os museus podem contar todas as histórias é criar o espaço para que todas as vozes se façam ouvir.

Your body is a battleground, Barbara Kruger, 1989

Referências:

FALK, John (2016) Identity and the Museum Visitor Experience, Routledge, London and New York, 2ª ed

HOOPER-GREENHILL, Eilean (1999) The Educational Role of the Museum, Routledge, London and New York, 2ª ed

JONES, Josh (2018), “Theorist Judith Butler Explains How Behavior Creates Gender: A Short Introduction to “Gender Performativity”, in Open Culture.

Foto do cabeçalho:

Dia Internacional dos Museus 2017 - A Colecção sai do Armário Dourado, visita temática sobre as narrativas queer na colecção Gulbenkian.

Susana Gomes da Silva é Responsável de Educação no Museu Calouste Gulbenkian.

Será formadora no Seminário Queer? Narrativas LGBT em museus portugueses e foi oradora na Conferência Anual da Acesso Cultura em 2018.

#acessocultura #ACESSIBILIDADE #MUSEUS #OPINIÃO

BIENAL AR&PA 2019

OPINIÃO

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